Os familiares de Eduardo e Manuel Silva e de João e Vanda Viola, quatro das 18 vítimas do massacre de Ambriz, em Angola, vão pedir a alteração do processo contra incertos que entregaram, em Portugal, na Procuradoria-Geral da República (PGR), em 2002, de forma a que sejam constituídos arguidos ex-militares da UNITA que confessaram as mortes à GrandeReportagem(GR), um trabalho da jornalista Felícia Cabrita, publicado há uma semana. Os familiares das vítimas pedem a punição dos autores do crime e questionam as autoridades portuguesas sobre a investigação que dizem estar a fazer, já que a jornalista levou menos de dois meses a "desvendar" o mistério..O massacre de Ambriz vitimou 18 civis em finais de Novembro de 2001, que andavam a caçar. Felícia Cabrita relata, através do testemunho dos autores, em que circunstâncias ocorreram as mortes. O principal executante foi José Pontes "Regresso", que, na altura, era coronel da UNITA e ingressou como general nas Forças Armadas Angolanas (FAA), no âmbito dos acordos de pacificação do país. .Mais uma vez, diz Leonor Matos, mãe de Eduardo, a família descobre informações através dos media. É o culminar de uma série de erros, negligências, incongruências e situaçõeskafkianas, incluindo a troca de corpos das vítimas. .O general "Regresso" explica à GR que as mortes ocorreram durante a noite do dia 20 de Novembro e que o seu batalhão de 300 homens confundiu os tiros e o jipe dos caçadores com militares das FAA. Mas o relato demonstra que atiraram em todos os civis que lhes apareceram, fossem homens, mulheres ou crianças, como Eduardo e uma outra vítima, Mauro, ambos com 14 anos. E remata "A guerra é um acto que viola sempre os direitos dos homens. Quero sinceramente exprimir aqui os meus sentimentos de pesar àquelas famílias que nesta operação perderam os seus. E encorajar as mães a conformarem-se com a situação, apesar de ninguém poder restituir aquelas vidas." A justificação não satisfaz as mães. Em quatro anos, ninguém lhes pediu desculpas ou explicou o que se passou, apesar das diligências. Apontam o dedo às autoridades portuguesas por não terem zelado pelos interesses dos seus cidadãos..Justiça. "Nunca me interessou a questão política, mas sim encontrar os assassinos do meu filho , do pai e de quem o acompanhava. Neste momento, têm cara, têm rosto e apresentam o massacre como se se tratasse de um erro. As autoridades portuguesas não podem aceitar isto", desabafa Leonor Matos. ."Pretendemos que seja feita justiça e que os autores dos crimes sejam punidos. O meu irmão não foi vítima de guerra, aquela não era uma zona de perigo. A memória da minha família merece mais respeito", lamenta João Carlos Silva, irmão de Manuel, que foi de férias com o filho para Angola, tal como outros 30 800 turistas nesse ano..Lisete Pereira, já nem tem palavras para protestar, apenas diz ao DN que espera a vinda da advogada, Elsa Marcelo, terça-feira, para avançarem com as diligências. José António Barreiro, representante das famílias de Eduardo e Manuel, irá apresentar brevemente os novos dados na PGR, para que o processo deixe de ser "contra incertos" e que sejam constituídos arguidos. Mas os ex-militares da UNITA beneficiam de imunidade ao abrigo dos acordos de paz angolanos..O processo foi entregue na PGR em finais de 2002 e, quase três anos depois, os queixosos não obtiveram qualquer reacção. Fonte do gabinete do procurador disse ao DN que "o inquérito está pendente e que estão em curso investigações com as autoridades angolanas". Felícia Cabrita contou também que esteve 15 dias em Angola, para falar com os ex-militares da UNITA, depois de uma investigação em Portugal que lhe demorou um mês, explicando que só teve dificuldades em encontrar "Regresso" e que foi fácil contactar os outros, os próprios pareciam interessados em falar. "Entendem que a história do país não pode ser feita sem que se assumam os erros", diz. A jornalista conseguiu fotos do massacre, entregues por caçadores à Embaixada portuguesa e afirma "As autoridades angolanas não fizeram nada, estavam interessadas em apanhar Savimbi. Também não me parece que o Estado português tenha feito muito." Até porque não se queriam ferir susceptibilidades porque se estava a negociar o processo de paz..O Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Embaixada e Consulado portugueses em Angola não acrescentaram nada sobre o caso.