Esta é a noite em que uma ópera traz a Amazónia a Lisboa. Para nos avisar

A Gulbenkian recebe a estreia de "3 mil RIOS: Vozes da Floresta", ópera multimédia de Victor Gama que nos leva para as florestas sul-americanas, por entre as suas comunidades indígenas
Publicado a
Atualizado a

Não sabemos se Victor Gama já parecia assim tão calmo antes de conhecer a floresta colombiana. Agora, quase se pode dizer que esse rasto se perdeu, pois desde 1997 que a visita. Certo é que estávamos a dois dias da estreia mundial da ópera 3 mil RIOS: Vozes na Floresta - hoje no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, que a encomendou - e o músico e compositor angolano parecia calmo, falava como tal.

Como se fosse simples falar de uma ópera que tem como cenário imagens em movimento que mostram as florestas tropicais da Amazónia colombiana e brasileira, das montanhas dos Andes, e da costa do Pacífico. Um cenário em que gente das comunidades indígenas daquela zona nos falam das suas vidas. Um cenário onde assistimos a "uma enorme barragem em plena Amazónia, com uma floresta completamente morta e afundada", e ficamos a saber das muitas outras que estão planeadas.

"Tem um impacto brutal", resume Victor Gama. Este é o ponto. É desse cenário, que ele visitou intermitentemente durante quatro anos, que nasce tudo o que acontece no palco: as soprano colombianas e angolana Yetzabel Arias Fernandez, Betty Garces e Té Macedo, o canto tradicional colombiano de quem hoje pisa Lisboa, e pertence a uma comunidade indígena em cujo território as pessoas de fora estão proibidas de entrar, como Jaime Kiriateke, que se junta a Waira Nina Jacaminejoy. Depois há a dança, e o som da marimba, de uma toha, instrumento de 22 cordas feito para duas pessoas (ali tocado por Gama e Salomé Pais Matos), criado pelo compositor a partir dos ninhos dos pássaros tecelões, e, de mais a mais, a Orquestra Gulbenkian, conduzida pelo maestro Rui Pinheiro.

[vimeo:152326144]

Tudo isto para Gama, nascido em Angola em 1960, e em permanente trânsito pelo mundo - com Portugal como "base giratória" - contar a história do que se passa nas florestas da América Latina, dos problemas ambientais que ali se vivem, e daquelas pessoas, que "vivem à margem. Uma margem que, muitas vezes, é caracterizada por se situar em territórios que não são controlados pelo Estado, mas por uma guerrilha, ou que são penetrados por paramilitares. E essas pessoas vivem numa negociação permanente do seu espaço."

Entrar em território das FARC

Estamos nas margens de rios amazónicos como o Caquetá, o Napi, ou o Madalena. Ali, "as pessoas não têm outra forma de sobreviver se não minerando ouro ou plantando coca." Uma vez, ao subir o rio Napi, na costa do Pacífico, Victor conseguiu entrar numa zona controlada pelas FARC. "Foi uma coisa negociada." A normalidade instalada em permanente estado de sítio é visível, conta. "São pessoas que têm sempre um sorriso na boca, umas piadas..."

Depois, naquela música que compôs entre 2014 e 2015, entra também "a força da floresta" propriamente dita. "Nós temos uma visão romântica da Amazónia, mas na realidade é um terreno difícil, de difícil navegação e é uma natureza que agride por vezes." E é essa força que está a ser destruída, e com ela a vida das comunidades que vivem na floresta. Esta não é, contudo, a primeira vez que Gama põe questões ambientais no centro da sua obra. Fê-lo, por exemplo, em 2010 para o Kronos Quartet. Rio Cunene estreava no Carnagie Hall, em Nova Iorque.

"Este sistema capitalista global e consumista em que vivemos causa um impacto imenso nestas florestas. A construção de barragens hidroelétricas cria um enorme impacto, traz muita gente para a construção, são centenas de milhares de pessoas para construir uma barragem. Criam-se cidades", explica o músico.

Também isto escutamos e vemos em 3 mil RIOS: Vozes na Floresta. A forma como tudo o que ele elenca interfere nas comunidades colombianas onde Victor Gama assistiu às cerimónias Ambi Huasca. E nem no entusiasmo com que as descreve a sua voz acelera:"Há um grupo que se junta e há um médico tradicional, o taita. Dirigem as cerimónias, são xamãs. Muitas vezes são também líderes comunitários. As pessoas bebem o Ambi Huasca, preparado de uma liana, que causa um estado alterado de consciência. É uma purga, fisicamente, e a nível de trabalho interior." Para ele, participar no ritual foi uma "janela na cultura amazónica".

Outra foi "uma coisa a que eles chamam salmodia: espécie de canto falado que acontece à noite." É secreto, "não é permitido gravar, mas eu ouvi-o." E trouxe-o. "No fundo, é isso que influencia a música, para bem ou para mal. Não sei se vai resultar, acho que sim."

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt