O título do filme O Homem Que Vendeu a Sua Pele é para ser tomado à letra. Isto porque Sam Ali (Yahya Mahayni), um refugiado sírio, é uma figura desesperada que aceita a proposta de um artista para fazer nas suas costas uma tatuagem... Longe de qualquer sugestão pitoresca, o desenho reproduzirá um visto de circulação no espaço Schengen. Mais do que isso: através de tal "intervenção", Sam tornar-se-á um verdadeiro objeto de exposição em museus, desse modo podendo chegar à Europa como "mercadoria" artística..Escrito e realizado pela cineasta tunisina Kaouther Ben Hania, o filme possui uma evidente atualidade dramática, atraindo para a história de Sam um duplo simbolismo: primeiro, como é óbvio, ecoando as vivências contemporâneas dos refugiados; depois, questionando algumas opções artísticas que desafiam os limites da própria identidade humana. Aliás, tais componentes valeram-lhe mesmo, em representação da Tunísia, uma nomeação para o Óscar de melhor filme internacional (ganho pelo dinamarquês Mais Uma Rodada)..Como se prova, está na moda representar o mundo artístico como uma parada de gente cínica e manipuladora. Assim aconteceu, por exemplo, com O Quadrado, do sueco Ruben Östlund, consagrado, em 2017, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Neste caso, a personagem de Sam possui um misto de ansiedade e vulnerabilidade que lhe permite, pelo menos, escapar aos estereótipos mediáticos que contaminam muitas formas de representação dos refugiados..Será essa, aliás, a dimensão mais curiosa de O Homem Que Vendeu a Sua Pele: a odisseia de Sam envolve qualquer coisa de melodrama suspenso, já que a vida da mulher que ama está também fortemente condicionada pela conjuntura de guerra e, mais do que isso, pela prevalência de valores ancestrais no tratamento das mulheres..Digamos que tudo isto é muito para sustentar um objeto de inequívoca pertinência temática. E também muito pouco para uma narrativa que oscila, sem grande nexo, entre o drama e a caricatura, a crueza realista e o simplismo metafórico..dnot@dn.pt