Se a pergunta dos presentes na sala do Conselho do Estado do Palácio de Belém fosse quanto tempo faltava a partir daquele momento para que o estado de alma do Presidente da República levasse ao passo seguinte, a resposta seria: três dias. Isto escrito assim parece uma eternidade, mas já só faltavam três dias para Jorge Sampaio anunciar a dissolução da Assembleia da República e Santana Lopes entrar para a História como um dos mais efémeros titulares do cargo após os governos de iniciativa presidencial..Sabe-se que alguns casamentos quando se fazem já levam o filho na barriga e este governo nascido em Julho estava condenado à nascença, tal como puderam constatar as pessoas sentadas nas cadeiras de forro esverdeado no dia 29 de Novembro de 2004. São as mesmas cadeiras da sala onde Spínola leu o discurso de renúncia ao cargo de Presidente da República, em 1974, e onde D. Maria II organizou os «bailes íntimos» da corte a partir de 1852. Foi também nesse ano que a monarca sancionou o Acto Adicional à Carta Constitucional para abolir a pena de morte para crimes políticos..A defenestração de Belém começou quando Sampaio chegou à sala do Conselho de Estado vindo directamente do seu gabinete. Às nove horas dessa segunda-feira tinha reunido de urgência com Santana Lopes para discutir os graves problemas políticos e avaliar soluções em cooperação.Esse encontro preparatório decorrera com o ainda primeiro-ministro num aflitivo estado de tensão interna. Santana tinha sido convocado pelo chefe da Casa Civil do Presidente no final da tarde de domingo. Jaime Serra não quis adiantar pormenores, mas o primeiro-ministro tinha à flor da pele a demissão estrondosa do ministro Henrique Chaves na véspera e o artigo explosivo de Cavaco Silva contra a «má moeda», numa referência venenosa às suas capacidades para governar Portugal..Santana saiu de Belém em ânsias e com uma frase escrita no bloco de notas que usava nestas reuniões: «O senhor é parte da solução e não parte do problema. Quarta-feira venha cá outra vez. Está fora de questão dissolver agora.» Mas os conselheiros de Sampaio foram interpelados por uma outra frase - e bem mais eloquente - do Presidente: «Meus senhores, independentemente da porrada que eu vá levar a seguir, digam-me lá qual é a vossa opinião em relação ao caminho a seguir», apelou sem paciência para mais sortilégios..O caminho, esse, já todos tinham percebido naquela sala: estava mais do que tentado a dissolver a Assembleia da República e convocar eleições legislativas antecipadas. Só Santana Lopes parecia achar coisa diferente quando manteve na sua agenda uma viagem à Turquia no dia em que Sampaio o queria em Belém horas antes de sair do país..Na mesma sala onde D. Maria II organizava os bailes que tentavam desviar as tensões do ambiente político da época marcado pela guerra civil e pelas pequenas e grandes traições palacianas, os conselheiros presidenciais proferiram cada qual a sua própria sentença sobre o destino que Santana merecia. Tinham bem presente o discurso negro do bebé e da incubadora usado para ilustrar os ataques de que o governo era alvo sistemático. Incluindo dos irmãos. Passavam pela incubadora com o bebé lá dentro e abanavam-na perigosamente. Davam até pontapés. O governo, repetiram por outras palavras os conselheiros, estava numa espécie de suicídio psíquico..O fino recorte literário da imagem mereceu reparos generalizados e coube ao advogado Magalhães e Silva fechar a ronda dos conselheiros presidenciais: «Reconheço que é difícil dar mais crédito a um governo que todos os dias se enreda e atrapalha a ele próprio.».O telefone de João Serra tocou pouco depois da meia-noite. Era Jorge Sampaio. «A decisão está tomada.» E desligou. Na manhã seguinte, o chefe da Casa Civil pediu a presença do primeiro-ministro, mas as inconfidências de Belém já tinham chegado rapidamente a São Bento. «É sempre a mesma coisa, não se consegue guardar segredo de nada aqui dentro!», vocifera Sampaio aos colaboradores..Era um primeiro-ministro ansioso que atravessava a Sala das Bicas em passadas generosas. «Já imaginava do que se tratava mas não