José Augusto na fábrica de futebolistas

Prestes a fazer 75 anos, José Augusto foi duas vezes campeão europeu pelo Benfica e ajudou Portugal a subir ao pódio no Mundial de 1966. Ainda hoje vive na terra onde nasceu, a 13 de abril de 1937, bastião industrial que se habituou a dar grandes nomes ao futebol português. O extremo-direito que jogou ao lado de Eusébio é o mais famoso de todos eles. E quando caminha pelas ruas do Barreiro velho, junto ao Tejo, não falta quem o cumprimente. E lá vem a pergunta: «Ó Zé, então o nosso Benfica vai lá?»
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O mato tomou o lugar da relva e do velho Estádio D. Manuel de Mello só resta o muro que o separava do complexo industrial da CUF, no Barreiro. «Aqui era o peão», aponta José Augusto sem esforçar a memória. Antes de ser transferido em 1959 para o Benfica - por cem contos, dinheiro que na época «dava para dois andares de três assoalhadas» - marcou ali muitos golos pelo Futebol Clube Barreirense. Hoje é num relvado sintético sem bancadas que o clube joga. E se chegou a ganhar na Taça UEFA ao Dínamo de Zagreb agora arrasta-se no campeonato distrital. «Vender o terreno do estádio acabou por desmoralizar os adeptos», garante Zé Augusto. Muita gente nesta terra vizinha de Lisboa, na margem Sul do Tejo, concorda. Naquele campo fabricaram-se grandes futebolistas e José Augusto é um deles. O homem que foi bicampeão europeu pelo Benfica e um dos Magriços que brilharam no Mundial de Inglaterra de 1966 faz na sexta-feira 75 anos.

«Passa a bola Zé», «O nosso Benfica vai lá?», «Ó Zé, foi penálti?» Toda a gente no Barreiro conhece o antigo jogador. Os da sua criação tratam-no por Zé, os mais novos por senhor Zé. «Eles sabem todos quem eu sou. Eu, a metade deles tenho de perguntar quem é o pai ou o avô», diz José Augusto Pinto de Almeida de seu nome completo, barreirense nascido a 13 de Abril de 1937 numa casinha do Largo Rompana. O número 47 ainda lá está de pé, embora falte cal na parede e já ninguém more nos seus dois pisos. Outra casa no largo acolheu, a partir dos seus 8 anos, a família de José Augusto. Em tons de rosa, tem ainda um ar cuidado. À janela do primeiro andar, alguém estende roupa. «Bom dia tia», grita José Augusto. É a tia Henriqueta, que já vai nos 88 anos. Com ela vive Maria Celeste, a mãe do jogador, com 98.

José Augusto jogou mais de uma década no Benfica e depois, como treinador (desde que na época de 1969-1970 substituiu Otto Gloria nos encarnados), andou do Algarve ao Norte, com experiências em Espanha e Marrocos e ainda como selecionador, incluindo feminino. Mas manteve-se fiel ao Barreiro. «Esta é uma terra que tem muito que ver comigo, com a ética do trabalho e da solidariedade. Com aquilo que o meu pai me ensinou. Por isso sempre me senti bem cá», diz. Esses valores refletem-se no grande número de coletividades que ainda hoje o Barreiro tem. Desde associações recreativas a clubes desportivos.

Houve tempos em que chegou a haver duas equipas da terra na primeira divisão do futebol: o Barreirense e a CUF (hoje chamado Fabril e na terceira divisão). E desses clubes, cada um com mais de vinte presenças no escalão principal, saíram grandes nomes do desporto. Só futebolistas, José Augusto calcula que «uns cinquenta» tenham depois jogado no Benfica, o mais popular dos grandes por estas bandas. Mas houve também barreirenses no Sporting, como Vasques e Albano, que faziam parte dos célebres Violinos. «Para o Porto era raro. Mas recordo-me do Almeida.»

São tantos os grandes jogadores do Barreiro, nascidos na terra ou formados nos seus clubes, que há quem lhe chame fábrica de futebolistas. «Sim, fábrica de futebolistas, mas sobretudo fábrica de homens», destaca José Augusto, vestido de pullover vermelho à Benfica, enquanto mostra, no mercado, a banca de verduras onde a sua mãe trabalhou mais de vinte anos. O pai, um ferroviário que foi um bom jogador do Barreirense, morreu cedo e a família teve de sobreviver como pôde. No mercado ainda está dona Emília, 83 anos, mas a parecer menos. Vendeu ao lado de Maria Celeste, nesses tempos em que não havia Continentes ou Pingos Doces. Agora, queixa-se de que «está às moscas» este mercado municipal, apesar do ar moderno e do bom aspeto da fruta e do peixe.

