Uma saga familiar com histórias de gangsters, de ricos e pobres, de vinganças, e que começa com o atropelamento de cinco sem abrigos em Nova Deli. A Idade do Vício é um romance que relata também as transformações que têm acontecido na sociedade indiana e que foram testemunhadas pela autora, Deepti Kapoor, quando trabalhou como jornalista em Nova Deli. A autora, que vive em Lisboa desde 2018, está já a preparar os próximos volumes da trilogia e diz que a capital portuguesa ajuda-a a escrever..Porque escolheu Lisboa para viver? Vim para Lisboa em 2018 com o meu marido, que é inglês. Antes vivíamos em Goa, na Índia. E como Goa é uma ex-colónia portuguesa, onde há muita influência portuguesa, sobretudo na arquitetura, nos nomes e na comida, sempre tive curiosidade de conhecer Portugal. Quando viemos para a Europa, e como decidimos não ir para o Reino Unido por causa do Brexit, escolhemos Lisboa. Tinha cá amigos a viver e tinha lido um artigo, em 2016, no qual se dizia que Lisboa era a nova Berlim, com bom ambiente criativo e rendas baixas. Essa foi a atração inicial. Depois, claro, quando viemos as coisas em Lisboa já tinham começado a mudar..Vieram antes da pandemia, a cidade mudou um pouco, aliás, o mundo... Como é viver agora em Lisboa? Mudamos precisamente na altura em que comecei a trabalhar neste livro, grande parte da escrita da Idade do Vício foi feita aqui em Lisboa, num pequeníssimo apartamento em Campo de Ourique, perto do Cemitério dos Prazeres, com uma vista fantástica da cidade e da Ponte 25 de Abril. Lembro-me de me sentar na minha secretária, que também era a mesa de refeições, e de manhã muito cedo ver a cidade a despertar. A cidade mudou mesmo depois da pandemia, mas confesso que ainda estou a tentar perceber como mudou. Lembro-me de ir ao cinema no Monumental, onde se podiam ver todos os tipos de filmes, beber uma cerveja num local que era uma espécie de hub cultural na cidade e que agora desapareceu, o que é muito triste. Atualmente vivemos nos Anjos, que é um bairro muito multicultural..Sei que quer ter a nacionalidade portuguesa. Por alguma razão prática? Sim, estou a pensar pedi-la por várias razões, uma delas porque o passaporte indiano é um documento muito difícil para viajar, temos de ter vistos para todo o lado. Aliás, depois do Brexit já não consigo ir ao Reino Unido sem pedir um visto... Ou seja, há essa razão prática. Mas ao mesmo tempo tenho feito um esforço para integrar-me na sociedade portuguesa, aprendendo a língua, o que não é fácil porque a grande maioria dos portugueses fala bem inglês, e assim que tentamos falar em português os portugueses mudam rapidamente para o inglês (risos). E da última vez que regressamos da Índia, em dezembro, já nos sentimos em casa em Lisboa. Foi bom estar de regresso a um sítio calmo onde consigo escrever..Antes de se mudar para Goa trabalhou vários anos como jornalista em Nova Deli. Entre essas duas cidades a realidade é muito diferente? Totalmente diferentes. Primeiro [Nova] Deli fica no norte da Índia e sendo a capital é uma cidade muito, muito grande com 20 milhões de pessoas, ou mais. É massiva e com extremos. Desde o extremo do luxo ao extremo da pobreza e vemos isso todos os dias a toda a hora. Mas há arte, negócios, embaixadas, é como a cidade do México ou o Rio de Janeiro. Por outro lado, Goa, que é no sul, sempre teve um carácter distinto porque não foi colonizada pelos britânicos mas pelos portugueses. Há uma palavra que usamos em Goa que é "sossegado", ou seja, é um local mais relaxado. Ou pelo menos era, com o desenvolvimento está a tornar-se como o resto da Índia. E, tal como em Lisboa, as coisas estão a mudar muito rapidamente e o preço das casas não pára de subir. As velhas famílias da cidade, sobretudo as católicas, já não vivem lá. Quando trabalhei como jornalista, em [Nova] Deli, nos anos 2000, fazia muitas reportagens na cidade e assisti a uma transição de uma economia socialista, em meados dos anos 1990, para o capitalismo. [Nova] Deli era uma cidade muito calma, transformou-se e testemunhei isso enquanto fazia reportagens e falava com as pessoas. Quando as grandes multinacionais começaram a estabelecer-se em Nova Deli e a dar emprego à classe média, o capitalismo chegou num ápice e isso foi muito interessante de observar. As famílias mais ricas perceberam como fazer dinheiro, um pouco à semelhança do que se passou na Rússia com o colapso da União Soviética, e surgiu uma espécie de capitalismo com alguns negócios duvidosos e com ligações à política e com pessoas muito poderosas. Conheci alguns dos filhos dessas famílias poderosas que davam grandes festas, com muito glamour, com divisões cheias de champagne... na época achava muito excitante fazer parte daquele mundo. E fui anotando mentalmente certas histórias, apesar de nessa altura não pensar em ser escritora..Quando é que começou a pensar no assunto? Foi quando me mudei para Goa e conheci o meu marido, mudando um pouco a minha vida. Deixei de fazer jornalismo generalista, comecei a praticar ioga e mais tarde a ensiná-lo a estrangeiros - que é uma das formas de ganhar dinheiro em Goa. Com essa nova etapa comecei a ler bastante e percebi que podia escrever