podia deixar transparecer o que quer que fosse antes de ouvir o Presidente.» Faltava-lhe a interpretação canónica da percepção que há muito construíra interiormente.Santana tinha na cabeça apenas uma coisa enquanto passava pelas salas que dão acesso ao gabinete presidencial: Sampaio tinha sido convencido a mudar de opinião por toda aquela gente. «É preciso não esconder, não esquecer, que entre os conselheiros de Belém estão pessoas com percurso marcadamente de "esquerda"», avisa-se a si próprio enquanto passa por uma das salas onde D. Maria II enfrentou Passos Manuel durante a Belenzada. A monarca perdeu a defesa da Carta Constitucional e Sampaio haveria nesse dia de ganhar em defesa da Constituição..Sem razões particulares para estar grato a Deus, Santana entrou no gabinete de trabalho do Presidente da República, uma sala que foi durante muitos anos um quarto vocacionado para receber os hóspedes da família real. A própria rainha D. Amélia utilizou estes aposentos, mas só depois das obras de remodelação levadas a cabo por Columbano e Malhoa. Um trabalho posteriormente destruído em obras de remodelação para um convidado que nunca chegou: Afonso XIII de Espanha. As melhorias só foram aproveitadas pelo duque de Kent, filho mais novo e representante do rei inglês Jorge V, que visitou Portugal durante o salazarismo..Ninguém naquela sala pensou nisto. Sampaio anunciou a decisão com o Tejo a espreitar pelas janelas e Santana lamentou a conjura fantasmagórica que decretara a defenestração. «Tinha de cessar funções porque o Presidente da República mudara de ideias da noite para o dia.» O alter ego do PPD sofreu o golpe em silêncio..A mesa de CavacoO governo tinha o apoio da Assembleia da República, mas o Presidente da República decidiu interromper a legislatura. Santana Lopes atravessou novamente a Sala das Bicas e passou o pórtico de pedra de acesso às escadas de saída a repetir para si mesmo «hei-de voltar aqui como primeiro-ministro»..No entanto, foi José Sócrates quem subiu a rampa do Pátio dos Bichos, o acesso que os frades jerónimos usavam para chegarem ao Pavilhão da Arrábida onde viveram no século xv antes da construção do edifício principal. Tinha ganho as eleições e condenado Santana a discussões niilistas sobre o que realmente aconteceu no frisson de Belém.Há um ano que Sócrates governava em maioria absoluta quando passou por este pavilhão ampliado para servir como atelier de pintura para D. Carlos e D. Amélia. Caminhava para o seu primeiro encontro com Cavaco Silva..O perfil tecnocrata do novo Presidente da República antecipava margem de manobra para usar pulso firme desde que respeitando o papel de Deus ex machina reservado às luminárias de Belém. Chegou às cinco da tarde do dia 16 de Março de 2006 e tinha à sua espera um cenário sacrossanto. Um presidente hirto e taciturno, diante de uma mesa simples e totalmente despojada para transmitir uma ideia austera: com ele, as reuniões são para trabalhar até ao último sopro e sem mordomias cénicas. O próprio usufrui de poucas: gosta de beber água com gás e uma rodela de limão, apesar de o palácio ter água canalizada desde os tempos de D. Maria I. Sabe Deus que os telefones tiveram de esperar por D. Carlos..A fotografia da época mostra um primeiro-ministro apertado num fato de corte caro a manusear um bloco de notas diante de um presidente com gosto pela liturgia da purificação. O mesmo que ainda hoje continua a usar para as reuniões semanais com Cavaco e onde anota os temas abordados.Quinze dias após este primeiro encontro, Cavaco conferiu posse aos seus novos conselheiros de Estado. A cerimónia decorreu na Sala dos Embaixadores, cujos últimos restauros foram executados em 1886, quando D. Carlos e D. Amélia se instalaram no palácio depois do casamento real..Jorge Sampaio assumiu o lugar por inerência de funções e Dias Loureiro por convite pessoal do Presidente. Posicionou-se entre Miguel Anacoreta Correia e Manuela Ferreira Leite, deixando Marcelo Rebelo de Sousa diante de um jarrão chinês pintado em tons azuis..O escândalo do Banco de Português de Negócios (BPN) ainda estava por rebentar