José Carlos Malato sofreu bullying: "Queria ser invisivel"

Foram dez anos de agressões físicas e psicológicas. Partiram-lhe um braço e levaram-no a desistir de estudar de dia. José Carlos Malato conta como e porque sofreu de bullying e como conseguiu superar as humilhações e perseguições de quando era criança. <br />
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"Maricas! Filho da mamã! Gordo!" Durante dez anos, José Carlos Malato lidou com estas palavras só porque "aos olhos dos colegas era diferente". Diferente porque não jogava à bola, usava calções e sapatos azuis, camisa e meias brancas e... era gordo. "Sofri imenso com isso, da primária até ao liceu. Desde violência verbal, confrontos físicos... Como normalmente não participava em actividades mais agressivas, era obrigado a participar mas como saco de pancada", começa por dizer o apresentador da RTP1, em exclusivo à Notícias TV. As agressões físicas foram de tal ordem que as consequências levaram-no ao hospital e a ter de ficar de repouso alguns dias. "Chegaram-me a empurrar das escadas da escola e parti um braço", adianta. Mas nem assim as humilhações e perseguições pararam. "Esta realidade afecta-me imenso. No autocarro também me davam com algo na cabeça eu virava-me para trás e não sabia quem era. Também me roubavam material, mas menos", diz José Carlos Malato, que se sentiu obrigado a desistir a meio de um ano lectivo por não aguentar a pressão de quem só lhe queria mal. "Nunca acabou enquanto fiz o liceu. Eu sempre fui diferente para eles. Quem não joga futebol é diferente. Esse mal-estar obrigou-me a desistir. Não aguentei e no 11.º ano desisti. Comecei a estudar à noite e fiz o 10.º, 11.º e 12.º anos. Aqui já foi diferente, eram só adultos", continua Malato.
O comunicador garante que esta realidade do bullying o afecta imenso e, apesar de nunca ter pensado pôr termo à vida como Leandro, o rapaz de 12 anos que se atirou ao rio Tua  por sofrer bullying na escola, admite que muitas vezes teve vontade de pôr um ponto final no mal-estar. "Tinha medo de ir para a escola. Muitas vezes apetecia-me pegar numa metralhadora e matar toda gente. Claro que é no sentido figurado que digo isto. Não me conseguia defender. Ficava paralisado, não tinha força nem coragem. Porque se eu depois desse um soco a um, juntavam-se mais e davam-me ainda mais", confessa com a voz trémula, como se a viagem ao passado o fizesse reviver toda a experiência de maus tratos. O apresentador acredita que o bullying pode despertar comportamentos agressivos e compara-os a uma bomba pronta a explodir. Em que só falta acender o rastilho. "Pode criar assassinos. É uma bomba atómica que está sempre em risco de explodir. Isso desencadeia nas pessoas actos desesperados, tanto de suicídio como de matar alguém. A pessoa sente-se impotente e com uma raiva enorme. As pessoas cegam", diz Malato, parando breves segundos para respirar fundo. E prossegue: "Senti-me muitas vezes à beira do abismo. De fazer alguma coisa definitiva para acabar com tudo. Não de me matar, porque sempre soube o que valia, e que a culpa não era minha. Sempre encarei as minhas diferenças como minhas e não como se me fizessem mal. Esses tipos cruéis ficam inebriados pelo poder. É no canto da escola, o olhar que torturava, bastava às vezes o olhar."
O tormento  adensava-se quando a campainha da escola dava o sinal de intervalo. Intervalo que podia prolongar-se por mais de uma hora, caso houvesse um furo entre as aulas. E aqui começava um jogo das escondidas. O jogo que podia ser de felicidade e de brincadeira, mas não. Era de quem não queria ser mesmo visto para que não voltasse a ser humilhado. "O meu terror eram os furos, em que nós tínhamos uma hora ou mais de furo e eu não sabia o que havia de fazer. Andava sempre escondido. Queria ser invisível. Ia para a biblioteca e normalmente andava mais com as raparigas, era mais seguro. Mas tentava não me expor e não me pôr a jeito. Ia para a praia sozinho, tinha amigos, sim, mas também ia sozinho."

