O novo ano arranca a ferver com várias greves nos portos, nas escolas e em empresas. Funcionários públicos e trabalhadores do privado exigem aumentos salariais e valorização das carreiras e não vão ceder depois da forte perda do poder de compra em 2022, provocada pela subida vertiginosa da inflação, que deverá atingir os 8,1%, segundo o Banco de Portugal, e que se repercutiu no aumento dos juros dos créditos à habitação, dos preços da energia e dos alimentos..E as previsões para o próximo ano não são animadoras. No Orçamento do Estado para 2023, o governo estima que a inflação desacelere para 4%. Mas o regulador da banca antevê que o indicador atinja os 5,8%, o que significa uma pressão ainda maior sobre os rendimentos do trabalho. Pese embora o governo tenha aumentado o salário mínimo de 705 para 760 euros, no privado, e para 761,58 euros, na Função Pública, o aumento não chega para compensar a perda real nos vencimentos..Analisando o calendário de paralisações e protestos anunciado por várias organizações sindicais, a classe docente será a mais combativa em 2023. Os encarregados de educação devem preparar-se para o encerramento das escolas, já que o Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (STOP) convocou greves nacionais entre os dias 3 e 31 de janeiro. Durante a primeira semana de aulas, de 3 a 6 de janeiro, o Sindicato Independente dos Professores e Educadores (SIPE) também prevê uma paralisação parcial, ao primeiro tempo de aulas..As greves com maior impacto nos estabelecimentos de ensino serão as convocadas por oito organizações de professores e educadores, entre as quais se destaca a Federação Nacional dos Professores (Fenprof), uma das maiores federações sindicais de docentes, afeta à CGTP. Caso as negociações com o Ministério da Educação não evoluam favoravelmente até 10 de janeiro, haverá 18 dias de paralisações por distrito do continente, a começar no dia 16 de janeiro em Lisboa e a terminar a 8 de fevereiro no Porto, que culminarão com uma manifestação nacional a 11 de fevereiro. Só a Federação Nacional dos Sindicatos dos Professores (FNE), afeta à UGT, é que irá aguardar pelas negociações com o executivo sem protestos agendados. "A dimensão da contestação vai depender da capacidade de resposta do governo", adiantou o secretário-geral desta estrutura sindical, João Dias da Silva..Entre as principais reivindicações do professores estão "a contagem integral do tempo de serviço cumprido, o fim das vagas para progressão e das quotas da avaliação, o fim da precariedade, com a realização de concursos extraordinários de vinculação, a eliminação dos abusos e ilegalidades nos horários de trabalho e a aprovação de um regime específico de aposentação", revelou ao DN/Dinheiro Vivo o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira..Em concreto, o dirigente sindical explica que "falta ainda contar seis anos, seis meses e 23 dias do tempo de serviço, congelado no tempo da troika, mais entre dois e quatro anos para quem estava na carreira em 2007, e é preciso criar vagas de acesso aos 5.º e 7.º escalões". "Quase seis mil docentes não conseguem progredir porque não têm vagas e estão a perder tempo de serviço", sublinha..O fim da paridade salarial entre a carreira de técnico superior e a de professor, com a nova Tabela Remuneratória Única (TRU), é outro combustível para o protesto. Segundo Mário Nogueira, "desde 1986 que os professores ganham o mesmo que os técnicos superiores no topo da carreira, mas agora o executivo eliminou essa equiparação". Ou seja, os técnicos superiores entre a terceira e a 14.ª posições terão direito a um aumento de 104,22 euros, enquanto os professores com vencimentos até 2612,03 euros vão receber apenas mais 52,11 euros ou 2% se o salário for superior àquele montante..O fim da equiparação salarial também atingiu os enfermeiros, revelou ao DN/DV a dirigente nacional do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), Guadalupe Simões. No caso desta carreira, o sindicato exige o fim da precariedade, a reposição da paridade de rendimentos com os técnicos superiores e a contratação de enfermeiros. Para já, só está agendada uma greve parcial destes profissionais da Função Pública, entre as 10.30 e as 12.30 de 5 de fevereiro, no Hospital de Évora. "O protesto visa alertar para a carência brutal de pessoal e para uma dívida de 12 mil horas", sublinha Guadalupe Simões. A enfermeira acredita que "a contestação vai aumentar no próximo ano e poderá haver mais