Ana Rita Teles estuda em Coimbra, mas há um papelinho num frigorífico em Penafiel que diz à sua mãe em que aulas ela está. "A minha mãe fez questão de ter um horário para saber quando me pode ligar." O que não a impede de telefonar vezes sem conta para saber se a filha mais nova está a sobreviver aos primeiros dias fora de casa e à vida de universitária. Mal se distrai um bocadinho, a aluna de jornalismo olha para o telemóvel e tem "seis chamadas não atendidas e mensagens a perguntar se estou viva"..À primeira vista parece que não está a sofrer as dores da adaptação à vida de universitária longe de casa. Nada mais errado. Se Ana Rita até brinca com as saudades da mãe, as dela não são mais pequenas. Afinal, é a primeira vez que sai de casa dos pais e tem de se desenrascar sozinha. Ela e os outros cinco caloiros que falaram para o DN e que estão agora a começar uma etapa das suas vidas que é comum a 40% dos universitários portugueses. De acordo com os números da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), há 129 050 alunos que estudam fora do distrito de onde são naturais. O que significa que provavelmente saíram todos de casa..O percurso longe da asa dos pais começa por ser entusiasmante, mas depois instala-se a rotina e as saudades chegam. É o que diz a experiência de Salomé Mina, que já tem o filho mais velho a acabar Biologia, em Coimbra, e viu agora o caçula Nuno rumar também à cidade dos estudantes. "Agora é a altura das praxes, de conhecer os colegas, a faculdade e a cidade. Não têm tempo para pensar em saudades. Mas quando cair na rotina é que pode haver dificuldades", diz. Nuno confirma a versão da mãe: "Ainda não há saudades. Sei que agora custa principalmente à minha mãe, mas ela aguenta.".Entretidos com a nova vida, os caloiros estão convencidos de que os pais sofrem mais do que eles. Mas também é certo que nenhum ainda ousou cozinhar - se o fizeram tiveram vergonha de contar ("ah, não vou dizer o que já cozinhei, que é uma vergonha") -, lavar a roupa ou ir ao supermercado. "Esta foi a primeira semana, almoçámos e jantámos todos os dias na cantina. Mas espero vir a cozinhar em casa, até porque vivo com erasmus e eles já pediram comida portuguesa", conta Ana Rita Rodrigues. A algarvia, filha única, saiu de Aljezur para Coimbra e já teve uma primeira desilusão na cidade. "Fui à procura de doces algarvios para mostrar lá em casa e não havia em nenhum supermercado.".Apesar de ter vindo da zona onde se fala mais inglês em todo o país, Ana Rita parece que até foi estudar para o estrangeiro. Em Aljezur falava português e na sua nova casa - que partilha com oito pessoas - só fala inglês ou espanhol. "É um desafio." Português só daquele com açúcar, que é como quem diz brasileiro, o idioma de dois colegas de casa..Desafiante foi também a adaptação à cidade. "Fiquei constipada logo na primeira noite. O Algarve é muito mais quente." Além disso, sente a falta do mar. Ponto positivo para Coimbra: "O traçadinho é melhor do que a amarguinha." Uma garrafa deste licor foi aliás a única recordação da sua terra que trouxe..A caneca, o relógio e a guitarra.Trazer objetos de casa é uma forma de enganar as saudades. De Leiria, Mariana Cardoso trouxe um urso-polar de peluche que ganhou na feira local quando tinha "uns 5 anos". "Costumava tê-lo no meu quarto e assim lembro-me de casa e já não tenho tantas saudades", justifica..Nuno Mina trouxe de Bragança a sua guitarra. "Costumo tocar e faz-me lembrar a minha casa." Da Madeira, Catarina Miranda veio com uma moldura "da fotografia do meu namorado" e "um relógio da minha mãe". Mais prática, Ana Correia limitou-se a "trazer as coisas que faziam falta" de Viana do Castelo até Lisboa..Ana Rita Teles não saiu de Penafiel sem uma lembrança da avó. "Ela adora a caneca e eu adoro chá. Pedi-lhe se podia trazê-la para me lembrar