Enxurrada causa feridos e destruição na Madeira

Curral das Freiras foi a freguesia mais afectada pelo transbordar do ribeiro. Pedras atingiram três casas. Registaram-se dois feridos <br />
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Trovoada, forte precipitação e rajadas de vento varreram o litoral sul da Madeira na madrugada de ontem e reabriram "feridas" abertas pela catástrofe de 20 de Fevereiro. O sítio da Capela, no Curral das Freiras (freguesia de Câmara de Lobos) amanheceu com viaturas e casas praticamente soterrados pela enxurrada, a vila da Ribeira Brava e a Serra d'Água com queda de pedra e inundações, enquanto na baixa do Funchal a ribeira de Santa Luzia voltava a transbordar.

Na freguesia do Curral das Freiras o transbordar de um ribeiro, no Sítio da Capela, acordava a população, provocando dois feridos ligeiros e estragos em três casas, uma escola, e quatro viaturas. Eram duas da manhã quando Sónia Borges, 26 anos, agarrava na filha de 10 anos, e fugia. "Tenho a casa cheia de lama. Para mim, foi pior do que o 20 de Fevereiro que me apanhou dentro do camioneta (autocarro) a caminho do Funchal".

Para Sónia a culpa desta situação tem nome. "A catástrofe de Fevereiro, atingiu a estrada velha. Há ainda pedras e entulho. Eles não limparam nada. As águas acumularam-se lá para cima e canalizaram por aí abaixo. Não se pode viver assim, com esta angústia permanente", sublinhou.

Entretanto, durante o dia a população organizou-se e meteu braços às limpezas. Juan Sousa, presidente da Casa do Povo, cujas instalações foram disponibilizadas para eventuais desalojados, garantiu ao DN que tudo se estava a resolver. No mar, continua a forte ondulação impedindo a ligação do ferry com a ilha do Porto Santo.

No Funchal, a água e a lama invadiram a Avenida do Mar e a Praça da Autonomiam, encerradas ao trânsito até ao início da tarde de ontem, depois das equipas de limpeza da Câmara Municipal do Funchal terminarem os trabalhos. O rebentamento de uma conduta de água na zona da Fundoa vai condicionar o abastecimento na freguesia de Santo António. A reparação deverá demorar seis dias.

Para o geólogo Raimundo Quintal, a vulnerabilidade da cidade é uma realidade que exige uma solução urgente. "Os incêndios de 13 e 14 de Agosto delapidaram totalmente a formação vegetal que em Fevereiro se comportou como o principal guardião do Funchal. O urzal de altitude foi destruído pelo fogo", disse ao DN.

A situação verificada ontem é "muito preocupante" devido à desertificação da cadeia central. Nesta madrugada, à forte precipitação juntou-se uma maré-cheia. A bacia de recepção das três ribeiras que atravessam o Funchal não está preparada para receber os detritos arrastados pelos caudais. O problema agravou-se depois da criação de um aterro na baía do Funchal, com o depósito de toneladas de lamas e pedras, que provoca o assoreamento da foz das três linhas de água.

De acordo com Raimundo Quintal, "esta foi a razão para a ribeira de Santa Luzia voltar ontem a transbordar e a invadir a Praça da Autonomia. O símbolo da Madeira Nova (referência ao jardinismo) mais uma vez sucumbiu perante a velha Natureza. É preciso que se convençam disto e que haja um pingo de humildade, por parte dos governantes", referiu.

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