Foi, precisamente, há 640 anos que se iniciou a Primeira Revolução Portuguesa, designada pelos historiadores de Crise de 1383-1385, Crise Dinástica, e de Revolução de 1383-1385..Mau grado as conotações políticas que o vocábulo Revolução encerra, recordo que fui o primeiro a chamar e vou continuar a chamar A Primeira Revolução Portuguesa aos intrincados acontecimentos revolucionários, ocorridos em Portugal, entre 1383 e 1385, porque não se tratou apenas de uma crise dinástica, ou de uma simples ou complexa crise social, mas de uma autêntica Revolução, e também porque nunca existiu outra, antes desta, na História portuguesa..Quem tenha pesquisado, durante muitos anos, em todos os arquivos do país, consultando as fontes manuscritas existentes em Alvito, Aveiro, Braga, Bragança, Coimbra, Elvas, Évora, Fronteira, Guimarães, Leiria, Lisboa, Loulé, Melgaço, Moncorvo, Óbidos, Ponte de Lima, Portalegre, Porto, Póvoa de Varzim, Santarém, Sesimbra, Sintra, Viana do Castelo, Vila do Conde, Vila Viçosa e Viseu, e lido as numerosas fontes impressas, em busca de conhecimentos sobre o tema em apreço, decerto dominará uma vastíssima informação respeitante a essa matéria. Contudo, com base exclusivamente nessas fontes, dificilmente poderá concluir que se encontra em presença de uma Revolução..Só é possível retirar essa inferência, sobretudo, com a leitura atenta da obra de Fernão Lopes em conjugação com as fontes documentais. Cabe ao cronista o mérito de ter descoberto e descrito a primeira revolução que houve na Idade Média, em Portugal. É ele que fornece a essência da matéria-prima que os historiadores estudam, refletem e continuam a explorar..Tendo escrito quatro crónicas, a de D. Pedro, de D. Fernando e de D. João I, primeira e segunda parte, a primeira aparenta ser um ensaio para a obra que reputo de principal: a primeira parte da Crónica de D. João I..Na crónica do Rei Justiceiro, Fernão Lopes deixa em suspenso os efeitos das declarações reais relativas ao seu casamento com D. Inês de Castro e anuncia, à distância, os tempos conturbados por que irá passar Portugal, destacando a figura do Mestre de Avis..A crónica do Rei Formoso é sobretudo rica na diversificação dos dados facultados, funcionando como uma unidade e parecendo ter uma finalidade em vista: os principais caminhos dirigem-se ao clima de inquietação patente que antecede os períodos de decisão..No final dessa crónica, cria uma apetência pela continuação do conhecimento das ocorrências, como que persuadindo o leitor a procurar aquela crónica que constitui a base para a montagem e desenvolvimento sobre os saberes daquele período controverso..Das quatro crónicas, a primeira parte da crónica do Rei da Boa Memória é a mais bem elaborada e completa. Nela existe um dinamismo sequencial que dá à sua leitura atual uma problemática ainda mais densa, depois de tantos estudos acessórios em que se pormenorizou..A trama da morte do conde Andeiro; a ascensão do Mestre de Avis como Regedor e Defensor dos Reinos de Portugal e do Algarve; a cedência do regimento do reino, pela rainha D. Leonor, a favor do rei de Castela; a invasão castelhana e o cerco de Lisboa; a renovação da menagem e a promoção do Mestre de Avis ao cargo de Governador; e a eleição do Mestre de Avis como rei de Portugal, nas Cortes de Coimbra de 1385, são os seis polos em que centra a sua narrativa que termina numa expectativa quanto ao futuro..Dada a natureza dos acontecimentos que se desenrolam, no curto período de quinze meses, esta crónica é mais rica do que a da segunda parte, muito embora Fernão Lopes se ocupe, nesta última, de um período mais longo, desde as Cortes de Coimbra até às pazes de 1411..Há sobretudo dois temas que dominam esta segunda parte da crónica de D. João I: a Batalha de Aljubarrota e as pazes com Castela..Excetuando a primeira parte da crónica de D. João I, verifica-se que Fernão Lopes nem sempre prepara a redação das suas crónicas por assuntos temáticos e previamente encadeados. Escreve de acordo com o que está a narrar, daí a cronologia dos acontecimentos nem sempre andar a par com a narrativa..Em relação às fontes documentais estudadas, verificámos que é principalmente na primeira parte da crónica de D. João I que Fernão Lopes intercala na sua narrativa os documentos consultados, sendo que os leitores menos familiarizados na sua leitura, dificilmente, se poderão aperceber que estão a ler uma transcrição quase integral do documento. Ele não considerava que isso fosse condenável ou suscetível de crítica à sua forma de trabalho. Não era, em caso algum, um plágio!.Salvo raras exceções, a fidelidade ao documento é uma das características marcantes do cronista. Todavia, contrariamente ao que afirma, pode-se comprovar que "mais çertidom" se pode alcançar do que a contida nas suas crónicas..Embora o vocábulo revolução nunca apareça escrito nas suas crónicas, ele revela ter havido uma mudança profunda na sociedade portuguesa, daí, por comparação, ter criado a sétima idade, "na quall se levamtou outro mumdo novo, e nova geeraçom de gemtes; porque filhos dhomeẽs de tam baixa comdiçom que nom compre de dizer, per seu boom serviço e trabalho, neste tempo forom feitos cavalleiros, chamamdosse logo de novas linhageẽs e apellidos" (Crónica del Rei dom João I da boa memória, Parte Primeira, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1977, p. 308), transformações essas que a documentação comprova..É sabido que o objetivo do historiador é a procura da verdade, mas este é um dos períodos mais ricos da história portuguesa, que nos revela como é que as mesmas crónicas, com ou sem apoio documental, podem ter interpretações diferentes, de historiador para historiador, conforme o seu posicionamento político-ideológico, apesar de uns e outros terem como pano de fundo a busca da verdade..Historiador