"Não estava a fazer um trabalho como deve ser. É tão simples como isso", foi o comentário do presidente Donald Trump à decisão de demitir o diretor do FBI (Federal Bureau of Investigation), James Comey, responsável pela investigação a uma possível interferência russa na campanha eleitoral que levou o republicano à Casa Branca..A decisão, que apanhou Washington de surpresa quando foi anunciada na noite de terça para quarta-feira, estava ontem a ser comparada aos métodos seguidos pelo antigo presidente Richard Nixon quando estava a ser investigado no quadro do caso Watergate. Na época, a investigação era conduzida pelo FBI e também por um procurador especial independente, Archibald Cox. Este último foi demitido pelo então presidente republicano, o que levou à demissão, como gesto de solidariedade para com Cox, do procurador-geral e do procurador-geral adjunto. Nixon, no entanto, não chegou ao ponto de demitir o diretor do FBI..O presidente explicou que a decisão se baseou numa recomendação do procurador-geral, Jeff Sessions, e do seu adjunto e resultara do modo como o diretor do FBI conduzia a investigação ao caso dos e-mails enviados por Hillary Clinton a partir de um servidor pessoal quando era secretária de Estado..Quanto a Trump, o afastamento de Comey foi apenas a decisão mais recente num processo que, com a demissão do diretor do FBI, produziu outras duas. A primeira foi a da procuradora-geral interina, Sally Yates, que investigava possíveis ligações entre elementos da Administração com personalidades russas e que advertira a Casa Branca para a possibilidade Michael Flynn, primeira escolha de Trump para conselheiro de Segurança Nacional, ser chantageado por Moscovo, como explicou a procuradora numa audição no Senado..O segundo afastamento ditado por Trump foi o do procurador de Nova Iorque, Preet Bharara, que investigava a alegação feita pelo presidente de que Barack Obama ordenara a realização de escutas na sua residência na Torre Trump..O gesto de Trump estava ontem a ser interpretado como um gesto deslocado, sinónimo de precipitação e indício de que ele próprio ou alguns dos seus colaboradores mais próximos temem os resultados da investigação do FBI..A questão das "ligações russas" provocou já várias baixas do lado republicano. Além da demissão de Michael Flynn, a questão levou à autossuspensão do procurador-geral, Jeff Sessions, e do presidente da comissão de informações da Câmara dos Representantes, Devin Nunes, para todos os aspetos relacionados com aquela investigação. Anteriormente, a questão levara ao afastamento do diretor de campanha de Trump, Paul Manafort, e do conselheiro em política externa de Trump, Carter Page, de quaisquer funções posteriores..The Washington Post lembrava ontem que pelo menos 15 pessoas próximas do presidente ou que desempenham funções na sua administração têm ligações a personalidades russas. O que não é forçosamente grave mas pode assumir contornos comprometedores quando se percebe a natureza dessas ligações ou os envolvidos procuram escondê-las. Era ontem notado que o afastamento de Comey sucedeu poucos dias após o diretor do FBI ter pedido um "reforço substancial em verbas e meios humanos" para prosseguir a referida investigação, escrevia The New York Times na edição online, citando várias fontes conhecedoras do processo. Assim como era igualmente recordado que Comey prometera conduzir a investigação à possível interferência russa nas presidenciais de 2016 até às últimas consequências..Naquela que é a reação mais significativa à decisão do presidente, proeminentes senadores republicanos e democratas pediram a criação de uma comissão independente ou a nomeação de um responsável, também independente, para supervisionar a investigação..Encontro com Lavrov.O afastamento de Comey coincidiu com o encontro de Trump com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, na Casa Branca. Interrogado sobre se a questão interferiu com o encontro com o diplomata russo, o presidente dos EUA garantiu que "não, de modo nenhum". Foram discutidas a questão da Coreia do Norte e a situação na Síria e na Ucrânia..O encontro entre Trump e Lavrov teve a particularidade de ter sido acompanhado apenas por jornalistas russos, por decisão da Casa Branca. Ontem, os restantes jornalistas só puderam assistir ao encontro de Trump com Henry Kissinger, que foi secretário de Estado de Richard Nixon, o presidente republicano a quem a sua linha de ação estava ontem a ser comparada..[artigo:8070165]