dela e ela disse que sim." Agora só falta a oportunidade para fazer chá, algo de que até precisava, já que está rouca dos cânticos da praxe. A falta de oportunidade justifica-se com o facto de a estudante ter passado a primeira semana num hostel até ter lugar na residência e nem ter tirado as coisas da mala. "Não ter um armário para pousar as minhas coisas não ajuda a evitar as saudades", admite..Tudo promete mudar, já que o seu cantinho ficou confirmado no dia em que falámos com ela nos jardins da Associação Académica de Coimbra (na quinta-feira, 22 de setembro). "Soube nesta manhã que tenho lugar numa residência. Fui à entrevista e disseram-me que tinha lugar. Ainda não pude lá ir, mas pelo menos já sei que tenho o meu espaço garantido.".Mais aliviada, não disfarçava, no entanto, a vontade de ir a casa visitar os pais. "Neste fim de semana tenho de ir porque senão os meus pais... e eu, não aguentamos a saudade." A Teles, como é conhecida no curso de Jornalismo - existe outra Ana Rita no curso, a Rodrigues, do Algarve -, nem se reconhece. Sempre sonhou estudar longe de casa - para contrariar a tradição familiar, "a minha irmã, mais velha nove anos, casou e ficou a viver na mesma rua dos meus pais" - e até sair do país, mas agora "se calhar já não quero"..Ajuda a praxe e o convívio que esta proporciona, que mal lhe dá tempo para pensar e faz que não tenha de passar muitas horas sozinha. É o que sente também Catarina. Para ela, habituar-se às rotinas de casa é fácil, difícil é habituar-se "a uma cidade nova, completamente diferente do sítio de onde venho". O sítio de onde vem é a Camacha, em Santa Cruz. A madeirense que estuda Direito na Universidade de Lisboa estranhou as distâncias e a adaptação aos transportes tem sido a parte mais complicada..Mães ao fim de semana.Apesar de viver com mais duas pessoas, Catarina sente falta "de ter a casa cheia". Na Madeira ficou a irmã mais nova (de 13 anos) que vai fazendo companhia aos pais. É lá que a sua mãe, Marta Miranda, vai recebendo os telefonemas em que a jovem de 18 anos fala das dificuldades em gerir a distância, deixando a mãe com o coração apertado.."O que me custa mais é quando ela não está bem, quando diz que tem saudades. Porque se ela está bem eu consigo ultrapassar a distância. Estando sozinha tem muito tempo para pensar e é natural que cheguem as saudades", conta..O que não quer dizer que a funcionária da Universidade da Madeira não sinta a falta da filha mais velha. "Custa-nos, não há aquele abracinho, depois ela só volta no Natal, mas temos que deixar o passarinho voar." No dia-a-dia, Marta confessa que às vezes ainda tira do armário quatro pratos quando vai pôr a mesa, "até tirámos a cadeira dela da mesa, mas o lugar está lá". Na despedida, a mãe ficou no aeroporto da Madeira a chorar. O pai veio a Lisboa quatro dias ajudar a procurar casa e ensiná-la a orientar-se nos transportes. Catarina só tinha estado uma vez na capital, e já não se lembrava de nada. Apesar de ser "menos galinha", o pai também não resistiu às lágrimas na hora de regressar à ilha, revela a mãe..Mais descontraída está Salomé Mina. A advogada de Bragança tem, a partir deste ano, os dois filhos a estudar em Coimbra e já estava habituada "a ser mãe ao fim de semana". São dois dias em que exerce o seu papel "de forma intensiva". Mais agora que tem de matar as saudades não de um, mas dos dois filhos..Desde que eles saíram para Coimbra - Salomé e o marido estiveram lá no primeiro fim de semana para levar as coisas que lhes faziam falta - os dois rapazes ainda não foram a casa (hão de ir hoje e amanhã). Nuno vai aproveitar para matar saudades da namorada Cristiana enquanto a mãe tem pela frente uma maratona a lavar a roupa dos filhos e cozinhar-lhe algumas refeições. Em casa vão ter direito aos pratos preferidos. "Faço questão de fazer o