João Botelho. Cineasta há mais de 30 anos, agraciado com a comenda de mérito cultural da Ordem do Infante D. Henrique em 2005, João Botelho aguarda o lançamento do seu novo filme - 'A Corte do Norte' - e já trabalha no novo projecto 'O Filme do Desassossego', um regresso à obra de Fernando Pessoa.O novo filme de João Botelho, A Corte do Norte, baseado na obra de Agustina Bessa-Luiz, é um filme que fala sobretudo de mulheres, do seu poder e da sua grandeza. Mulheres através das épocas, numa elipse ao longo dos cem anos que abarcam a história de uma família da Madeira. "É a história ficcionada da vida de uma actriz Emília de Sousa (na realidade Emília das Neves, a maior actriz de teatro português do século XIX) - descoberta por Garrett num bordel de Lisboa, que não era bonita, mas que a autora tornou tão bela como a imperatriz Sissi, com quem acabou por se encontrar na Madeira", revela o cineasta, deixando no ar uma ponta do mistério da história na qual a actriz principal, Ana Moreira, encarna sete papéis, alguns simultâneos como o encontro da actriz com a imperatriz. .É através da imagem de um quadro, com a luz de Caravaggio, onde surge a figura de Judite - uma espécie de heroína que se ofereceu ao conquistador para salvar o povo, e que depois o mata cortando a sua cabeça - que João Botelho tece a magia dos planos do seu cinema, numa mutação de luz que vai fazer passar cem anos de um tempo de ficção. "É o meu primeiro filme em formato digital e a experiência foi surpreendente pois a técnica de filmar está mais perto da pintura do que do cinema", diz o cineasta explicando a acentuada presença da luz e a maior profundidade de campo..O realizador começou a experimentar há poucos anos o formato digital nas suas últimas curtas-metragens, como O estudo da luz na ria Formosa, Baleia Branca, uma ideia de Deus e A Terra antes do Céu, um documentário para assinalar as comemorações dos 100 anos do nascimento de Torga. "É um formato muito interessante, estou até a pensar em filmar 'ao alto', num enquadramento vertical! E não se gasta tanto na rodagem e na pós-produção. O custo dos materiais é muito menor que o dos filmes de 35 mm", conta o cineasta, que nunca se deixou abalar por questões orçamentais. ."Sou capaz de fazer um filme com uma fracção do orçamento dos filmes espanhóis ou americanos, por exemplo. O que é importante é fazer mais coisas mesmo com menos dinheiro, uma tendência que já se vê em toda uma nova geração de cineastas, especialmente na América Latina, no Brasil e na Argentina", afirma João Botelho..Mas da sua longa filmografia realizada ao longo de 30 anos - que lhe valeu inclusive o título de comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 2005, por mérito cultural -, João Botelho destaca vários trabalhos que foram e estão sendo realizados com pouco orçamento, como agora a curta-metragem sobre a fertilidade do Barroso, intitulado Para que este mundo não acabe, em que pretende retratar um mundo português entre o vale do Tâmega e o Gerês até à fronteira com a Espanha. "Sou muito ligado às origens portuguesas e só faço filmes sobre Portugal e sobre os tempos que correm, mesmo quando adapto romances como Os tempos difíceis, de Dickens, ou O Fatalista, de Diderot", afirma. .Os temas do panorama português percorrem em grande parte a sua filmografia e o cineasta cita obras como Aqui na Terra, de 1993 - "acho que se sabe mais sobre o cavaquismo neste filme do que na consulta dos jornais da época". "No filme Tráfico, de 1998, arrumei o estado do País todo como está agora - o tráfico de tudo, de influências, de dinheiro, de mulheres?", ressalta João Botelho, autor também do filme Um Adeus Português, de 1985, primeiro filme a abordar questões sobre a guerra colonial doze anos depois do acontecimento. "O filme foi feito todo em estúdio, interessava-me a memória da guerra e o luto português", recorda ele. .E a memória é algo de poderoso no seu trabalho de cineasta que surgiu com o 25 de Abril, quando veio para Lisboa para estudar na Escola de Cinema depois de ter passado dois anos em Coimbra na Faculdade de Ciências e outros tantos no Porto na Faculdade de Engenharia Mecânica. "Eu já era um cinéfilo, tinha o cinema como refúgio todos os dias para escapar às praxes de Coimbra e quando andei pela Europa, a trabalhar e com pouco dinheiro, chegava a assistir a seis filmes por dia em Paris, por exemplo." Relembra que com a Revolução de 74 agitou os corredores da Escola de Cinema em Lisboa trazendo professores estrangeiros, como Jacques Aumont, para seminários especiais sobre montagem, enquanto também organizava a exibição de filmes clássicos nas fábricas e quartéis.."O 25 de Abril trouxe o ano mais feliz da minha vida e ninguém mo tira", declara, lembrando que as pessoas naquela altura tinham posições, tomavam partido: dialéctica e conflito. "As grandes referências da época eram Godard e Straub. Mas, hoje, gosto de quinhentos cineastas", diz, afirmando que o seu modo de filmar se alia a estas filiações da juventude. ."Acho que o cinema é um lugar de prazer mas também de interrogações, não deve ser só um passatempo ou um entretenimento como nos querem impingir hoje em dia - quando as salas de cinema estão lotadas com um público infanto--juvenil ávido de imagens e sons que desfilam em catadupla sem tempo para ouvir ou para ver, um triunfo dos efeitos", reclama o cineasta, dizendo que hoje reina no mundo um misto de arrogância e ignorância. "O desastre português dos últimos 30 anos é a educação. Desapareceu o pensamento, desapareceu a pergunta 'porquê?', e há uma incapacidade de pensamento abstracto", aponta, lembrando que o cinema também é memória. ."Há uma uniformização do mundo para os miúdos. São necessárias mudanças que criem novas ideias.", conclui o cineasta, que diz ter tido sorte de poder acompanhar o desenvolvimento da história recente de Portugal e que tem mais uma ideia de um filme na cabeça - A Poeira do Império -, que idealmente seria filmado no Centro Comercial do Martim Moniz, se fosse possível.|