A dona Maria Celeste, de 51 anos, nasceu e sempre viveu no sítio da Fábrica, um lugarejo com meia dúzia de habitações, situado em pleno Parque Natural da Ria Formosa, a cerca de um quilómetro de Cacela Velha. Conhece, por isso, como a "palma das suas mãos", o restaurante Costa, localizado mesmo em frente à sua casa, recordando com nostalgia os tempos em que o estabelecimento não era mais do que uma barraca, "uma tasquinha onde o senhor Costa, o dono, fazia uns petiscos para o pessoal da zona"..O senhor António Costa, já falecido, dedicou parte da sua vida a tratar dos viveiros de amêijoas e ostras que sempre foram a grande fonte de sobrevivência das gentes de Cacela, onde termina a ria. A actividade era acumulada, tal como acontecia com todos os homens locais, com a pequena pesca. Nessa altura, lembra a dona Celeste, havia mais pescadores. Hoje, são escassos os cacelenses que se dedicam à faina. "Três ou quatro, no sítio da Fábrica, porque a ria já não dá aquilo que dava", lamenta a senhora..No princípio dos anos 70, António Costa, empurrado pelas necessidades dos seus companheiros de pesca e mariscagem, resolveu instalar uma pequena barraca de madeira no areal, onde os barcos acostavam. "Para vender bebidas, sobretudo cerveja, que no Verão o calor apertava e era preciso aliviar as goelas", conta o filho, Túlio Costa, de 48 anos, hoje gerente do restaurante. "E como a bebida puxava a comida e vice-versa", o viveirista passou a fazer uns petiscos com aquilo que ele e os seus colegas apanhavam - conquilhas, amêijoas, berbigões, choquinhos fritos. Na época, a electricidade não tinha chegado à aldeia, pelo que os pratos eram confeccionados num "fogãozito a gás"..Até que o turismo, logo após o 25 de Abril, descobriu a Fábrica, nome originado pela existência de uma unidade industrial de cerâmica que deixou de laborar no século XIX. "O acesso era em terra batida, mas eles (os turistas), acabaram por descobrir o sítio e depressa começaram a cobiçar os petiscos que o meu pai fazia na barraca plantada no areal", lembra Túlio Costa..Face às exigência de uma nova clientela que despontava, António Costa decidiu alargar a barraca, criando melhores condições para servir os forasteiros, ávidos dos produtos da ria que saltavam directamente das águas para os pratos. Foram colocados toldos, para fazer sombra, mesas e cadeiras. À noite, a tasca era iluminada por candeeiros a petróleo e as bebidas e o pescado mantidos frescos em grandes bidões de gelo, que o senhor Costa todos os dias ia comprar à fábrica de Vila Real de Santo António, na sua motorizada..Em 1980, foi criado o Parque Natural da Ria Formosa e logo depois construído um parque de estacionamento ordenado e arborizado, para apoiar os banhistas que, nessa altura, já faziam a travessia da ria, em barcos particulares, para a praia. 1983 foi o ano da grande mudança do restaurante. A velha barraca de madeira, de cariz familiar, deu lugar a um edifício de traça algarvia, com uma ampla esplanada com vista sobre a ria. A ementa sofisticou-se, passando a integrar "pratos finos", como o arroz de lingueirão ou marisco e o ensopado de enguias, mas os petiscos que o senhor Costa fazia, mantêm-se. São, aliás, a imagem de marca do restaurante. Quem vai ao Costa, não pode deixar de iniciar o repasto com as conquilhas, ostras, amêijoas ou berbigão que os velhos pescadores comiam para amenizar um dia de trabalho.