Em defesa de um futebol justo e solidário

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Cristiano Ronaldo e Luís Figo são uma inspiração para muitos jovens, mas são também o exemplo de como é fundamental proteger os pequenos clubes e um modelo competitivo que seja um campo de oportunidades.

A magia do futebol é esta: num dia, podemos estar num clube humilde a jogar com ilustres desconhecidos como nós e, no outro, crescermos até estarmos nos grandes palcos internacionais.

Cristiano Ronaldo e Luís Figo fizeram esse percurso. Cristiano começou a jogar no Clube Futebol Andorinha, de Santo António, no Funchal, e Figo no União Futebol Clube Os Pastilhas, na Cova da Piedade. Os dois vieram de pequenas equipas locais para conquistarem os maiores troféus individuais e coletivos como a Liga dos Campeões.

Ronaldo e Figo tiveram a hipótese de sonhar alto e cumprirem os seus sonhos de infância graças ao investimento feito em pequenos clubes de base que alimentaram, durante a formação, o talento inato que indiscutivelmente já possuíam.

Este é um exemplo do modelo desportivo europeu em ação: uma estrutura piramidal, desde os clubes amadores até à elite, que tem como principais raízes as competições abertas e o princípio da redistribuição financeira.

Sob este modelo, gera-se um círculo virtuoso: o sucesso nas competições de clubes nacionais e consequente participação nas provas internacionais, cria apoios diretos para as academias e futebol de formação espalhadas por toda a Europa. Se não fossem muitos dos torneios de formação organizados e financiados por este modelo, nunca teríamos tido, como tivemos, a oportunidade de ver alguns dos maiores jogadores de sempre jogar futebol: também não teríamos, certamente, novas estrelas a construírem, passo a passo, o seu futuro.

Nos próximos dois anos, a UEFA vai organizar torneios de formação em países como o Chipre, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, Malta ou a Roménia. Todos os países da Europa, mais tarde ou mais cedo, terão, desta ou de outra forma, o seu momento de glória, com o público orgulhoso a aplaudir nas bancadas, enquanto o capitão levanta o troféu, enrolado na bandeira nacional. O modelo desportivo europeu cria estes momentos mágicos - memórias partilhadas por sucessivas gerações.

Como líder de uma federação nacional, vejo a proteção deste modelo de desporto europeu, que nos uniu durante décadas, como uma das mais importantes missões que temos à nossa frente. O nosso princípio fundador é o de que o futebol existe para servir o bem coletivo. E é o sucesso com base no mérito desportivo que reuniu, reúne e reunirá todos os portugueses e europeus à volta do amor comum pelo jogo.

Ainda assim, por todo o continente, estão a ser feitos esforços para minar estes princípios fundamentais que regem o futebol. A mudança e a inovação podem ser energias positivas e todos concordamos que temos de continuar a desenvolver o jogo. Todavia, essas mudanças só se poderão efetivar se respeitarem os princípios da meritocracia e da liberdade de todos poderem jogar futebol.

Se a mudança tiver motivações erradas, ela transforma-se numa ameaça ao que procuramos, em primeiro lugar, defender: um sistema que trouxe sucesso, equidade e sustentabilidade à família do futebol europeu.

Não podemos criar um sistema onde apenas uma mão-cheia de clubes poderosos, interessados apenas no seu próprio lucro, criem uma competição fechada que não tem por base o mérito desportivo e a solidariedade. Competições de modelo semifechado, como a anterior proposta da Super Liga, apenas aumentariam o fosso futebolístico entre os que têm meios e os que não têm.

O futebol europeu atingiu um equilíbrio delicado entre, por um lado, responsabilidade social e comunitária e, por outro, fontes e infraestruturas económicas. Este equilíbrio carece de constante vigilância e ajustamento. Estamos conscientes desta realidade e acreditamos que temos de manter um diálogo com os nossos parceiros, de forma a caminharmos no sentido certo.

Também sabemos do que o futebol europeu realmente não precisa: andar para trás, a reboque da pressão exercida por um pequeno grupo de clubes, sem motivações para além da pura ganância.

O Modelo Desportivo Europeu, uma ideia nobre incrustada no Tratado da União Europeia, é de difícil definição pela própria multitude de desportos e pelas diferentes camadas que abarca, desde os jogos regionais até aos eventos de grande renome internacional. Esta atividade está assim sujeita a uma constante regulação dos seus delicados mecanismos.

O seu maior adversário, pelo contrário, é muito mais fácil de nomear: alguns clubes, aditivados pelo dinheiro e por egos sobredimensionados, ameaçam destruir o sistema sob o qual, ironia das ironias, prosperaram. Têm de ser parados!

Para ganharmos esta batalha contamos com a ajuda de todos os que amam verdadeiramente o futebol.

Presidente da Federação Portuguesa de Futebol

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