Qual a importância da medida anunciada pelo governo de abrir, a 25 e 1 de janeiro, cerca de 200 centros de saúde? É um ponto positivo, claramente. Tudo o que puder mitigar o impacto da pressão sobre as urgências hospitalares será bem-vindo. Mas este plano que tem sido anunciado como uma novidade já existiu nos anos anteriores e parece-me profundamente insuficiente. A Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde anunciou este período como o mais crítico desde a criação do SNS, mas nada foi feito para atenuar esse efeito ou ajudar a melhorar a situação das pessoas. Perante as dificuldades especiais deste ano, esperava-se uma intervenção mais profundo do Ministério da Saúde. Mas, afinal, é mais do mesmo, empurra os problemas para a frente à custa de mais promessas e intenções que acabam por nunca ver a luz do dia..Quais as propostas da OM para os cuidados de saúde primários? Os cuidados de saúde primários têm duas vertentes essenciais: a Medicina Geral e Familiar que trata das pessoas, do seu quadro familiar, é uma medicina de proximidade e a Saúde Pública que trata de uma visão macro da população e da Comunidade. Intervêm em aspetos essenciais como a literacia em saúde, promoção e prevenção em saúde e tratamento dos doentes. OS CSP são a porta de entrada do SNS e merecem ser mais valorizados, terem melhores condições de trabalho, serem desburocratizados e permitirem que a intervenção médica não sofra interferências externas que nada têm a ver com o bem-estar e necessidades dos doentes. É errado penalizar os médicos caso prescrevam muitos medicamentos sem ter em conta as necessidades dos próprios doentes. O Ministério da Saúde continua a desvalorizar os Médicos de Família e de Saúde Pública, continua, por isso, a desvalorizar a Saúde e o SNS..E o que propõe relativamente ao funcionamento dos serviços de urgência? A forma que os governantes têm visto o SNS e a resposta urgente é de uma visão retrógrada. O SNS foi transformado ao longo dos anos numa grande urgência e a resposta em cuidados está a afunilar-se nos serviços de urgência. As consultas, as enfermarias, as cirurgias programadas, toda a atividade clínica estão a ser esvaziados devido à concentração de recursos no Serviço de Urgência..Qual é a posição do Bastonário sobre a criação da especialidade Medicina de Urgência? A Ordem dos Médicos já se pronunciou há um ano sobre esta matéria. Não sou contra uma solução de diferenciação técnica e formativa para o serviço de urgência. Já há propostas nesse sentido a serem analisadas. É necessário um consenso vasto para qualquer solução. Mas esta questão não pode ser vista como a solução para a resolução dos problemas da Urgência. As soluções a implementar são aquelas que o Ministério da Saúde tem sido incapaz de concretizar, apesar dos múltiplos alertas da Ordem dos Médicos e dos Médicos..Que soluções tem a OM para melhorar o acesso a cuidados de saúde? Provavelmente o maior problema do SNS tem a ver com a carência de recursos humanos, nomeadamente com os recursos humanos médicos. O SNS tem sido incapaz de atrair e de reter os médicos que são necessários para os seus quadros, em várias especialidades e em várias zonas do país. Sem médicos não há saúde e o acesso será irremediavelmente comprometido. Sobrecarregar os médicos que existem no SNS em número insuficiente não é a solução. A solução é termos mais médicos, é termos um SNS mais competitivo e atrativo, com melhores condições de trabalho, melhor organização, mais formação e investigação. Um SNS a cumprir não só o seu papel na resposta às necessidades das populações, mas também um pilar de formação, investigação e desenvolvimento..Como definiria a relação do Bastonário com o ministro da Saúde? Há quem defenda que passou a ser mais agressiva apenas depois da queda do Governo?Qualifico a relação pessoal como boa, cordial e de respeito mútuo. Mas o que me importa são os compromissos institucionais que não são cumpridos. A Ordem dos Médicos sempre se disponibilizou a colaborar e ser um parceiro responsável. Não é aceitável o que aconteceu no processo do Estatuto da Ordem