Os resultados das eleições legislativas francesas abriram espaço para algumas questões que, provavelmente, culminarão num processo de reflexão relevante para o futuro coletivo (ao nível nacional e comunitário)..Algo que deve ser evitado de imediato é limitar a análise da noite eleitoral em França à perda da maioria absoluta por parte do Presidente Macron. Tal significaria desvalorizar o que se passou efetivamente por terras gaulesas. Aliás, se assim se proceder o entendimento sobre a realidade será parco ou mesmo nulo, advindo daí possíveis consequências futuras..França, independentemente do seu sistema presidencialista, não deixa de ter eleições legislativas e nas quais se elegem uns modestos 577 deputados. A importância desse ato eleitoral é considerável e, fenómenos abstencionistas à parte, pode afirmar-se que a participação dos eleitores foi superior quando comparada com os resultados de há 5 anos..Não deve deixar de ser sublinhado que ontem se assistiu a uma segunda volta nas eleições legislativas, isto após a eleição presidencial no passado mês de abril. Também aí houve duas voltas, nos dias 10 e 24 do mês referido. Esta "colagem" não aparece aqui por acaso. A mesma pretende transparecer a quantidade de vezes que os franceses foram chamados a votar: em 80 dias deslocaram-se quatro vezes às urnas..O facto é que o Presidente Macron perdeu a maioria absoluta no parlamento. A consequência imediata é que os extremos cresceram agora mais que nunca. Por conseguinte, importa aprofundar o porquê desta viragem dos franceses, isto é, que caminho foi feito desde a moderação até aos extremos, seja à esquerda ou à direita, e que implicações terá por lá e também no seio da União..Recuando um pouco, França tem atualmente problemas sociais muito graves. Os esforços, alguns bem-sucedidos, em dar resposta às necessidades básicas das pessoas ainda são um denominador comum. Todavia, a fuga dos eleitores para os extremos favorece a colocação da seguinte dúvida: o que acontecerá quando Macron já não se puder (re)candidatar?.E a questão anterior é como as cerejas, ou seja, outras tantas com ela surgem: continuará a fuga para os extremos? Ficarão com o movimento criado por Macron ou a sua saída permitirá o renascer dos partidos tradicionais que "dinamitou"?.As repostas a estas e outras questões são mais pertinentes do que à primeira vista se possa pensar, tanto para os franceses como para nós europeus. Essa importância dá-se na medida em que a política externa francesa não ficará igual com outros protagonistas menos moderados..Para já, há um compasso de espera. É preciso aguardar pela concretização da solução governativa a encontrar e a respetiva composição de um novo executivo. É ainda uma incógnita, mas talvez se vislumbre a possibilidade de uma coligação com os Republicanos da direita, que já se voluntariaram para tal..Uma coisa é certa: toda a cautela com estes resultados é pouca pois o amanhã já começou e passa por aquilo que acontecer em França. Aí, terão necessariamente de ser dadas respostas às pessoas, seja ao nível de integração, educação, habitação ou âmbito social..Há a noção de que uma grande fatia do eleitorado optou já pelo discurso extremista bilateral. Tal fenómeno pode no futuro impor a coberto de uma necessidade imperiosa, mas democrática, as medidas que agora não foram tomadas - ou aceites..Daí que a conjuntura atual, por todos os motivos, não favoreça distrações ou simplismos. O melhor é mesmo faites attention.