alguma coisa. Vivíamos numa pequena aldeia de pescadores, num apartamento que mal tinha internet, com uma varanda enorme com excelente vista... Foi um tempo idílico para me tornar escritora..E conseguiu manter a sua rotina de escrita quando mudou para Lisboa? Continua a ser mais ou menos o que fazia lá. Acordo muito cedo, pelas 05.00, e tento escrever antes do mundo despertar. Desligo a internet porque necessito de estar completamente focada e absorvida no meu trabalho. E escrevo até cerca das 10.00... Tenho dois gatos, que me ajudam a escrever (risos). Depois leio e reflito no que estou a escrever, mas fico no mundo do meu livro. Ser escritora é uma profissão, por isso tento não ver muita gente e não ter grandes distrações. Mas confesso que ao fim de umas semanas dessa rotina preciso de umas pausas (risos)..A Idade do Vício é uma trilogia. Tinha essa ideia de escrever três livros desde o início?.Não. Foi apenas quando estava a dois terços do livro que percebi que queria escrever mais. Este primeiro livro começa em 2003 e termina em 2008, e queria continuar a escrever sobre esse mundo e essas personagens e, como pano de fundo, mostrar as grandes transformações que têm acontecido na Índia. Na altura, falei com o meu editor que me disse para fazer uma trilogia, o que me pareceu fantástico. Mas agora sei que vou estar neste mundo da Idade do Vício para os próximos anos....Mas sempre com a ideia de mostrar as transformações da Índia como pano de fundo da história? Sim, gosto de ligar as minhas personagens com o que acontece na Índia contemporânea. E também porque, quando estava a finalizar o meu primeiro livro (A Bad Character), em 2012, um gangue violou uma jovem mulher em Deli num autocarro às 21.00 de um sábado quando ela regressava a casa depois ter ido ao cinema com o namorado. Isso teve repercussões na sociedade indiana e houve muitos protestos para mudar as leis sobre violência e violação. E isso fez-me pensar e questionar a corrupção no sistema, e também perceber que não podia ser uma escritora que escrevesse só sobre ela própria e o seu autocrescimento. Tinha de me virar para o mundo e escrever sobre política e corrupção e o poder e falta dele, e sobretudo porque a história recente da Índia tem muito a ver com a corrupção. E foi aí que a ideia para a Idade do Vício surgiu..E como tem sido o livro recebido na Índia? Muito bem. Fiquei surpreendida, para falar a verdade. O mercado indiano é bastante difícil, sobretudo porque há muitos livros que querem atrair os leitores do Ocidente, e parece que só escrevem sobre a pobreza que existe na Índia. Por exemplo, sei que a maioria das pessoas na Europa e nos Estados Unidos gostaram muito do filme Slumdog Millionaire[Quem Quer Ser Bilionário, 2008], mas para nós, indianos, não é autêntico. Não é real que um rapaz que tenha crescido nos esgotos de Bombaim fale um inglês tão perfeito, entre outros erros. Tentei ter a certeza que não ia por esse caminho..E já vendeu os direitos do livro para ser adaptado para série de televisão. Vai fazer parte do processo de transformar o livro em guião? Como o meu marido escreve guiões, decidimos fazer parte do projeto. Para mim isso é muito importante para que o meu mundo continue autêntico. Começamos a trabalhar com eles, tem sido muito colaborativo e muito trabalhoso também. Ao mesmo tempo estou a escrever o segundo e terceiro livro e está a ser um grande desafio. Quando se trabalha com um editor, eles dão sugestões e podemos dizer sim ou não, justificando as nossas escolhas. Quando se trabalha em televisão é muito diferente..Quanto tempo levou a escrever este primeiro livro? A Idade do Vício é ficção, mas é baseado em centenas de entrevistas, li muitos trabalhos académicos, memórias, investigações de vários assuntos, desde de tráfico à violência de castas. O meu marido ajudou-me na pesquisa. Mas levou-me uns três anos a escrever. E depois, com o covid, a publicação foi adiada mais um pouco. Foi vendido em 2019, na Feira de Frankfurt, depois durante o período da pandemia estive a editar e a finalizar o livro. Se para algumas pessoas esse período foi produtivo, para mim não foi..Disse que a sociedade indiana tem estado a mudar muito. A questão das castas ainda persiste e é sentida? Sim, as castas ainda são muito importantes em grande parte da Índia. E mesmo nas grandes cidades ainda existe alguma descriminação. Quando se é de uma casta superior não se nota tanto as diferenças, mas quando se é de uma casta mais baixa sente-se todos os dias. E há situações que parecem impossíveis, mas existem, como uma mulher de uma casta que usou um poço de outra casta e que depois foi espancada - aconteceu há uns meses. E também nas universidades de elite, e isso aconteceu no mês passado, houve alunos que se suicidaram pela pressão de serem de castas inferiores..E agora está numa espécie de turné mundial a apresentar este livro. Sim, estive já em Nova Iorque, Paris, Madrid e Amesterdão. Agora estou em Lisboa, mas depois irei estar em Lyon e na Alemanha. Depois disso gostava de ter alguns meses para me focar só na escrita dos próximos livros..A Idade do Vício Deepti Kantoor Edições Lua de Papel 646 páginas.filipe.gil@dn.pt