A mãe sabia das agressões
Ao longo dos anos em que estudou e que sofreu maus tratos escolares, a mãe esteve sempre presente e a apoiar José Carlos Malato. "Claro que falei com a minha mãe. Mas a minha família é Testemunha de Jeová e na Bíblia diz: quando te dão de um lado, dá o outro. Havia esse estigma. Ficava sempre muito abalado e tentava não magoar os meus pais. A minha mãe dizia que eu tinha de ter paciência", lembra. E Malato teve dez anos de paciência. Malato não foi o único na família a sofrer bullying. A irmã também viveu bem de perto esse trauma. Mas não aguentou tantos anos de violência. Por aos olhos dos colegas também ser diferente. Por se vestir como "a menina da mamã". "A minha irmã desistiu porque sofreu muito também. Não conseguiu suportar. Também pelos mesmos motivos", afirma o comunicador, sem se querer alongar-se em mais comentários sobre a irmã. E prossegue, contando como foi conviver com a violência e a exclusão de que foi vítima por alguns alunos.
Refugiava-se no saber para se sentir mais forte. "A forma que eu encontrava para contrabalançar era ser muito bom aluno. Mas isso às vezes também era motivo de chacota, e eu deixava alguns copiarem por mim. Os que me ajudavam, os que me protegiam e eram meus amigos", explica. Os professores, esses, nunca se aperceberam de nada. "Adoravam-me", diz. Mas se as boas notas a todas as disciplinas o distinguiam positivamente dos restantes alunos, sempre que no horário estava marcada a aula de Educação Física, o tormento voltava. "Essa disciplina era a que eu mais detestava. Se tinha de participar em actividades físicas, disparavam a bola com toda a força. Era sobretudo a humilhação por que passava, mas nunca deixei de gostar de mim. Pensava: eles têm a força física e eu tenho o saber. Sou bom aluno", garante.
Com o passar do tempo, e com as boas notas a serem afixadas na pauta, o simples levantar do dedo dentro da sala de aula para responder a uma pergunta passou também a ser uma aflição. "A minha grande mais-valia era o saber. Eles iam para a rua, tinham más notas. Eu sabia sempre as respostas às perguntas dos professores, mas às vezes nem respondia porque também era motivo para depois apanhar cá fora. Depois comecei a baixar as notas também, a fumar charros, participava menos nas aulas", recorda.
Malato teve muitas vezes vontade de mostrar que também ele era capaz de se defender e enfrentar quem tanto mal lhe queria, mas a coragem e o medo não o deixavam reagir. "Eu tinha força, faltava-me era a coragem. Eu podia ter mandado uma pedra, mas depois acabava por ter medo de magoar a pessoa. Mais tarde bati, mas sofri represálias".
Ainda hoje José Carlos Malato não conseguiu esquecer as maldades que sofreu durante os anos em que teve de se sentar nas cadeiras das salas de aula e se sente que alguém está a tentar humilhá-lo, aos 46 anos, ainda tem o instinto de responder de forma agressiva. "Quando se é humilhado tem-se vontade de ripostar com o quádruplo da força. E ainda hoje, quando identifico alguma agressividade que se assemelhe ao que eu passei todos esses anos, potencio a minha resposta. Porque foram muitos anos", recorda.
"Já fui muito feliz" na escola de Porto Salvo, na de Paço de Arcos, na de Oeiras ou Carcavelos, será uma frase que dificilmente se ouvirá da boca de José Carlos Malato. O homem que hoje dá cartas na apresentação e é um dos apresentadores mais queridos da televisão portuguesa, começou a sua carreira na Rádio A, em Tires (concelho de Cascais), como animador, em 1985, na época das rádios pirata. Passou pela rádio Miramar, em Oeiras, Comercial, Antena 3, XFM e RFM. E só depois de passar pela autopromoção da SIC começou a apresentar programas na RTP como Portugal no Coração, ao lado de Merche Romero. Malato venceu na vida e agora é feliz em todo o lado. nTv

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