Falta de coordenação incendeia combate às chamas em Mação

Frente de fogo deixou de ser combatida porque Sapadores de Lisboa receberam ordens para a abandonar
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Na estrada entre Pereiro de Mação e Castelo, os Sapadores de Lisboa alinharam os carros, prepararam os homens e as mangueiras para combater um frente de incêndio que calcorreava o mato a uma impressionante velocidade. A estratégia passava por combater as chamas junto a uma ponte. Porém, quando tinham tudo a postos, através do intermitente SIRESP (a rede de comunicações de emergência) surge a ordem: é preciso mobilizar meios para São José das Matas, a 20 quilómetros, onde "há casas a arder". De imediato, os Sapadores mobilizaram-se. Uma hora depois, já em São José das Matas, um desabafou com o DN: "Aquilo lá em baixo ficou tudo a arder, estão a pedir meios pelas comunicações." Confrontado com esta situação, o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, admitiu problemas com os meios de combate, dizendo que, após a tragédia, "alguém vai ter que explicar o posicionamento dos meios".

A falta de coordenação entre os homens no terreno e o posto de comando foi por demais evidente durante o dia de ontem. Noutra localidade, perto de Vale do Grou, uma coluna de bombeiros de São Pedro de Sintra e Algueirão esperava por indicações. "Dizem-nos para estar parados", disse um dos operacionais ao DN, sublinhando não pretender ser identificado, já que a comunicação "oficial" está centrada em Lisboa, na sede nacional da Autoridade Nacional da Proteção Civil, a 182 quilómetros do teatro de operações. E, oficialmente, a porta-voz da Autoridade Nacional de Proteção Civil, Patrícia Gaspar, garantiu que Mação concentrava "tudo o que é possível" em termos de meios. Porém, no terreno, a realidade parecia ser outra.

São José das Matas foi um dos casos mais críticos de ontem, assim como a aldeia de Casas da Ribeira, com o fogo a chegar a 100 metros de algumas habitações - houve zonas onde tiveram de ser retiradas pessoas de casa durante alguns períodos -, tendo destruído algumas, segundo testemunhos recolhidos pelo DN. Quem escapou à destruição foi a aldeia de Vale do Grou. "As pessoas foram reunidas na Associação Desportiva e Cultural", contou Maria Olívia, enquanto dava comida à meia dúzia de galinhas e um par de coelhos que se mantiveram abrigados no curral durante a noite."Escapamos, o que está para trás fica para trás", resumiu, agradecendo "a Deus" por ninguém ter morrido.

As mortes (64 confirmadas oficialmente) aconteceram há um mês, em Pedrógão, porém uma das falhas identificadas no combate aos fogos persiste: o SIRESP não funciona. Um elemento da GNR mostrou-o ao DN, exibindo o visor do aparelho, no qual era perfeitamente identificável a "falta de rede", algo que, nestas situações, até poderia acontecer aos telemóveis, mas não às "comunicações de emergência". "Disseram-nos para procurar locais altos", referiu. A mesmo versão foi transmitida ao DN por um bombeiro na Aldeia de Eiras, "SIRESP? Esqueça".

No terreno, as corporações de bombeiros que vieram de outras localidades, segundo vários relatos de habitantes locais, estavam com dificuldades em orientar-se. "Há muito bombeiros espalhados pelo território de 18 mil hectares. De Mação a São José das Matas são 50km e os bombeiros que vieram de Lisboa ou Porto não têm conhecimento do terreno. Há populações a queixar-se que há aldeias a arder e não há um único bombeiro", contou o presidente da Câmara de Mação, Vasco Estrela, não escondendo o desconforto perante a forma como estava a ser combatido o fogo que teve inicio no domingo e já provocou 12 feridos sem gravidade.

"Já estamos a reunir um conjunto de perguntas a fazer, que possam justificar ao posicionamento dos meios em Mação, onde ardeu uma área de 18 mil hectares, enquanto nos outros dois concelhos arderam entre sete e oito mil hectares. Que meios estavam nos locais? Não estou a dizer que houve algum tipo de favorecimento, estou apenas a constatar factos", declarou Vasco Estrela. Autarca que às explicações que diz ir pedir pode acrescentar o alerta do presidente da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, sobre o facto de o ataque inicial aos incêndios estar a ser feito de forma errada, o que a Proteção Civil já negou.

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