Genoma do sapo-boi pode ser chave para controlar praga

Cientistas da Universidade do Porto integram equipa que descodificou 90% do genoma da espécie que é considerada uma praga na Austrália
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Uma equipa de cientistas que inclui investigadores da Universidade do Porto descodificou 90% do genoma do sapo-boi. Aquilo que à primeira vista pode parecer apenas mais uma descoberta nesta área é na verdade um passo importante no controlo de uma espécie que é considerada uma ameaça, por exemplo, na Austrália.

Introduzida no Estado de Queensland na década de 1930, para controlar uma praga de escaravelhos que ameaçavam plantações de cana-de-açúcar, a espécie originária da América Latina encontrou no nordeste australiano o ambiente ideal para se multiplicar, ameaçando animais nativos como crocodilos, lagartos e cobras, que ingerem as toxinas deste sapo venenoso. "Sequenciar o genoma é um enorme salto que significa que podemos perceber melhor o sapo-boi e podemos começar a tomar medidas para controlar a espécie", conta à BBC Rick Shine, um dos autores do estudo publicado na revista Giga Science.

Uma dessas medidas pode passar pelo chamado biocontrolo, usando um vírus que afete a espécie, para a qual a descodificação do genoma é decisiva. Uma solução que já ajudou a estancar o aumento da população de coelhos na Europa. "Para encontrar um vírus para fazer biocontrolo, temos de chegar ao ADN e ao ARN [ácido ribonucleico, uma das macromoléculas essenciais para a vida]. O ADN contém fragmentos de vírus anteriores - o ADN de todos os animais pode catalogar infeções passadas", explica Alice Russo, investigadora da Universidade de Sidney.

Até à publicação deste estudo, os cientistas conheciam apenas uma família de vírus que afetava o sapo-boi, uma lista à qual foram adicionadas agora mais três. "Para duas delas, descobrimos um genoma completo - ambos podem potencialmente ser usados como agentes de biocontrolo".

Outra forma de proteção do ecossistema pode passar por ensinar as espécies locais a não comerem estes sapos, através de um método intitulado "aversão ao sabor". Já existem mesmo projetos para levar lagartos a evitar anfíbios tóxicos. Mas aquele que é, nas palavras do autor principal do estudo, Rich Edwards, "um dos melhores genomas de anfíbios desvendados até à data", é apenas um primeiro passo para controlar o avanço da espécie, reconhece Peter White, outro dos responsáveis pela investigação, na qual participaram cientistas do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto. "Há muito tranalho ainda por fazer. No entanto, esta investigação é um primeiro - mas muito importante - passo para encontrar uma forma efetiva de controlar a espécie".

O sapo-boi está presente em 138 países. Desde que foi introduzido no Estado de Queensland, em 1935, a espécie espalhou-se já por mais 1,2 milhões de quilómetros quadrados. Medem entre 10 a 15 centímetros e podem pesar mais um quilograma.

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