Horácio Roque: sucesso africano

Vendeu perucas, teve colégios e uma cervejaria e trabalhou numa charcutaria. Hoje, é presidente do Banif, e dono de uma das maiores fortunas
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Tinha apenas 14 anos quando decidiu, com o apoio da mãe e perante a renitência do pai, procurar um futuro melhor em Angola. Não era pobre, nunca passou fome nem teve de deixar de estudar para se fazer à vida, mas em Mogadouro, uma pequena aldeia de 80 habitantes perto de Oleiros, não havia lugar para as ambições de Horácio Roque, o mais novo dos cinco filhos de um casal de agricultores. Com uma diferença de idade grande em relação aos irmãos, Horácio acabou por ser mimado pela mãe (tinha 45 anos quando ele nasceu), com quem manteve, até à sua morte, em 1966, uma relação de grande cumplicidade. Ela acreditava nas capacidades do filho, ele dependia emocionalmente do aval da mãe para seguir em frente.

A viagem de barco até África durou dias, mas, assim que desembarcou em Angola, o jovem Horácio começou a trabalhar. No primeiro emprego, a vender linguiças e presun- tos numa charcutaria, mostrou-se tão hábil que ao fim do primeiro mês o patrão, em vez dos 800 escudos que lhe tinha prometido, pagou-lhe mil. Poupou os 200 escudos extras com que não contava inicialmente e ao fim do ano comprou uma mota. À noite estudava e nunca perdeu um ano. Tinha objectivos bem definidos na cabeça: queria ser um empresário de sucesso e ganhar dinheiro, e quanto mais cedo isso acontecesse melhor. Dedicou--se à venda de perucas e aos 18 anos foi desafiado a abrir uma cervejaria em Luanda. A Munique - nome inspirado na cidade que organiza o maior festival de cerveja do mundo - foi um sucesso e subsistiu até aos anos 90.

Em Luanda, Horácio Roque era invejado. Era novo, bem-sucedido, tinha dinheiro no banco e muitos carros na garagem. Faltava casar- -se para compor o quadro perfeito do empresário bem na vida. Deu o nó aos 23 anos com Fátima Roque, tiveram duas filhas e a união durou mais de três décadas.

Quando a revolução rebentou, Horácio Roque já tinha negócios na África do Sul: um escritório com poucos empregados para negócios de trading e um colégio chamado Verney. Desde 1973, que a mulher e as filhas moravam em Joanesburgo enquanto Horácio passava a maior parte do tempo em ponte aérea entre Luanda e a cidade sul-africana. Em 1976, saiu definitivamente de Angola e prometeu nunca mais voltar - jura que não cumpriu. Incapaz de lamuriar-se, nunca olhou para trás. Com pouco dinheiro no bolso, mas bons contactos que foi fazendo ao longo dos anos, montou uma rede de laboratórios de análises clínicas que acabou por ser a terceira maior do país. A seguir, fundou uma correctora: um sucesso absoluto, novamente. Seguiu-se uma agência de viagens e uma imobiliária dedicada aos emigrantes que queriam comprar casa em Portugal. Também investiu no sector mineiro e bancário. Entretanto, cruzou-se com Joe Berardo e os dois empresários tornaram-se bons amigos. Tinham muito em comum: visão para os negócios, ambição e astúcia, predilecção pelo sexo feminino e por T- -shirts pretas.

Em 1985, a mulher e as filhas de Horácio Roque regressaram a Portugal, enquanto ele se manteve à frente dos seus negócios sul-africanos. Pouco depois, também ele abandonou Joanesburgo. Em parceria com o amigo Joe Berardo, adquiriu a empresa madeirense de tabacos e o hotel Savoy. Fez investimentos na banca e nos seguros. Hoje, tem holdings pessoais ligadas a vários sectores da economia. É accionista maioritário e presidente do Banif. Na África do Sul, mantém negócios residuais: é dono do jornal O Século de Joanesburgo, mantém a agência de viagens Lusoglobo e a Sandown Travel e é proprietário de vários prédios e casas. Há oito anos divorciou-se de Fátima Roque, ex- -membro da comissão política da UNITA que nas últimas eleições votou MPLA. A ligação dos Roque à UNITA foi longa e estreita: o empresário, amigo pessoal de Jonas Savimbi, financiou durante anos o partido do "galo negro".

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