que eles gostam. Têm direito aos miminhos deles.".Ainda a habituar-se a ter os dois filhos fora do ninho, Salomé estranha ter os quartos vazios e não ter ninguém para ir buscar à escola. "Custa-me passar ao pé de uma escola secundária e lembrar-me que ele já não está cá.".As saudades matam-se com os telefonemas, mensagens e chamadas via Skype diárias. A jovem de Penafiel é o caso mais extremo: a mãe liga-lhe três ou mais vezes por dia..Salomé confessa que só fala com o filho Nuno uma vez por dia, "normalmente depois de jantar. Mas no primeiro dia não resisti a ligar à hora de almoço"..As conversas da madeirense Catarina com a família são feitas diariamente pelo Skype. Programa que usa também para falar com o namorado. Ao longo do dia, a mãe vai-se mantendo informada "através de mensagens", que segundo a filha pretendem apurar se ela anda a comer bem..Sem tempo para as saudades, Mariana manda mensagem de manhã aos pais, a quem sabe estar a custar mais a distância. A filha única Ana Rita Rodrigues fala "uma ou duas vezes por dia" com os pais. "Mais à hora de jantar." Ana Correia também recebeu telefonemas dos pais "uma vez por dia, na primeira semana"..150 a 350 euros por quarto.Uma das grandes preocupações e despesas de pais e alunos é o alojamento. Estudar em Lisboa é mais caro e em média os estudantes pagam entre 200 a 350 euros por um quarto. Coimbra fica mais em conta. Por 150 ou 170 euros já se consegue alugar um espaço. A maioria dos jovens aproveitou o mês de agosto para encontrar um espaço, contando que tinham média para entrar no curso que queriam..Nuno conseguiu um apartamento por 150 euros, mas como vive com o irmão, os pais gastam 300 euros em alojamento todos os meses. Já Ana Rita Rodrigues e os seus colegas estrangeiros pagam 170 euros, "sem despesas incluídas". Mais em conta será o alojamento de Ana Rita Teles que ficou numa residência e pagará, se tiver bolsa, um valor entre os 73 e os 135 euros mensais..Em Lisboa, os preços são mais elevados. Mariana vive perto da faculdade e paga 350 euros por mês. Como o irmão mora com ela, os pais gastam 700 euros. "Tem tudo incluído, despesas e limpeza", aponta a estudante de ciências farmacêuticas. O irmão estudava em Espanha e este ano veio para Lisboa. A caloira de Leiria queria vir para medicina e confrontada com a falta de média, mas com vontade de estudar na capital, escolheu um curso que lhe desse equivalências para mudar mais tarde..Paga mais pelo alojamento, mas poupa em transportes. "Como estou perto da faculdade vou a pé. Sou a primeira a acordar cá em casa e, por isso, não nos atrapalhamos. Às 07.30 estou a sair de casa porque as aulas começam às 08.00". Na cidade do Lis era o pai que a levava à escola de carro, todos os dias. Para já, Mariana antecipa dificuldades na vontade de sair cedo de casa apenas "para os dias em que estiver a chover"..Já Ana Correia paga 200 euros, com despesas incluídas. Embora tenha a sua irmã também a viver na mesma cidade, não abdicou de viver sozinha esta experiência como estudante de Direito. "Ela teve a experiência académica dela e eu tenho a minha", defende. Natural de Viana do Castelo, a prioridade na hora de decidir o curso foi "escolher o que era melhor para o meu futuro". O que para Ana significava vir para Lisboa. "Crescer longe de casa também é importante", o que não quer dizer que tenha abdicado da presença da mãe no primeiro dia. "Ela veio e foi embora logo a seguir"..Decidida e independente, Ana já teve problemas com a primeira senhoria e mudou de casa. Ainda lhe faltava "tratar do passe", mas ia resolver esse assunto na mesma tarde em falou com o DN (na terça-feira, 20 de setembro). Na faculdade não teve problemas com as burocracias: "Fiz a inscrição sozinha, foi rapidinho"..Na sua habituação à vida universitária e independente, Ana conta com a ajuda dos