dos Médicos em que os compromissos assumidos foram totalmente desrespeitados, em que nada foi feito para o desenvolvimento da Carreira Médica ao contrário de outras profissões da saúde, em que os princípios básicos da qualidade da formação médica foram desvalorizados ou ignorados ao contrário do que foi feito noutras profissões da Saúde. O ministro parece ter esquecido que a medicina e o papel dos médicos são essenciais para o SNS e para todo o sistema de saúde. Esta visão nunca terá o acordo da Ordem dos Médicos, e esta diferença de perspetivas tornou-se clara bem antes da instabilidade política que o país está agora a atravessar..O que tem a dizer sobre o comportamento do ministro e dos deputados no que diz respeito á revisão dos estatutos da OM? Tenho a dizer o que qualquer pessoa poderia dizer quando um compromisso, um entendimento é totalmente desrespeitado. O diálogo inicial foi estabelecido entre pessoas de bem que estavam obrigadas a cumprir com a palavra dada. Tal não sucedeu com um impacto grave sobre a formação dos médicos, sobre a qualidade da medicina e a independência da Ordem dos Médicos. É uma escolha que terá consequências nefastas a curto e médio prazo e que irá prejudicar os cuidados de saúde..Concordam -- o bastonário e a OM -- com a passagem de todas as unidades de saúde para unidades locais de saúde, base da reforma de Fernando Araújo? Concordo com o conceito de integração vertical dos cuidados de saúde, isto é, com a aproximação e ligação mais concreta dos cuidados de saúde primários, medicina geral e familiar e saúde pública, com os cuidados hospitalares e continuados e acrescentando o setor social, como os lares e os cuidados ao domicílio. Mas tenho muitas reservas sobre o modelo escolhido para concretizar essas mudanças. As Unidades Locais de Saúde não são uma novidade e constatamos que os hospitais e centros de saúde com mais dificuldades no país estão colocados em ULS: Beja, Portalegre, Santiago do Cacém, Guarda, Castelo Branco, Bragança. Quase a totalidade de todas as UL. Depois este modelo não está a ser adaptado às especificidades de cada região ou de cada hospital como é o caso dos hospitais ligados às Escolas Médicas e que têm um peso no ensino, formação e investigação diferenciado. Faltou discussão e muito diálogo. Tenho receio que este possa vir a ser um processo fracassado logo na sua implementação. Teria sido necessário reunir mais consenso para, por exemplo, atenuar o efeito da híper centralização das ULS nos hospitais/serviços de urgência dando maior espaço aos cuidados de saúde primários..Gostaria que um próximo executivo alterasse algumas das leis criadas por este? Gostaria que existisse coragem de atuar e implementar as soluções e as reformas que são necessárias para a saúde dos portugueses. Empurrar sistematicamente os problemas e adiar soluções tem criado um enorme prejuízo ao SNS e está a destruí-lo. A inanição e incompetência dos sucessivos governos são os responsáveis da degradação de todo o setor da saúde e social do país. Não me esqueço dos números preocupantes da pobreza em Portugal e do aumento dos sem-abrigo. Estas matérias também nos devem preocupar..A OM detetou alguma falha deontológica e/ ou de boas práticas nos médicos envolvidos no caso das gémeas brasileiras [que receberam um tratamento para a atrofia muscular espinal]? O processo está em avaliação no Conselho Disciplinar da Região Sul, será este órgão da Ordem dos Médicos que deverá ponderar esses aspetos sobre todos os que tiveram uma intervenção médica no processo, independentemente do seu nível de decisão. Estas intervenções são sempre feitas à luz dos preceitos éticos e deontológicos da profissão e tendo em conta o Juramento de Hipócrates..Que nível de contestação dos profissionais de saúde prevê para 2024? Prevejo um nível de alerta e intervenção na defesa dos cuidados de saúde de qualidade, do SNS, da formação médica, das condições de trabalho, dos médicos e dos doentes. Estas serão sempre as bandeiras dos médicos e do Bastonário. Nunca deixaremos de defender os doentes e a qualidade da atividade médica.