Kim veste a farda, exibe mísseis e avisa que vai reforçar armas nucleares

Líder discursou durante um desfile militar que assinalou os 90 anos da fundação do Exército Revolucionário do Povo Coreano, na Praça Kim Il-sung em Pyongyang.
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As forças nucleares, símbolo da nossa força nacional e eixo do nosso poder militar, devem ser fortalecidas em termos de qualidade e escala", afirmou Kim Jong-un. O líder da Coreia do Norte prometeu não só desenvolver o armamento nuclear do seu país, como fazê-lo "a um ritmo mais rápido", num longo discurso durante um desfile militar em Pyongyang, de acordo com a agência estatal KCNA.

Apesar de o seu conteúdo só ter sido divulgado ontem, o discurso aconteceu na segunda-feira à noite, durante um desfile para celebrar os 90 anos da fundação do Exército Revolucionário do Povo Coreano, na Praça Kim Il-sung de Pyongyang.

Vestido com um uniforme militar branco e acompanhado pela mulher, Ri Sol-ju, o líder norte-coreano observou o desfile de tanques, lança-rockets e mísseis.

A Coreia do Norte enfrenta duras sanções internacionais devido ao seu programa de armas nucleares e as negociações encetadas para convencer Kim a desistir dos testes não deram resultados.

Para Kim, não há dúvidas: as armas nucleares do país são "um símbolo de poder nacional" e devem ser diversificadas. "Para antecipar a turbulenta situação política e militar e todos os tipos de crises futuras (...) aumentaremos a nossa força nuclear com a maior velocidade possível", insistiu.

Só este ano, Pyongyang executou mais de dez ensaios de armas, incluindo o primeiro míssil balístico internacional lançado a plena capacidade desde 2017. Em 2006, a Coreia do Norte ainda liderada por Kim Jong-il, pai do atual líder, fazia o primeiro ensaio nuclear. Desde então realizou mais cinco, sempre aumentando a intensidade.

A Coreia do Norte teria aceitado a suspensão dos testes com mísseis nucleares e de longo alcance como parte da tentativa de negociação de Kim com o então presidente dos EUA, Donald Trump, que fracassou em 2019 e está parada desde então.

Após o recomeço dos ensaios de armas no fim de 2021 e em particular este ano, EUA e Coreia do Sul alertaram para uma possível retoma do programa nuclear de Pyongyang.

Os receios aumentaram após a divulgação de imagens de satélite que mostravam sinais de atividades na instalação nuclear de Punggye-ri, que a Coreia do Norte afirmou ter destruído antes da primeira cimeira entre Kim e Trump em 2018.

A agência KCNA informou que Kim supervisionou um enorme desfile militar na segunda-feira, com paraquedistas, milhares de soldados a marchar e a exibição de armas.

No seu discurso, o líder destacou que o papel principal das armas nucleares é a dissuasão, mas que podem ser utilizadas caso os "interesses fundamentais" do país sejam atacados. "Se qualquer força tentar usurpar os interesses do nosso país, a nossa força nuclear não terá outra escolha a não ser executar a sua segunda missão".

A mensagem de Kim pode ser uma resposta à eleição do novo presidente sul-coreano, Yoon Suk-yeol, um conservador da linha dura que assumirá o poder no dia 10 de maio.

"É algo a destacar que Kim agora fale especificamente sobre o propósito das suas armas nucleares", disse à AFP Yang Moo-jin, professor da Universidade de Estudos Norte-coreanos. "O presidente eleito sul-coreano Yoon ameaçou com ataques preventivos contra Pyongyang, se necessário, e Kim parece afirmar indiretamente que poderia ter de responder com táticas nucleares", acrescentou.

A KCNA afirmou que o desfile exibiu a peça mais moderna do arsenal do Norte, o míssil balístico intercontinental (ICBM) Hwasong-17, que Pyongyang anunciou ter testado com êxito a 24 de março.

"Os espetadores celebraram com entusiasmo, emocionados por ver o ICBM Hwasong-17 que subiu ao céu a 24 e março para demonstrar ao mundo o poder absoluto e a posição estratégica da nossa república", destacou a agência.

Fotografias mostraram os grandes mísseis em lançadores móveis atravessando a Praça Kim Il-sung, enquanto norte-coreanos em trajes tradicionais acenavam com bandeiras e flores.

Na data do teste, a imprensa estatal elogiou o lançamento "milagroso" do que supostamente era o Hwasong-17, publicando fotos e vídeos de Kim Jong-un a supervisionar o teste. Mas analistas apontaram discrepâncias nas informações de Pyongyang. Washington e Seul suspeitam que o regime comunista disparou na realidade um Hwasong-15, um míssil menos avançado já testado em 2017.

"Apesar de toda a pompa e meses de ensaios, o desfile militar norte-coreano de segunda-feira realmente não mostrou muitas novidades", disse Chad O"Carroll, do site especializado NK News, com sede em Seul.

A Coreia do Norte organiza desfiles militares para celebrar datas e eventos importantes, numa tentativa de exibir força. Estes servem aos observadores externos para obter pistas sobre os últimos avanços no armamento do país.

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