Andaimes, luzes, mobílias que simulam uma casa verdadeira. É um cenário de teatro. As primeiras imagens de O Vendedor inserem-nos nessa estrutura vazia concebida para receber a vida de um texto dramático. Asghar Farhadi, realizador e argumentista de Uma Separação (2011) e O Passado (2013), referência ilustre de um cinema que ausculta a natureza humana no contexto dos dramas domésticos, encaminha o espectador para mais uma neblina familiar. O que não se adivinharia é que desta vez a qualidade misteriosa dos filmes do iraniano se acentua, por outro lado revelando, como no teatro, a estrutura que aqui abriga a narrativa: o thriller. Isso mesmo. Dentro das linhas do thriller, de essência hitchcockiana, Farhadi labora a complexidade psicológica que pretende levar ao extremo na última sequência de O Vendedor - um último ato também, afinal. Chegados a esse ponto absoluto, fica bastante claro o porquê de este argumento cinematográfico ter sido considerado o melhor em Cannes, na última edição do Festival..As tais primeiras imagens de O Vendedor remetem-nos para a analogia entre o teatro e a vida, que vai atravessar o filme de uma ponta à outra. A peça encenada é a Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, e a vida íntima que esta vai, por assim dizer, contaminar é a de Emad (Shahab Hosseini, igualmente agraciado em Cannes) e Rana (Taraneh Alidoosti), um casal ainda jovem que se vê obrigado a mudar de casa, numa altura em que almejava estabilidade para começar a pensar em ter filhos. Ajudados por um amigo da companhia teatral, rapidamente encontram uma solução temporária, mudando-se para um apartamento que ainda contém haveres da pessoa que antes o habitou. E não são só os objetos que ali marcam o território: há um passado recente dentro daquelas paredes que intimida a nova vivência recatada deste casal "da cultura", como lhes chamam os vizinhos..Num dia em que Rana, à espera do marido, abre a porta ao ouvir o primeiro toque da campainha, sem se certificar se é mesmo ele, é atacada no chuveiro da casa de banho... Quem entrou? O que aconteceu concretamente? Não, não é uma réplica da cena de Janet Leigh no chuveiro, em Psyco (1960). Na verdade, Farhadi oculta a circunstância violenta do nosso campo de visão, deixando-a insinuada na suspensão de uma porta aberta. Essas dúvidas que ressoam apoderam-se do espectador e de Emad, o marido, que se torna um autêntico detetive amador, entre as responsabilidades diárias como professor e ator. São dúvidas corrosivas, que imprimem um incontrolável desejo de vingança e mexem com os padrões de justiça do protagonista. Farhadi quer trabalhar os limites de tudo isto, num quadro que se descobre mais penoso do que era esperado..[youtube:_VcfinMasfw].Na justaposição da realidade daquele casal e das cenas da peça de Arthur Miller nasce uma harmonia narrativa fascinante, um jogo de espelhos que adensa os eventos. O teatro permite a Emad libertar as fúrias, dizer coisas que não estavam no texto. Por outro lado, na vida real, é contido na expressão dos sentimentos. No silêncio da sua mente, constrói um cenário que pede confirmação aos factos..Com O Vendedor, Asghar Farhadi corrobora a destreza que define o seu olhar sobre as angústias conjugais, dentro e fora das especificidades da cultura do seu país. Ao lado de Abbas Kiarostami, o inigualável cineasta falecido neste ano, e Jafar Panahi, Farhadi é um dos nomes que sustentam com vitalidade a cinematografia do Irão. Diante da sua câmara, os homens e as mulheres são corpos em gestação de autoconhecimento, palcos de tragédia íntima só acessíveis por uma fresta do pano vermelho.