Esta mania da ancoragem!
Portugal tem muito esta mania perniciosa de estratificar, qualificar, rotular e, talvez pior, com isso criar vieses desnecessários. Julgar rápido sem perceber o que é, fez ou faz uma empresa, um negócio, um projeto. Pior que tudo, uma pessoa. Julgar por julgar. Criar pré-conceitos por criar.
Esta mania intrínseca, que passa de geração em geração e se tornou educacional, é um problema ancestral, mas que prejudica fortemente tudo, das relações ao trabalho.
Numa linguagem um pouco mais elaborada chama-se a isto efeito de ancoragem. Confiar demasiado nas primeiras impressões, nos feelings e no que outros nos dizem como sendo verdade, assim como em peças de informação que são apenas rascunhos iniciais para tomada de decisões.
O grande problema disto é que ao ancorarmos generalizamos. E rotulamos rápido o que pode não ser necessariamente assim. Des-generalizar e voltar atrás num pré-conceito é tramado. É difícil. Mas é obrigatório. Temos de o fazer a nosso bem e a bem dos outros.
Compete-te dares oportunidades, e criares essas oportunidades, para várias pessoas.
Já ancorei? Tantas vezes. E arrependi-me sempre de o fazer. Se o arrependimento matasse! Agora, a idade vai-nos dando uma maturidade - ou chamem-lhe o que quiserem - no sentido de procurar ser mais prudente nos pré-conceitos e sobretudo, mesmo que pense qualquer coisa, procurar não pensar com a boca. Bons comentários: "Não tenho informação para me pronunciar.". "Não conheço o suficiente para emitir opinião.". "Conheces? Não muito bem pelo que prefiro não avançar com classificações."
Mais. Mesmo que pense alguma coisa de alguém e sobre ela tenha formado uma ideia há sempre tempo de a mudar e, igualmente, de essa pessoa ter mudado no entretanto, sendo que os pré-conceitos poderão muito bem esboroar-se e haver oportunidades interessantes para uma amizade, um trabalho conjunto, enfim oportunidades.
É um facto que esta ancoragem começa devagarinho, mas vai-se estendendo, estendendo e passa a ser um modo de vida. "Esse gajo? Um atrasado mental.". "Esse idiota? Só quer dinheiro". "Esse tipo? Não tem a mais pálida ideia do que anda a fazer". "Quem? Um incompetente de primeira." "Ah, bom, essa espécie de humano vende-se por tudo e nada.". "E vende-se a todos.".
Bom, mas porque escrevo eu isto?
Porque há dois problemas fundamentais nas empresas que não estão a ser resolvidos. Aborda-se muita coisa e teoriza-se muito, mas os básicos não estão a ser tratados. E começam por cada um de nós. E não se chamam feedback, nem quejandos da moda, mas têm como pressuposto base, talvez, também a retenção e o salário psicológico. Um é a questão do diálogo. Outro é a questão da escuta ativa.
Quanto tempo damos para dialogar com aqueles que connosco trabalham? Já experimentámos falar, dialogar, convidar para um café, um almoço, alguém a quem rotulámos de "atrasado mental? De incapaz?" Talvez seja a boa altura de o fazer agora que vêm as férias e que podemos começar a redesenhar relações com outras pessoas. E onde, parando, podemos pensar, mudar opiniões e reconstruir relações.
Quanto tempo ouvimos, com ouvidos de ouvir, as outras pessoas? Quanto tempo falamos com elas sem estarmos ao telemóvel, a olhar para o PC, a fazer outras coisas ao mesmo tempo? Talvez seja a altura de o começarmos a fazer. Sobretudo com aquelas que menos consideramos e que connosco se cruzam.
Nunca é tarde para uma higiene mental mais interessante. O pior de tudo é começar sempre a avaliação das pessoas da mesma maneira e a pensar, cada vez que nos entram pelo gabinete adentro, "lá vem este outra vez". Isso sim, é fácil de fazer, mas difícil de mudar. Talvez a desancoragem não seja simples. Mas tentar é e será sempre um bom princípio. Porquê? Porque me vou dar ao trabalho? Essa resposta deixo contigo. Haverás de descobrir uma boa razão para uma resposta interessante.
Se tudo isto não funcionar, pois estuda os vieses. E começa a fazer um exercício de conhecimento dos mesmos para depois talvez os conseguires compreender e não aplicar. É que, no limite e na prática, outros também te chamam a ti "atrasado mental". Ou bem pior que isso. Pensa nisso. Nem que seja por um instante.
Presidente Iscte Executive Education