Maria (nome fictício) é uma viúva que mora em Lisboa com as duas filhas, de 7 e 12 anos, viu a prestação do seu crédito à habitação subir drasticamente. Quando contactou o gabinete Finanças Saudáveis já tinha falado com o banco e também tinha tentado obter apoio do Estado, mas foi informada que não cumpria os requisitos para receber o apoio. O banco também não teve abertura para apresentar qualquer proposta de renegociação, pelo que o gabinete está a acompanhar este caso..Esta lisboeta é uma das 227 pessoas que, desde a sua abertura em março até final de junho, procuraram ajuda do gabinete Finanças Saudáveis, que resulta de uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e a DECO. A esmagadora maioria das pessoas que recorre a este serviço é do sexo feminino e tem como principal origem nas freguesias de Carnide, Campolide e Benfica.."Esta iniciativa pretende ajudar os munícipes a tomarem decisões informadas e ajustadas ao seu orçamento familiar, numa altura em que a inflação continua elevada e as taxas de juro não dão sinais de abrandamento", explica Natália Nunes, coordenadora do Gabinete de Proteção Financeira da DECO e responsável pela equipa da associação de consumidores nesta parceria. "Seja no espaço físico ou através do telefone, pretende-se, com o apoio dos especialistas da DECO, esclarecer os cidadãos sobre as melhores formas de gerir eficazmente o orçamento familiar, apoiá-los no processo de reestruturação de contratos de crédito e/ou dívidas e prestar um aconselhamento especializado nas áreas relacionadas com medidas de proteção às famílias, implementadas a nível local e nacional, tais como poupança de energia, alimentação e outros apoios sociais", acrescenta Natália Nunes ao DN..Nestes primeiros quatro meses de atividade, o gabinete Finanças Saudáveis foi contactado por 227 lisboetas, sendo que a esmagadora maioria obteve apenas informações e 72 receberam um acompanhamento mais personalizado: 61 beneficiaram de aconselhamento ou orientação financeira e 11 estão a ser acompanhadas no âmbito da reestruturação do seu orçamento familiar, nomeadamente ao nível das dívidas.."Os principais problemas colocados pelas famílias estão relacionados com os custos da sua habitação, seja ela própria (crédito à habitação) ou arrendada. São famílias cujos custos - renda ou prestação - com a habitação têm um grande peso nos seus orçamentos familiares", refere Natália Nunes. "Nos dias que correm os consumidores vêm até nós com problemas relacionados, sobretudo, com o crédito à habitação. O aumento da Euribor e da inflação têm condicionado muito o orçamento das famílias portuguesas e os lisboetas não são exceção. Assim, a nossa missão passa por informá-los das consequências que o incumprimento pode ter no seu dia-a-dia e a melhor forma de lidar com isso", acrescenta Carla Dourado, uma das juristas que atende os lisboetas neste projeto..Este gabinete de apoio da Câmara de Lisboa tem sido mais contactado por mulheres (74%) do que homens (26%). Um deles foi Carlos (nome fictício), que não recebeu apoio ao pagamento da renda, nem resposta das entidades onde apresentou um pedido de informação para saber porque não tinha recebido esse apoio, já que reúne todos os requisitos para ser elegível - o contrato de arrendamento está registado nas Finanças e paga 400 euros de renda, está desempregado e inscrito no IEFP e o seu único rendimento é uma pensão da Caixa Geral de Aposentações com o valor atual de 303,78 euros mensais, valor que o deixa isento de apresentar IRS..No que diz respeito à freguesia de origem, apenas Ajuda e Areeiro não tiveram nenhum dos seus residentes a procurar ajuda. Do lado oposto, surge Carnide (18,4%), Campolide (13,3%) e Benfica (8,2%)..Atualmente estão sete técnicos a dar apoio ao gabinete Finanças Saudáveis, que pode ser contactado através de uma linha de atendimento gratuita (800 910 523) que funciona de segunda a sexta-feira entre as 9.00 e as 20.00 horas ou pessoalmente no edifício da Câmara de Lisboa no Campo Grande 25, das 9.00 às 13.00 nas terças e quintas-feiras, e das 14.00 às 18.00 às segundas, quartas e sextas-feiras..A par destes meios de atendimento, vão ainda ser lecionadas, em data a anunciar, ações de formação e sessões informativas aos lisboetas sobre literacia financeira, conforme adianta a responsável pela equipa da DECO nesta parceria. "Vamos realizar, juntamente com a autarquia, ensinamentos de literacia financeira. Entendemos que é a forma das famílias terem melhor informação e orientação", disse, revelando que serão realizadas "24 ações de capacitação, sessões informativas e workshops destinadas aos consumidores, no âmbito da promoção da literacia financeira, da gestão do orçamento das famílias e da poupança energética, entre outros". "O que queremos é que os consumidores não cheguem até nós sem ter essa informação para evitar casos como o de um consumidor que veio ao gabinete Finanças Saudáveis numa situação em que se viu obrigado a entregar a sua casa ao banco para pagamento do crédito à habitação. Queremos consumidores alfacinhas mais informados e mais conscientes em relação ao seu dinheiro", remata Carla Dourado..ana.meireles@dn.pt