Edite Fernandes: "O principal sacrifício que fiz para ser profissional foi adiar ser mãe"

A melhor marcadora da história da seleção nacional (39 golos) renunciou à equipa das quinas a meses de Portugal jogar o Euro 2017. Aos 37 anos, Edite Fernandes representa atualmente o Sporting de Braga.
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Como está a ser a experiência no Sporting de Braga?

Está a ser muito boa, estamos em segundo lugar no campeonato e temos menos um jogo. As coisas correm bem. As condições são boas, a estrutura é profissional... Aos 37 anos acho que posso contribuir bastante, pela experiência que adquiri ao longo dos anos e penso que ainda tenho qualidade para ajudar (risos).

Porque escolheu o Sp. Braga? Calculo que houvesse outras propostas?

Mais ou menos... Na altura, quando surgiu o convite do Sp. Braga eu estava a preparar-me para ir para Lisboa porque estava a colaborar com o Sindicato de Jogadores. A minha ideia era dar seguimento a esse trabalho e se surgisse alguma coisa tudo bem. Por isso quando surgiu o convite do Sp. Braga foi uma surpresa... quer dizer, sabia que o convite podia surgir porque os rumores existiam. E quando surgiu não tive coragem de dizer que não. Foi ótimo.

O que ainda precisa o futebol feminino para pegar de estaca em Portugal?

Eu espero que esta liga e a aposta e investimento da Federação tenha sido para ficar. Seria mau de mais se chegássemos à próxima época e fosse tudo por água abaixo. Há que dar continuidade ao esforço e é preciso mais equipas. Não é que não haja credibilidade e seriedade no campeonato, porque há, mesmo sendo amador. Mas era preciso os outros grandes (FC Porto e Benfica) para ser mais atrativo e ter maior promoção.

A profissionalização chegou demasiado tarde para a Edite? Como seria se tivesse agora 20 anos?

Ui... Se eu tivesse 20 anos achava isto fantástico. Hoje, dentro das dificuldades, os clubes vão dando condições para jogarmos tranquilas, mas seria fantástico que eu tivesse 20 anos, porque na altura em que eu tinha essa idade sofri um bocadinho, jogava por amor à camisola e paixão pelo futebol...

E por uma sandes e um sumo depois do jogo...

Era capaz de jogar a vida toda por uma sandes e um sumo. Era feliz nessa altura... Mas também sou feliz agora. Foi preciso andar mais de 20 anos de carreira para poder estar num grande clube, como é o Sp. Braga, e poder apenas jogar futebol e não preocupar-me em ter um trabalho extra para viver. Nesta altura poder jogar em Portugal e viver do futebol é uma alegria imensa.

Quanto ganha em média uma jogadora em Portugal?

Depende. Há jogadoras que ganham o ordenado mínimo, outras que ganham mais, outras que têm ajudas de custo e outras que quase pagam para jogar.

Fez sacrifícios pelo futebol? Valeram a pena?

Ter 17 anos, sair das aulas às 18.00, ir para Vila do Conde, ter de apanhar o transporte para o Porto, sozinha, para treinar no Boavista... Depois fazia o percurso inverso. Vinha no último comboio depois das 23.00 e chegava a casa já depois da meia-noite. E as condições que encontrava em muitos sítios eram muito precárias. Depois fui para fora, para a China, fiquei longe da família e tive de viver com as saudades. Mas, pronto, foi tudo ultrapassável. Os meus pais conheceram-se num jogo, por isso só podia ser jogadora (risos).

E a nível pessoal? Como mulher...

As relações afetivas também sofrem, são mais complicadas e tudo depende do tipo de homem que tens ao lado. Depois a parte de ser mãe, sempre a adiar, adiar... Eu tenho 37 anos e ainda tenho esperança de ser mãe. Esse é o principal sacrifício para viver o sonho de ser profissional.

Os namorados aceitavam bem a Edite jogadora?

Por vezes (risos). Uma vez, quando era nova, havia um miúdo interessado, e quando soube que eu jogava futebol começou "ah, futebol e tal, na vida temos de fazer escolhas..." E eu disse, pois, mas eu escolho o futebol e está a andar!

É verdade que os contratos no futebol feminino têm cláusulas que proíbem as jogadoras de engravidar?

Eu já tive uma ou duas colegas que engravidaram e deixaram de jogar, mas na altura não existiam os contratos profissionais e semiprofissionais que há hoje. Essa cláusula existe em alguns clubes, mas, na minha opinião, nem era preciso, nós jogadoras fazemos uma escolha e sabemos que não podemos engravidar se queremos ser profissionais. Isso já é sinal da profissionalização...

Começou a jogar na rua...

Era a rainha lá da rua. Chamavam-me maria-rapaz, mas eu não ligava, eu queria era jogar. E os rapazes até gostavam de mim, eles é que me chamavam para jogar, queriam-me sempre na equipa deles. Era a primeira a ser escolhida ou era eu a escolher (risos).

E como passou da rua para um campo de futebol?

Jogava na rua e nos campeonatos inter-freguesias, mas depois os meus tios levaram-me ao Boavista e fiquei logo, perceberam que eu tinha talento (risos).

Disse adeus à seleção. Porquê agora? Era a capitã da seleção que vai jogar o Euro 2017...

Era a capitã... Agora já não vou. Tinha de ser. Foi o melhor momento, foi ponderado. Faço a qualificação toda, depois veio o play-off, que era o jogo mais importante, os jogos em que eu gostaria de ter estado, mas não fui convocada por opção. Comecei a perceber que se calhar ia ser complicado ir ao Europeu. Isso fez-me pensar, há talento e boas jogadoras para fazer o meu lugar. Sempre fui uma defensora e adepta da seleção e fiz o que achei melhor...

Foi uma forma de antecipar a decisão do selecionador, então?

Não sei, não posso falar por ele...

Foi difícil tomar essa decisão?

Andei muito tempo a matutar nela. Queria sair bem. Tive muita gente a dizer para esperar pela lista, que ainda tinha meia época, mas eu decidi que não ia ficar à espera de uma convocatória, percebendo claramente que se calhar já não iria ser opção. E antes que saísse a primeira convocatória tomei a decisão e informei a Federação. O que é certo é que estive mais de 20 anos à espera deste momento. Sempre sonhei com Portugal numa fase final de um Europeu ou de um Mundial. Agora não vou. Paciência, é a vida...

Mas esteve no apuramento...

Sim. E vivi-o intensamente. Quando saiu a Roménia no play-off percebi que estava ao nosso alcance conquistar um lugar no Europeu. Já não joguei o play--off , mas, como capitã e colega, contribuí e ajudei no apuramento, fui aliás a segunda melhor marcadora da qualificação. E mesmo não estando no play--off festejei emocionada a qualificação. Agora digo-lhes que desfrutem o momento ao máximo, vivam o sonho e trabalhem para ter o melhor desempenho possível.

Tivemos a geração da Carla Couto e a da Edite. E agora quem é a sua herdeira na seleção?

Talvez a Cláudia Neto, pela qualidade que tem e pela pessoa e boa colega que é. Tem tudo para ser a geração dela.

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