Para o melhor e para o pior, a nossa memória cinéfila da história do século XX está dominada pelas referências dos filmes de Hollywood. E são muitas, muitas vezes admiráveis (não se trata de favorecer qualquer anti-americanismo primário). Acontece que não podemos esquecer a diversidade e riqueza dessa mesma memória no interior das mais diversas cinematografias europeias - com a estreia de Guerra Fria, produção polaca assinada por Pawel Pawlikowski, aí temos mais uma bela ilustração de tal dinâmica..O título do filme tem qualquer coisa de conciso, mas também amargamente irónico. Assim, a história das relações entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) começa por ser um romance discreto, ligeiramente perverso, nascido no universo das juventudes musicais comunistas, na década de 50. Dito de outro modo: a Guerra Fria entre o Bloco de Leste e o Ocidente não surge "ilustrada" pelas relações amorosas - são estas que, através das mais insólitas e inesperadas nuances afetivas, acabam por conter e, num certo sentido, ampliar o perturbante eco de um tempo de muitas convulsões políticas e militares..É caso para dizer que, de facto, deparamos com a frieza que pode contaminar, porventura aniquilar, as mais genuínas relações humanas. Prolongando a austeridade do seu título anterior, Ida (2013), Pawlikowski consegue manter o fascínio desse equilíbrio instável: por um lado, penetramos no labirinto de uma intimidade que resiste a desmontar os seus enigmas; por outro lado, tudo se passa como se os mais singulares elementos psicológicos funcionassem como bisturis da história coletiva..Enfim, convém não esquecer que Pawlikowski é herdeiro de toda uma tradição que envolve tanto a crueza épica de um cineasta como Andrzej Wajda (1926-2016), através de títulos como O Homem de Mármore (1977) e O Homem de Ferro (1981), como o realismo obsessivo de Krzysztof Kieslowski (1941-1996), em particular na sua série sobre os pecados mortais. Com o citado Ida, Pawlikowski já ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro; agora, está de novo na corrida, uma vez que Guerra Fria é, este ano, o representante oficial da Polónia a uma nomeação nessa mesma categoria.