Finalmente o Verão - Estação amena

Marina Foïs e Gael García Bernal numa comédia dramática sobre uma férias de verão de uma menina que filma tudo com uma pequena câmara. <em>Finalmente o Verão</em> é um <em>Aftersun </em>francês do realizador Eric Lartigau com uma inesperada melancolia que não é para deitar fora...
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É muito nobre e valiosa essa intenção de se filmar à altura das crianças. Muitos cineastas tentam e não conseguem, outros conseguem e deixam marcas, como por exemplo Jacques Doillon quando em 1996 filmava uma menina a lidar com a morte súbita da mãe em Ponette, filme que terá formado um olhar, que o diga Céline Sciamma, em muitos dos seus trabalhos que colocam o mundo infantojuvenil num altar digno. Eric Lartigau, conhecido essencialmente pelo inexplicável sucesso de A Família Bélier, a história que depois os americanos transformaram em CODA - No Ritmo do Coração, de Sian Heder, drama oscarizado, quer desta vez chegar perto de uma verdade sobre o que é ser uma miúda pré-adolescente num verão que simboliza uma mudança de idade. A sua câmara faz os possíveis, os impossíveis e mais uma centena de piruetas por respeitar a tal altura. Na maioria dos casos, consegue o objetivo, mesmo quando é percetível que a profundidade emocional e dramática esteja sempre planeada para algo que é meio caminho entre um objeto mais popular e um olhar artístico radical e com outras inquietações.

Em Cet été-là conta-se a história de Dune, menina de 11 anos que chega com os pais ao habitual local das férias grandes, a casa de campo em Landes. É lá que reencontra Mathilde, de 9 anos, a sua amiga de laços inquebráveis. Mas neste verão tudo parece estar fora do lugar: os pais não param de discutir e a pequena percebe que o pai pode estar prestes a sair de casa e a própria Mathilde não parece acompanhá-la num desejo de não regressar às brincadeiras de infância e pensar de forma parecida às amigas mais velhas. É ainda neste verão que percebe que os rapazes de uma idade mais avançada atraem-na, em especial um adolescente que trabalha numa das lojas do lago. E tudo se passa segundo alguns rituais divertidos: o visionamento de filmes de terror "transgressivos", conversas com uma amiga dos pais excêntrica e espreitadelas em festas dos jovens locais. Ela que filma tudo com uma câmara que não larga. De alguma forma, é um filme sobre a menina que filma a separação dos pais. Um Aftersun menos ambicioso mas que também quer ter um discurso sobre "os adultos e as crianças".

Trata-se daquele momento em que alguém deixa de ser criança e passa a ser uma pequena adulta. E estão lá os códigos da passagem de adulta: as dúvidas e inquietações perante sensações novas e o questionar de tudo. Aquela altura em que o mundo já não parece o mesmo. Claro que nos últimos tempos, essa passagem tem sido exaustivamente abordada. Dir-se-ia mesmo que talvez haja uma inflação do tema, o coming of age sugado e explorado em demasia, quase como uma tendência do cinema moderno, sobretudo no cinema europeu em que as criancinhas, adoráveis ou não, têm tido um protagonismo grande. Nesse aspeto, este enredo de Finalmente o Verão perde o efeito de novidade e isso é algo que prejudica a sua perceção.

Entre a mistura de elementos de comédia ligeira e de drama, o filme de Lartigau desenvolve-se como uma suave crónica de desmantelamento familiar. Uma suavidade que não deixa de focar a ausência de uma mãe e a figura edificada de um pai. Se muitas vezes essa composição surge de um pífio revestimento refletivo, isso deve-se à falta de "unhas" do realizador para ir mais além. Não é fácil encenar a solidão de uma menina perdida entre a possibilidade de uma orfandade e o desconhecimento de novas sensações no corpo, mesmo quando Lartigau não tenha medo de procurar a componente da sensibilidade feminina. Nada contra o cinema de um cineasta que se aventure no turbilhão do "eterno feminino"...

No cômputo geral, o balanço total implica uma simpatia franca, ainda que algo formatada perante o regime do pequeno filme de família que "passa" no crivo da indústria francesa, em que não faltam bons valores de produção e atores de suporte de peso, entre os quais um ótimo Gael García Bernal, aqui na figura do pai, personagem que não se compartimenta num lugar comum. As cenas com ele e com Marina Foïs são particularmente quentes, inclusive para o tom ameno de todo o filme. Mas há ainda a presença breve mas nada discreta de Chiara Mastroianni, atriz infalível, e a exuberância terna e sofisticada da avó Ángela Molina, possuidora de uma energia doce (quem diria que se mencionaria a palavra "doce" na mesma frase que Ángela Molina...).

Surpresa também muito agradável é a do lusodescendente Hugo Lopes, escolhido pelo realizador sem este conhecer Patrick, de Gonçalo Waddington, onde era o protagonista. Um Hugo Lopes já homem e com uma graça de câmara tão complexa como eficaz. Se há um mérito neste filme de temporada é o de nos fazer ficar cúmplices das suas personagens e dos seus atores, todos eles a compreender o naturalismo que o projeto pedia.

Finalmente o Verão é daqueles filmes de verão que não envergonha mas cuja mistura de tons e registos confunde no pior sentido, não obstante todos nós termos vivido aquelas situações. Aliás, os pontos identificáveis têm uma base bem credível: as férias de verão como devoradoras da insustentável leveza das brincadeiras de infância.

dnot@dn.pt

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