paragens em hospitais e até centros de saúde"..Nas autoridades portuárias, também da competência da Administração Pública, o clima é igualmente tenso. O Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Administrações Portuárias (SNTAP) convocou uma greve de vários dias até 30 de janeiro e abrange as infraestruturas do continente, Madeira e Açores..O SNTAP acusa as administrações portuárias de "ausência total de disponibilidade" para dialogar sobre a proposta de revisão salarial para 2023, tendo o sindicato feito "vários pedidos de reunião" que ficaram sem resposta, "nomeadamente por parte das administrações de Sines e de Lisboa"..A Associação Portuguesa dos Industriais de Alimentos Compostos para Animais (IACA) já avisou que esta paralisação poderá deixar as empresas sem acesso a matérias-primas, levando a ruturas de stocks para a pecuária. Segundo a IACA, a greve nos portos deixa oito navios de matérias-primas para alimentação animal com atrasos nas descargas, podendo os custos adicionais para as importadoras ascender a dois milhões de euros até janeiro, agravando mais o preço dos alimentos.."Os trabalhadores vão ter de ir para as ruas e lutar pelos seus direitos", defende Sebastião Santana, secretário-geral da Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública (Frente Comum), afeta à CGTP. Para já, a estrutura sindical não tem greves ou manifestações marcadas, mas "no início do ano o secretariado nacional vai reunir para avaliar os processos negociais com o governo e eventualmente decidir novas formas de protesto", adianta..O dirigente não afasta uma greve nacional da Função Pública em 2023 face "ao caminho de empobrecimento que o governo está a impor". Recorde-se que a Frente Comum, única estrutura que não assinou o acordo com o governo, defende um aumento salarial de 10%, sendo o mínimo de 100 euros, para todos os trabalhadores do Estado..O decreto-lei do executivo que alterou a TRU, e que resulta do acordo plurianual assinado pela Federação de Sindicatos da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos (FESAP), afeta à UGT, e pelo Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE), prevê uma atualização anual dos ordenados até 2026, final da legislatura, de 52,11 euros para todos os trabalhadores do Estado com vencimentos brutos até 2612,03 euros ou de 2% para salários superiores, além das valorizações em cerca de 104 euros para outras carreiras, como os técnicos superiores, assistentes técnicos ou assistentes operacionais. Face à perspetiva de uma inflação superior à prevista, o secretário-geral da FESAP, José Abraão, afirma que "não terá repulsa em acionar a cláusula que permite rever os aumentos, caso o cenário macroeconómicos se altere"..No privado, preveem-se várias paralisações em empresas de todos os setores de atividade a 9 de fevereiro, no âmbito do Dia Nacional de Indignação, Protesto e Luta, convocado pela CGTP, único parceiro social que não subscreveu o acordo de melhoria de rendimentos. A secretária-geral da confederação sindical, Isabel Camarinha, espera "um máximo de greves e ações de luta por todo o país". "Os portugueses já sofriam com baixos salários e pensões e agora, com o aumento brutal dos preços, ainda vai ser pior, o que irá aumentar a contestação social", realça..Recorde-se que a CGTP defende a fixação do aumento do salário mínimo em 850 euros em 2023, contra os 760 euros aprovados pelo executivo, a redução da jornada semanal de trabalho das 40 para as 35 horas semanais, a revogação da caducidade dos contratos coletivos, bem como das "normas gravosas da legislação laboral", como a reposição da compensação por despedimento nos 30 dias por ano de antiguidade. O governo deu alguns passos neste último ponto subindo a indemnização de 12 a 14 dias, mas ainda não é suficiente para a CGTP..Mais moderada, a UGT considera que, "se o acordo assinado com o governo for cumprido, será um grande passo para a estabilidade social", disse ao DN/DV o secretário-geral adjunto daquela estrutura sindical, Sérgio Monte. E salientou que "existe uma cláusula de salvaguarda que permite fazer as necessárias adaptações" de acordo com a inflação e o crescimento económico que deverá travar a fundo para 1,3% em 2023, segundo as projeções do governo. O governo subiu o salário mínimo de 705 para 760 euros, no privado, e para 761,58 euros, na Função Pública, mas não chega para compensar a perda real de rendimento..Salomé Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo