Grito abafado por tambores

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É preciso escutar várias vezes o discurso presidencial para perceber como ele ajudou a fortalecer uma coligação pós-eleitoral liderada por António Costa. Na primeira parte temos um registo racional. Ninguém poderia esperar qualquer outra decisão por parte de Cavaco Silva para além da indigitação formal de Passos Coelho (já o havia feito de modo informal no distante dia 6 de Outubro...). Depois, a propósito da questão europeia, o presidente foi incapaz de recordar, serenamente, que o turbilhão sucessório em que o país mergulhou não nos pode fazer esquecer a nossa umbilical dependência, sobretudo como devedores, das instituições europeias a que, desajeitadamente, pertencemos. Em vez disso, perdeu as estribeiras e começou a gritar. Com o desespero de quem recusa a sua irremediável derrota perante a realidade. Cavaco sempre esteve aquém do cargo presidencial, e falta-lhe tudo para a verdadeira coragem, que, como escreveu Hemingway, consiste em não perder "a elegância debaixo da pressão". Ameaçou em vez de esclarecer. Pretendendo alertar para os riscos de ataque especulativo sobre a nossa dívida, acabou por sinalizar as nossas vulnerabilidades de modo irresponsável. A hostilidade ideológica e o rancor são contagiosos. Já havia pouco espaço para debate lúcido em Portugal. Agora é a contagem de espingardas e o bater das espadas nos escudos. A política desceu ao estado puro das categorias centrais de Carl Schmitt: "Amigo versus Inimigo". Como nação precisaríamos de uma estratégia comum para os riscos europeus (seja qual fosse o governo, e mais vasta do que ele). Pelo contrário, este PR empurrou o país para uma crispação que nos enfraquece as muralhas da inteligência, na altura em que mais precisaríamos delas.

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