Não, esta não é uma história linear, com encontros com periodicidade fixa e equilíbrio quase permanente: tem alguma desproporção de forças, passou por hiatos prolongados (o último durou seis anos, de 2008 a 2014) e enriqueceu-se com goleadas e surpresas épicas. O jogo mais eletrizante da Cidade Invicta reedita-se hoje: FC Porto-Boavista, a partir das 19.00, no Estádio do Dragão, a abrir a 6.ª jornada da I Liga (transmissão na Sport TV1). E aqui recordam-se dez episódios marcantes, com muitos golos, vinganças, dilúvios e chuteiras pelo ar.....1954. Muda aos 2, acaba aos 9.Pedroto (esse mesmo, futuro treinador) iniciou aquela segunda parte infernal: dos 47" aos 64", o FC Porto fez cinco golos (com poker de Hernâni). E uma mera partida da 1.ª Divisão que ao intervalo parecia normal (2-1) acabou por se transformar na maior goleada de sempre entre os arquirrivais portuenses. O Boavista acabou goleado nas Antas, por 9-1. Estava-se em março de 1954..1982. Meia dúzia e contestação.Rezam as crónicas que a meio do jogo já o presidente do Boavista tinha abandonado a tribuna e foi Pinto da Costa, recém-eleito líder do FC Porto, a levar com a ira dos adeptos axadrezados: insultos, objetos arremessados e cartões de sócios rasgados. O motivo? A maior humilhação caseira do clube axadrezado, no dérbi: 0-6. Aconteceu em maio de 1982 e ao intervalo já estava 0-5..1984. O sonho azul ruiu no Bessa.Corria maio de 1984, jogava-se a penúltima jornada e o FC Porto ainda aspirava ao campeonato nacional (até porque o líder Benfica recebia, ao mesmo tempo, o Sporting...). Porém, o sonho morreu ali, no Estádio do Bessa: com um golo de Almeidinha, aos 89". Os axadrezados ganharam por 2-1 e evitaram o primeiro título de Pinto da Costa como líder azul e branco - uma vingança pela humilhação de dois anos antes..1992. Festa axadrezada do Jamor.Em maio de 1992, o dérbi do Porto desceu aos arredores da capital e o Boavista teve o raro prazer de conquistar um troféu diante do arqui--inimigo. Marlon Brandão (33") e Ricky (55") levaram o Boavistão de Manuel José à conquista da Taça de Portugal - 2-1 sobre o FC Porto. A festa xadrez tomou conta do estádio do Jamor, em Oeiras. E repetiu--se quatro meses depois, quando os boavisteiros também roubaram a Supertaça aos dragões..1998. A festa do tetracampeão.A época 1997/98 ficou marcada por dois dérbis eletrizantes. Se o primeiro, em vésperas do Natal de 1997, foi uma sucessão de golos (3-4 a favor do FC Porto, no Bessa, com quatro a serem marcados do minuto 31 ao 38), o segundo, em abril de 1998, também foi rico em golos (cinco) e expulsões (duas). No final, os dragões ganharam (3-2, graças a Sérgio Conceição, Paulinho Santos e Zahovic) e puderam festejar o tetracampeonato, a três jornadas do fim..2001. Nos pés de Martelinho.O sonho axadrezado crescia de jornada para jornada e a partir daquele dia de janeiro de 2001 ganhou cor: com um golo de Martelinho, o Boavista derrotou o FC Porto, no Bessa (1-0), e lançou-se para o topo da I Liga. De lá não voltou a sair. Quatro meses depois, a equipa de Jaime Pacheco celebrou um histórico campeonato nacional - ganho "nas barbas" do rival portuense..2002. O jogo que trouxe Mourinho.Há encontros que ficam na história apenas pelas suas consequências. Quando, em janeiro de 2002, Petit e Martelinho ajudaram a abater novamente o FC Porto, no Bessa (2-0), isso manteve o Boavista na luta pelo título (que perderia para o Sporting) mas, acima de tudo, mudou a história dos dragões: após a derrota, que os deixara em 5.º lugar, o treinador Octávio Machado foi despedido e chegou José Mourinho. O resto é história (uma Taça UEFA, uma Liga dos Campeões, and so on...)..2003. Deco: chuteira para Paraty.De uma longa lista de dérbis quezilentos, o de outubro de 2003 sobressaiu: com faltas atrás de faltas, o árbitro Paulo Paraty mostrou 13 cartões amarelos e expulsou Deco, por acumulação. Aí, aconteceu o insólito: o médio portista atirou a chuteira para os pés do juiz da partida. O caso fez correr muita tinta e Deco foi suspenso por três encontros..2004. Primeira lança no Dragão.Os primeiros meses de vida do Estádio do Dragão ficaram marcados pela clara supremacia do FC Porto de Mourinho. Resultado: só em novembro de 2004, um ano após a inauguração, é que uma equipa forasteira teve o prazer de vencer no novo recinto azul e branco. E foi o Boavista a gozar da honra de espetar a primeira lança no Dragão: ganhou por 0-1, num jogo da I Liga, com um golo de Cafú. Essa foi a última vez que os portistas perderam em casa diante dos boavisteiros..2014. 0-0 numa noite de dilúvio.O reencontro entre dragões e panteras, em setembro de 2014, após seis anos de ausência do Boavista da I Liga, não foi a goleada que muitos anteviam. Numa noite de dilúvio (que alagou o relvado e atrasou o início da partida), com o FC Porto como ultrafavorito após ter destroçado o BATE Borisov para a Liga dos Campeões quatro dias antes (6-0), o Boavista resistiu a 90 minutos de pressão e segurou o 0-0. Afinal, no dérbi da Invicta há tudo menos finais previsíveis.