Eleito de Portas criticado nos EUA

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O aparelho escolhido pelo ministro da Defesa português para equipar a Força Aérea como futuro avião militar de transporte estratégico - o C-130J da empresa norte-americana Lockheed Martin - padece de um rol de problemas sem solução à vista que impediram até agora a sua utilização pela Força Aérea dos Estados Unidos (United States Air Force - USAF) em missões operacionais.

Com efeito, um relatório do Gabinete do Inspector-Geral do Departamento de Defesa dos EUA (Office of the Inspector General of the Department of Defense - OIG DoD), de 23 de Julho de 2004, tece severas críticas ao programa, à Lockheed Martin e à própria USAF. A esta, nomeadamente, pelo modo como planeou e concretizou a aquisição dos aviões e como aceitou a sua entrega pela Lockheed, sem que um único dos 50 aparelhos até agora recebidos cumpra a maior parte das especificações operacionais contratadas [ver http//www.dodig.osd.mil/audit/reports/fy04/04102sum.htm e depois clicar em Report No. D-2004-102 (PDF), para o relatório completo].

A Força Aérea e a Marinha norte-americanas, bem como outros utilizadores do C-130J, efectuaram testes e respectivos relatórios sobre deficiências, classificadas em duas categorias, 1 e 2. A Categoria 1 inclui as que podem provocar morte, ferimentos ou doenças graves, perdas importantes de equipamento ou sistemas, ou ainda limitar directamente a prontidão de combate ou operacional. A Categoria 2 engloba todas as deficiências não classificadas na Categoria 1. Até 31 de Dezembro de 2003, o programa C-130J tinha dado origem a 851 relatórios sobre deficiências - 168 pertenciam à Categoria 1 e 683 à Categoria 2.

Apesar de mais de 99% do valor dos 50 aviões até agora entregues à USAF, Corpo de Marines e Guarda Costeira já ter sido pago, nenhum deles cumpre a maioria dos requisitos operacionais do contrato. Segundo o OIG DoD, os C-130J já recebidos apenas podem ser usados em missões de treino, obrigando a Força Aérea a despesas extraordinárias para manutenção e utilização dos modelos antigos dos C-130 nas missões operacionais. A USAF rejeita as críticas e afirma que os problemas serão solucionados, mas o OIG DoD lembra que, oito anos depois de produzido o primeiro C-130J, nem um só dos 50 até agora entregues consegue desempenhar a maior parte das missões para que foi adquirido.

Para avaliar as deficiências do C-130J foi elaborado um programa em duas fases. A Fase 1, em Setembro de 2000, estudou a vertente «missão de transporte aéreo» (air land mission). A Fase 2, destinada a analisar a capacidade para largar material ou pára-quedistas (air drop mission), estava igualmente prevista para 2000, mas foi adiada para Novembro de 2005 devido ao elevadíssimo número de deficiências encontradas na Fase 1. Esta fase detectou capacidade de carga e raio de acção inadequados, imaturidade do software, falta de sistema de planeamento de missão automatizado, dificuldades em operações com tempo frio, fraca capacidade integrada de diagnóstico (taxas elevadas de falsos alarmes de detectores incorporados). E ainda deficiências nos sistemas defensivos, na gestão global de tráfego aéreo, nos sistemas de planeamento de missão, na interoperacionalidade com a frota de C-130 antigos ainda em serviço, e também no treino, nas instruções das publicações de apoio e no sistema de manutenção em terra.

Com chuva forte ou granizo, as hélices do C-130J sofrem forte corrosão e têm por vezes de ser substituídas. Os C-130J para reconhecimento meteorológico não conseguiram levar a cabo nenhuma das missões experimentais de reconhecimento de furacões, tempestades tropicais e tempestades de Inverno para que foram destacados e as hélices ficaram danificadas em todas elas.

Nos EUA, o C-130J está autorizado a desempenhar apenas missões básicas simples. Está-lhe vedada a largada de pára-quedistas, contentores ou equipamento pesado (as suas principais missões), a utilização em operações que obriguem ao uso de óculos de visão nocturna, busca e salvamento em situação de combate, voo em formação à vista, gestão global de tráfego aéreo ou quaisquer missões em ambiente hostil.

Algumas unidades às quais foram entregues C-130J estão inoperacionais ou usam os modelos antigos (principalmente C-130E) nas missões que lhes estão atribuídas. Segundo o OIG DoD, estão nesta situação o 815.º Esquadrão Aéreo e o 53.º Esquadrão de Reconhecimento Meteorológico (Reserva da Força Aérea); os 135.º, 143.º e 146.º Esquadrões de Transporte Aéreo e a 193.ª Esquadrilha de Operações Especiais (Guarda Nacional Aérea); nos Marines, os C-130J de reabastecimento aéreo são usados apenas para treino, ficando as missões a sério a cargo dos modelos antigos.

O Ministério da Defesa português não respondeu às perguntas do DN sobre este assunto.

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