Em redor de José Augusto, juntam-se outros vendedores. «Este é filho do meu primeiro treinador no Barreirense», vai desfiando ele. Sente-se em casa. Aliás, orgulha-se de, mesmo como técnico, nunca ter andado «com a casa às costas». A mulher, Maria Ângela, visitava-o onde quer que estivesse, mas as duas filhas e o filho foram criados no Barreiro. O rapaz, Alexandre Almeida, foi basquetebolista do Barreirense e do Benfica e hoje é técnico nos encarnados. «Ele tinha jeito para o futebol, mas preferiu ser basquetebolista», conta o antigo número 7. «Eu próprio cheguei a jogar basquetebol.»

Quando José Augusto nasceu, o Barreiro teria pouco mais de trinta mil habitantes, mas prometia crescer. Vieram mais uns milhares nas décadas seguintes, sobretudo das Beiras e do Alentejo. A vila (só seria elevada a cidade em 1984) mostrava grande pujança graças à indústria, em especial a CUF. «Alfredo da Silva fez muito por esta terra. Não há barreirense que não o admire», nota o antigo extremo-direito. Hoje, apesar da decadência da indústria, são ainda muitas as marcas deixadas pelo magnata que criou a Companhia União Fabril: uma escola com o seu nome, a comprida avenida também batizada em sua homenagem, já para não falar da estátua junto ao parque Catarina Eufémia. «Nesse tempo o Barreiro era uma terra rica, agora é remediada, um dormitório.» Rica porque havia empregos, entenda-se. «Só na CUF trabalhavam 15 mil. Mais 2500 ferroviários. E 2500 nas corticeiras», diz de cor o homem que foi ele próprio ferroviário, aos 15 anos. «O Barreiro foi a primeira plataforma industrial ibérica.»

José Augusto saiu para o Benfica em 1959. Os encarnados pagaram ao Futebol Clube Barreirense 450 contos, o jogador recebeu cem contos pela transferência. O ordenado passou de um conto para três. «Não fiquei rico nem nada que se pareça. Mas era muito dinheiro na época», nota. Durante algum tempo ainda morou no lar do Benfica, em Lisboa, mas quando casou («e já vão 52 anos») passou a ir e vir todos os dias. «Ainda me lembro do frio que apanhava no barco. Não tinha nada que ver com os modernos que hoje em 15 minutos ligam o Barreiro a Lisboa.»

No clube encarnado disputou cinco finais europeias. Recorda-se bem da disputada em Berna, em 1961. «Fartava-me de olhar para um relógio numa torre. O tempo parecia não andar. E o Barcelona à procura do empate.» O Benfica acabou por vencer por 3-2. No ano seguinte, já com Eusébio («o melhor de todos»), novo título ganho a clubes espanhóis, desta vez 5-3 ao Real Madrid. O húngaro Puskas marcou por três vezes, mas a equipa portuguesa deu a volta e regressou triunfante do Estádio Olímpico de Amesterdão.

O extremo-direito ganhou ainda oito campeonatos nacionais e três taças de Portugal. E foi internacional 45 vezes, duas delas pelo Barreirense. Na seleção foi uma das estrelas do Mundial de 1966, quando Portugal ficou em terceiro lugar, ainda a melhor classificação de sempre. E se José Augusto tem triste memória da derrota frente aos ingleses nas meias-finais, não esquece, pela positiva, a reviravolta contra a Coreia do Norte. «O Otto Gloria realmente tinha olho. Chama-me à linha e diz-me: "Augusto, marca o capitão deles." De repente, não sabiam a quem passar a bola. Aquele era o distribuidor de jogo. Estávamos a perder por 3-0 e tudo mudou. O Eusébio explodiu e marcou quatro golos. Estava imparável.» José Augusto, ele, fez o quinto de Portugal.

Ao amigo moçambicano aconselhou a compra de andares no Barreiro como investimento, depois de virem de Inglaterra. E não se cansa de o elogiar. «Tinha uma força tremenda. Às vezes lembro-me dele ao ver o Cristiano Ronaldo. Os arranques, o remate...» Parecido com o seu próprio estilo, admite José Augusto, talvez Luís Figo. «Revia-me nele. Também era o 7.»