quando Dias Loureiro caminhou na direcção do livro do protocolo sobre o tapete de Beiriz com os seus desenhos e cores invulgares em representação das aves exóticas de inspiração brasileira. Foi nesta sala que, em 1918, esteve em câmara ardente o corpo de Sidónio Pais que suscitara ódio tanto pelo exercício musculado do poder como pelas alterações à Lei de Separação da Igreja e do Estado para apaziguar o papado. O presidente-rei foi assassinado na estação do Rossio mais pelos seus negócios temporais do que pelas inclinações espirituais..Cavaco lembrava-se bem do que tinha dito a Dias Loureiro quando lhe entregou o cargo de secretário-geral do PSD antes de o promover a ministro: «Era fundamental deixar alguém de confiança a controlar e a administrar o partido, que me libertasse para as tarefas de governação. Ele tinha-me surpreendido positivamente pela sua capacidade de análise política e parecia-me dotado de qualidades de comando.».Costa Gomes detém OteloDias Loureiro jurou debaixo do lustre com a águia bicéfala adquirido por D. Fernando II em Veneza, em 1863, e diante do óleo de Louis J. F. Lagrenée, representando Minerva. A deusa romana da sabedoria e da estratégia de guerra que assistiu à prisão de Otelo Saraiva de Carvalho, na sequência do 25 de Novembro de 1975..As tropas pára-quedistas da Base-Escola de Tancos ocuparam nessa manhã posições militares em Lisboa, Montijo, Ota, Monte Real e Tancos. Chegara o momento da clarificação. Ou o processo revolucionário dava finalmente um salto e se transformava numa revolução irreversível. Ou era travado e abria caminho ao desmantelamento de todas as conquistas..Costa Gomes decretou o estado de sítio, reuniu com urgência as chefias militares e accionou o plano de operações apresentado por Ramalho Eanes em nome do Grupo dos Nove. Mandou deter Otelo no Palácio de Belém para incapacitar as suas unidades. O comandante do COPCON, recentemente destituído, passou sob custódia pelo muro cor-de-rosa, onde ainda estão as portas gradeadas que foram ocupadas não só por animais selvagens provenientes de África, mas também pelo marquês de Távora e seu filho. Em 1759, passaram ali a noite na véspera da execução sob acusação de envolvimento no atentado contra o rei D. José.Foram acusados por Pombal e condenados por dar combate ao poder..Otelo sabia antecipadamente do golpe dos «páras» que relançava o espectro da guerra civil, mas garantiu a Costa Gomes ter desvalorizado a ameaça da ocupação das bases aéreas. As unidades sob o seu comando tinham ficado apenas «à espera dos acontecimentos, a ver como aquilo evoluía».O pronunciamento em nome do «poder popular», patrocinado pela esquerda militar radical, extinguiu-se como um fogacho e Ramalho Eanes capitalizou o prestígio nas manobras militares com a posterior eleição para Presidente da República.Teófilo Braga tinha sido o primeiro republicano a utilizar a Casa de Belém para despacho, em 1910, e Manuel de Arriaga o primeiro Presidente a dormir no palacete anexo. Pagava cem escudos de renda e aproveitou as instalações do palácio principal para casar a sua filha mais nova. Ramalho Eanes tornou-se no primeiro Presidente da República eleito após a queda da ditadura salazarista e cedo se mudou da sua casa no bairro da Madre de Deus para o Palácio de Belém, em 1976. Já estava distante a memória de D. Catarina de Bragança ter sido a primeira rainha a viver ali, quando regressou de Inglaterra..Se a viúva de Carlos II entrou na História como a primeira monarca a morar no palácio, a infanta D. Antónia Maria destacou-se por ter passado em Belém a sua noite de núpcias com o príncipe Leopoldo de Hohenzollern. É certo que D. José tinha vivido no palácio, mas não exactamente nos edifícios: a família real instalou-se em pleno Jardim Grande após o terramoto de 1755, com medo de uma réplica..O baptizado da família EanesA harmonia da vida em casal só chegou com D. Carlos e D. Amélia, no final do século xix. Os monarcas fizeram algumas remodelações e convocaram a arte de Columbano e Malhoa. Foi aqui que nasceram os seus filhos D. Luís Filipe e D. Manuel.Quase um século mais tarde, foi