colegas. "Há muitos alunos mais velhos a ajudar. Estou a adorar a faculdade, o ambiente e a praxe que tem sido muito integradora. O ambiente é fantástico"..E saudades de casa? "Sente-se a falta da comida. Eu já fazia algumas coisas mas com a ajuda da minha mãe. É sempre diferente." Vai aproveitar as visitas a casa para matar essas saudades..Viagens sem arruinar a carteira.As visitas a casa são outras das coisas que os estudantes têm de racionar para não levar os pais à falência. "Estou a contar ir uma vez por mês, pela distância e pelo preço. Se for de autocarro são 45 euros ida e volta e de comboio são 74 euros", aponta Ana Rita, de Aljezur, dizendo mais alto os preços..É o custo e a distância que impedem Ana Correia de ir a casa todos os fins de semana. Viana do Castelo fica a 390 quilómetros e a comida da mãe só vai ser saboreada "uma ou duas vezes por mês"..Mariana e o irmão têm carro e as deslocações a Leiria vão ser para já semanais. "Vamos matar saudades, lavar roupa e trazer comida. Também são dois dias em que descansamos", resume. Por ser de mais longe - Bragança -, Nuno e o irmão vão tentar ir a casa apenas "de dois em dois fins de semana". Ana Rita Teles também vai poupar nas idas a casa, mas por enquanto vai todas as semanas de autocarro até Penafiel..Catarina também gostava de ter um esquema de fins de semana, mas a Madeira fica longe e só vai abraçar os pais e a irmã Sara no Natal. "Espero que ela não tenha frequências e que possa vir logo no início das férias", confessa a mãe..As despesas de casa, dos transportes, do material e dos livros para a faculdade são também contas a incluir no orçamento. Afinal, estudar fora de casa pode custar às famílias mais de seis mil euros por ano. Uma estimativa da Universidade de Coimbra aponta para 5938 euros de despesas anuais para cada estudante. Valor ao qual ainda falta somar as propinas, que neste momento estão congeladas no valor máximo de 1063 euros..Lides domésticas não assustam.Ao contrário do que seria de esperar quase todos garantem que as tarefas domésticas como arrumar o quarto, lavar a louça ou cozinhar não os assusta porque já estavam habituados a ajudar em casa..Marta conta que a filha só não gosta de limpar o pó e que tem muito jeito para a cozinha - "o pai até diz que saiu a ele" -, a única dúvida até agora foi sobre que roupa misturar na máquina ao mesmo tempo. Já Salomé desconfia que os filhos não devem cozinhar em casa: "eles perguntam-se uma vez ou outra, mas coisas pequeninas. É porque fazem o básico ou vão à cantina"..Estas são as lições que todos começaram agora a ter em paralelo com as cadeiras do curso. Aprendem a ser jornalistas, advogados, cientistas e ao mesmo tempo a ter de gerir a vida sozinhos: ir às compras, pagar as contas ou acordar cedo para ir às aulas, mesmo que a noite anterior tenha acabado quase de manhã. Hoje chegam cheios de incertezas, mas acreditam que esta etapa faz mais sentido longe das asas dos pais. "Temos que sair, se continuarmos debaixo das saias dos nossos pais nunca vamos aprender a ter um espírito de iniciativa, a ser independentes e a pensar pela nossa cabeça", defende Mariana..Embora este pensamento ainda não seja independente do de Ana Rita Teles, que diz nostálgica: "É diferente a convivência com a família, estar aqui sozinha é um bocado estranho". Mas o medo que agora a futura jornalista sente não venceu a vontade que tinha de viver na cidade dos estudantes. "Oficialmente a minha primeira escolha era o Porto, porque os meus pais preferiam por ser mais perto, mas internamente Coimbra era a minha escolha. Coimbra é Coimbra", justifica..Está visto que a música destes jovens vai passar de "quero voltar para os braços da minha mãe" para daqui a cinco anos estarem todos a cantar a Balada de Despedida. Segredos da vida de estudante levarão com eles para a vida.