«Vi muitas vezes o José Augusto a jogar por aqui ainda miúdo», recorda-se Olivérios, o mais velho (90 anos) de um grupo de reformados que se entretém com cartas no jardim ribeirinho. «Isto antes eram só campos de futebol. E era só gente a jogar», acrescenta este homem que foi ele mesmo um desportista de mérito, ás da natação, capaz de atravessar o rio até à capital. Era nestes campos que se formavam os craques que iam para o Barreirense e para a CUF até serem contratados pelos grandes. Levas e mais levas de bons futebolistas. Houve na década de 1940 uma equipa do Benfica que foi campeã com cinco barreirenses: Félix, Moreira, Arsénio, Corona e Contreiras. E mesmo a equipa portuguesa que chegou às meias-finais do Europeu de 1984 (e que até tinha José Augusto entre os quatro selecionadores) contava com três futebolistas que se formaram nos clubes da terra: Chalana, Bento e Carlos Manuel.

É imponente o ginásio-sede do Futebol Clube Barreirense, a meia dúzia de metros da casa de José Augusto. «Ajudei na construção, como tantos outros», conta. E, de facto, foi verdadeira obra coletiva o edifício onde ainda hoje treinam os miúdos do basquetebol (o clube chegou a ganhar campeonatos e taças de Portugal e continua excelente na formação) e que serve de local de convívio para os sócios. Fotografias espalhadas pelas paredes mostram os famosos «comboios da pedra», com camionetas a trazerem das pedreiras de Sesimbra o material para as obras. «Este sou eu», aponta José Augusto para uma velhinha foto a preto e branco, reconhecendo-se num jovem perdido entre a multidão que assistiu em 1956 à inauguração.

Esta tradição de esforço coletivo contribui para explicar a tradição comunista no Barreiro. José Augusto, que é encarnado mas nunca foi vermelho apesar das raízes familiares comunistas, recorda-se como a PIDE fazia razias nas fileiras da oposição. E até conta que um amigo, por se chamar Lenine («no Barreiro há uns quantos»), era tantas vezes levado nas rusgas que um dia partiu para Montemor-o-Novo a ver se assim a polícia política lhe dava algum descanso.

Ora a política nunca seduziu o antigo jogador, bem pelo contrário, desiludiu-o «por causa dos interesses partidários». E se um dia foi eleito vereador pelo PSD, hoje não hesita em elogiar o presidente da câmara, Carlos Humberto Carvalho, eleito pela CDU, e que descreve como «um barreirense dialogante, tolerante, com vontade de trabalhar e de gabinete sempre de porta aberta». Foi através da vida associativa que José Augusto se dedicou a melhorar a sua terra. «Fui 32 anos presidente de Os Franceses», uma coletividade fundada em 1870. «Criei uma escola básica, um jardim de infância e um ATL», conta no pequeno jardim que fica fronteiro à sede rosa da associação, um belo palacete do século xix que tem um acrescento da mesma cor construído já nos tempos de José Augusto como dirigente. «Foi aqui que conheci a minha mulher. Vi-a num bailarico. Começámos a namorar ainda antes de ir jogar para o Benfica.»

Se tudo correr bem, o Futebol Clube Barreirense vai ganhar nova vida quando receber o dinheiro em falta pela venda do D. Manuel de Mello. Uns prédios devem ali ser construídos, mesmo junto ao Fórum Barreiro. E desaparecerão os últimos vestígios de um campo que diz muito a José Augusto e que está na origem do seu amor ao Benfica. «Fui campeão Europeu e ganhei muitos títulos. E continuei a ser bem tratado pelo clube mesmo quando andei fora como treinador. Mas a grande causa da minha dedicação ao Benfica é a memória desse dia de 1947 em que uma equipa campeã, cheia de jogadores barreirenses, veio aqui para um jogo de solidariedade com o meu pai, que estava doente. Eu tinha 10 anos e recordo-me como se fosse hoje. A festa rendeu trinta contos e permitiu ao meu pai viver mais quatro anos com algum conforto.» Alexandre Almeida (o neto ficou com o nome em homenagem) morreu de tuberculose aos 39 anos. Se fosse vivo, celebraria 101 anos a 13 de Abril, como o filho. Nasceu só dois dias depois da fundação do Futebol Clube Barreirense.

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