Manuela Eanes quem tratou da decoração dos interiores, à procura de um ambiente familiar para morar com o Presidente da República. Escolheu peças de mobiliário entre o espólio do Palácio da Ajuda e da Cidadela de Cascais..Ramalho Eanes transformou a Sala de Jantar no Museu da Presidência para expor os presentes recebidos como chefe de Estado. Tinha sido ali realizado o último banquete monárquico, no dia 3 de Outubro de 1910. O repasto oferecido ao Presidente da República do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, contou com a presença do rei D. Manuel II e de vários ministros a quem já tinham chegado rumores do iminente golpe republicano. No dia seguinte, a família real dormiu no Convento de Mafra e no dia 5 fugiu da Ericeira para Gibraltar quando o rumor se tornou notícia de facto..A sala foi mais tarde recuperada para a função com que foi concebida pelo 3.º conde de Aveiras, nos finais do século xvii. A partir do segundo mandato de Eanes, os convidados estrangeiros voltaram então a poder apreciar os móveis de estilo império, um quadro de Jan David de Heem e quatro medalhões de mármore com bustos de imperadores romanos. A família Eanes adaptou-se facilmente às rotinas palacianas. O Presidente aproveitava os domingos para correr no Jardim do Ultramar e a primeira-dama organizou o baptizado do filho mais novo do casal na capela perto da Sala Dourada. Um espaço marcado por um tecto apainelado do século xviii, um quadro com Cristo Vencendo a Morte e jarrões raros de porcelana de São Petersburgo..A cerimónia religiosa realizada em plena república democrática invocou directamente os baptismos de D. Luís Filipe e D. Manuel na mesma capela, mas já no estertor da monarquia..Os fantasmas e as conspirações de SoaresEanes entregou as chaves do Palácio de Belém a Mário Soares e despediu-se de Cavaco Silva como o último primeiro-ministro a quem deu posse. Deu para esquecer as relações tensas com Francisco Pinto Balsemão, com quem se viu na contingência de gravar as conversas. O ambiente político de cortar à faca que marcou o fim da AD e o início do Bloco Central ficou marcado por fugas de informação sistemáticas e versões contraditórias sobre os mesmos factos..Ora nada disto se passou com Cavaco. «Penso que Eanes me via como um político honesto e de palavra, qualidades que apreciava.» Foram quatros meses idílicos. «A tradicional fricção entre o Presidente e o primeiro-ministro não existiu», continua o mesmo Cavaco em relato autobiográfico.Teve até a amabilidade de ir ao volante do seu Citroën BX 16 TSR para a primeira audiência a Belém após ter conquistado o PSD..O mesmo carro que uns dias antes tinha servido de pretexto para se deslocar à Figueira da Foz, onde o PSD realizou um congresso electivo. «Cheguei a pensar em não ir, desgostoso com a situação em que estava o PSD. Acabei por dizer à minha mulher que íamos à Figueira, aproveitava para fazer a rodagem ao carro.» Rui Machete está convicto de que Cavaco «sabia que algumas pessoas tinham feito esse trabalho de preparação com o seu consentimento prévio» e João Salgueiro acrescenta que «era impossível organizar aquilo tudo em 24 horas»..Ângelo Correia coordenou um grupo de distritais e garante que «antes de pegar no carro» Cavaco «foi previamente informado de que poderia contar com esses apoios no congresso». Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de comunicar telefonicamente o seu apoio e da distrital de Lisboa. Mendes Bota foi mais longe: escreveu a moção que Cavaco lhe ditou para um gravador. «Já tinha a rodagem do carro mais do que feita.».Um carro que decidira comprar depois de se deslocar num modelo igual com Mendes Bota enquanto presidente da Câmara de Loulé. É esse Citröen que estaciona debaixo de uma das árvores do Pátio dos Bichos para ir ao encontro de Ramalho Eanes.Mário Soares gostava pouco da sacralização da política e nunca se rendeu às teses do providencialismo histórico. Após a reeleição divertiu-se em sucessivas tertúlias conspiratórias contra Cavaco Silva, embalado pelo aconchego do palácio e pelo prazer lúdico que a política lhe inspira..Isto é