Quando Eduardo Coelho fundou em Lisboa o Diário de Notícias, a 29 de dezembro de 1864, tinha plena consciência de que estava a lançar o primeiro jornal moderno português, ou seja, informação de qualidade, dirigida à sociedade em geral e a baixo preço (graças aos pequenos anúncios), afinal aquilo que prometia o editorial do primeiro número: "Interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências.".Dificilmente, porém, o tipógrafo nascido em Coimbra, e então com 29 anos, terá imaginado o quanto se tornaria instituição nacional o jornal por si fundado e para o qual contratou como repórter um amigo, chamado Eça de Queiroz. Quando muito, terá ficado orgulhoso de o grande romancista francês Victor Hugo ter logo em 1867 escolhido o diário sediado na rua dos Calafates (hoje rua do Diário de Notícias) para publicar as suas duas cartas de elogio a Portugal pelo pioneirismo a abolir a pena de morte: "Fostes em outros tempos dos primeiros no oceano e sois hoje dos primeiros na verdade. Proclamar princípios é ainda mais belo do que descobrir mundos!".Não faltam por Lisboa provas da importância do legado de Eduardo Coelho, desde o seu busto nesse Bairro Alto onde nasceu o DN até ao magnífico edifício-sede na avenida da Liberdade, que entre 1940 e 2016 foi a casa deste diário, entretanto reinstalado nas Torres de Lisboa. Mas a maior prova de todas é a existência do próprio jornal depois de duas passagens de século e de três mudanças de regime. O DN que tem hoje na sua mão, ou que está a ler na edição digital, tem o número 56.123, cinco dígitos que correspondem a 158 anos de publicação, a assinalar dia 29..Ontem, as celebrações deste aniversário iniciaram-se com uma tertúlia e a inauguração de uma exposição no Museu da Marinha. A tertúlia teve como convidado o banqueiro Horta Osório, que falou sobre os desafios para Portugal, a Europa e o mundo que chegam em 2023, com a pandemia já em boa parte resolvida, mas o impacto da invasão da Ucrânia pela Rússia longe de estar concluído. Já a exposição, que pode ser visitada até 28 de fevereiro, relembra o que tem sido o último século e meio através de material do arquivo do jornal, que é considerado Tesouro Nacional..Portanto, falou-se de futuro e de passado no Museu de Marinha. E já que se trata de valorizar o simbólico, que sítio mais apropriado para esta celebração da instituição Diário de Notícias do que um dos mais fascinantes museus do país, ligado à Marinha portuguesa, outra instituição, e ainda mais antiga (e muito) do que o jornal, pois foi fundada em 1317, por um D. Dinis que podia ter ficado para a história como o Inovador, pelo muito que fez pelo país, da língua às fronteiras, passando pelas leis..Inovador é uma palavra que se aplica também a Eduardo Coelho. E ontem Horta Osório realçou bastante, na tertúlia conduzida pela diretora, Rosália Amorim, a importância da inovação se Portugal quiser ambicionar crescer economicamente mais do que 1% ao ano. Não faltam ocasiões em que é no passado que se vai buscar inspiração para o futuro. O nosso fundador continua a inspirar-nos e os parabéns que se ouviram ao DN, num Pavilhão das Galeotas repleto, foram muito para ele..Diretor adjunto do Diário de Notícias