mais um incómodo do que uma ameaça, mas achava que faltava ao primeiro-ministro «um certo suplemento de alma». De facto, as múltiplas divisões do Palácio de Belém têm um histórico sobrenatural que vai desde uma imaginária laranja envenenada que terá provocado a morte de D. João VI até aos fantasmas de dois infantes que ainda vagueiam pelos jardins.D. Fernando e D. João, filhos de D. Maria II e irmãos de D. Pedro V e de D. Luís I, morreram de cólera em 1861, mas parece que as suas almas penadas ainda por ali andam - o povo ficou convencido de que as suas mortes foram crimes de políticos e não infecções de bactérias. É bom de ver que a ancestral arte da intriga sempre fez o seu caminho em Belém..No Verão de 1992, Cavaco já dizia que Soares «violava abertamente os pressupostos em que tinha assentado o apoio que o PSD lhe concedera» para a reeleição. Deixou de ser isento e independente em relação aos partidos. «Actuava como contrapoder relativamente ao governo» e «dificultava o desenvolvimento de um clima favorável à recuperação económica». Mais fácil agora: tornou-se no «principal agente da oposição» e tinha um particular «gosto pelo jogo político» e uma evidente «apetência pelo protagonismo»..Soares diverte-se em floreados e no magistério da palavra e Cavaco irrita-se com o seu ar empertigado e de enfado. Nunca teve tempo para as alcovitices dos outros. Dirá mais tarde que as fugas de informação das suas conversas com o sucessor de Eanes eram frequentes. «Na maior parte dos casos não tinha dúvidas de que a fonte era a Presidência da República.» Chegou a queixar-se amargamente. «Embora com pouca convicção, Mário Soares negava sempre.».As relações pessoais nunca foram lá grande coisa. Numa quinta-feira de Abril de 1993, Soares chega a usar a guerra de Pacheco Pereira contra os jornalistas na Assembleia da República para avisar Cavaco de que estava em causa o regular funcionamento das instituições democráticas. Sem que Cavaco sequer perceba bem porquê, Soares ameaça faltar às comemorações do 25 de Abril e fazer uma declaração ao país. «Eu não queria acreditar no que ouvia», pensa Cavaco enquanto se afunda no sofá do gabinete presidencial. Parecia mesmo que o Inferno vomitava todos os condenados desde o início do mundo. Soares estava a ameaçá-lo de que poderia «demitir» o governo. «Respirei fundo, procurando manter-me calmo.».Afinal, eram só ameaças e as coisas lá se resolveram: «O governo suspirou de alívio.».Este é o mesmo sofá onde em Abril do ano seguinte Cavaco se sentou para dar conta de que tinha sido descoberto um gravador debaixo das tábuas do soalho do gabinete do procurador-geral da República. Chegou a Belém, «receoso de que Soares aproveitasse o caso para desgastar o governo». Nada disso. Desta vez, o presidente adoptou uma «atitude construtiva». Cavaco respirou de alívio e aninhou-se: «Relaxei os músculos no sofá em que me sentava.».A capela de EanesRamalho Eanes foi o primeiro Presidente da República eleito depois do 25 de Abril a viver no Palácio de Belém com a mulher, Manuela Eanes, e os filhos. O Pavilhão da Arrábida foi redecorado com móveis do Palácio da Ajuda e da Cidadela de Cascais. O filho mais novo do casal, Miguel, foi baptizado na capela, à semelhança do príncipe D. Luís Filipe e do último rei de Portugal, D. Manuel II. Eanes transformou a Sala de Jantar em Museu da Presidência para expor os presentes que recebeu no exercício de funções..O sofá de SoaresMário Soares ficou conhecido por usufruir da generalidade dos monumentos sob tutela da Presidência da República com um certo gosto pelo luxo, mas foi um adereço modesto que marcou a sua relação com Cavaco Silva: o sofá onde fazia o então primeiro-ministro sentar-se nas reuniões semanais. Foi lá que o ameaçou dissolver a Assembleia da República e convocar eleições legislativas antecipadas por causa de uma guerra entre Pacheco Pereira e os jornalistas. Foi também lá que Cavaco lhe deu conta da descoberta de uma escuta no gabinete do procurador-geral da República - mas, nessa altura, Soares foi cooperante. «Relaxei os músculos no sofá em que me sentava», confessa Cavaco..Os corredores de SampaioJorge Sampaio seguiu o exemplo dos seus antecessores e também dissolveu a Assembleia da República. As reuniões preparatórias decorreram com os seus conselheiros em Belém e a notícia já circulava por todos os cantos quando Santana Lopes atravessou as salas que levam ao gabinete presidencial, onde foi informado do veredicto final..A mesa de CavacoJosé Sócrates foi surpreendido na sua primeira reunião em Belém com o sucessor de Jorge Sampaio. Esperava-o uma cadeira junto a uma austera e pequena mesa de trabalho. Cavaco Silva queria simbolicamente deixar claro que estes encontros são apenas para trabalhar. Sócrates usa sempre o mesmo caderno de apontamentos..Memórias do casarão cor-de-rosa._O Palácio de Belém tem o leão como símbolo. Daí que tenha sido conhecido também como Palácio das Leoneiras, no século xviii. Este símbolo solar elogia a sabedoria e o poder e está presente em várias fontes e bicas do palácio. ._Os primórdios do edifício remontam aos séculos xv-xvi, na sequência da valorização das terras em Belém proporcionada pela construção do Mosteiro dos Jerónimos. O fidalgo D. Manuel de Portugal iniciou a edificação do palácio numa zona privilegiada sobre o Tejo. Os condes de Aveiras herdaram o património no século xvii e, no século seguinte, o Palácio de Belém reverteu para a coroa por compra de D. João V. ._D. Catarina de Bragança viveu no Palácio entre 1700 e 1701. Foi a primeira rainha a fazê-lo, na sequência do seu regresso da Inglaterra, após a morte do marido, o rei Carlos II. ._Depois do terramoto de 1755, D. José instalou a corte em Belém, no jardim e em tendas, devido aos receios de que ocorressem réplicas. Três anos mais tarde, quando regressava de um encontro amoroso, o monarca foi vítima de um atentado. O marquês de Pombal tratou da instrução do processo e acusou dois membros da família dos Távoras. Foram executados nos jardins do palácio, em Janeiro de 1759. ._A água canalizada apareceu nos tempos de D. Maria I, a iluminação a gás em 1864 e os primeiros telefones em 1903.._Uma laranja alegadamente envenenada tornou-se, na versão popular, na causa da morte de D. João VI, em 1826. Mais tarde, as mortes dos infantes D. Fernando e D. João, durante a epidemia de cólera de 1861, foram atribuídas a crimes políticos. Dizem as lendas que as suas almas continuam a assombrar os jardins do Palácio de Belém.._D. Maria II enfrentou no Palácio de Belém Passos Manuel para impor a Carta Constitucional em defesa dos poderes régios, mas a Belenzada terminou com a vitória do chefe do governo saído da revolução de Setembro de 1836.._Os «bailes íntimos» ou «bailes de Inverno» surgiram por iniciativa de D. Maria II e tinham como cenário a actual Sala do Conselho do Estado. ._D. Antónia, filha de D. Maria II e de D. Fernando, foi a primeira infanta a nascer no Palácio de Belém. Em Setembro de 1860, também passou ali a sua noite de núpcias com o príncipe alemão Leopoldo de Hohenzollern. ._D. Carlos e D. Amélia de Orleães foram viver para o Palácio de Belém logo após o seu casamento, em 1886, embora em quartos separados. As obras de Malhoa e Columbano destacaram-se na remodelação. Os dois filhos do casal, D. Luís Filipe (1887) e D. Manuel (1889), nasceram ali.._O último banquete da Coroa foi organizado no Palácio de Belém dois dias antes da revolução republicana. Teve como convidado de honra o Presidente da República do Brasil, marechal Hermes da Fonseca. ._Manuel de Arriaga foi o primeiro Presidente da República a viver no Palácio de Belém, mas mediante o pagamento de uma renda mensal. ._O corpo de Sidónio Pais foi embalsamado e esteve exposto ao público no Palácio de Belém para uma última despedida ao «presidente-rei». _O Presidente Craveiro Lopes recebia Salazar aos domingos de manhã. Após o 25 de Abril, as reuniões entre o Presidente da República e o chefe do governo passaram para as quintas-feiras.._Spínola leu o seu discurso de renúncia ao cargo de Presidente da República na Sala do Conselho de Estado, a 30 de Setembro de 1974. Costa Gomes assumiu as funções e mudou-se para o Palácio de Belém com a mulher e um filho.