Um país sujeito a sanções há décadas e isolado internacionalmente desenvolve um ambicioso programa nuclear militar. É possível? Sim. A Coreia do Norte recorre a um complexo esquema de intermediários e de empresas de fachada para obter divisas, ouro, armas e materiais para o seu programa nuclear.."A República Democrática Popular da Coreia do Norte [designação oficial do regime] tem ridicularizado as sanções comercializando bens abrangidos por estas, com recurso a técnicas cada vez mais sofisticadas", lê-se num relatório de um painel da ONU que vigia a aplicação do disposto na Resolução 1718 do Conselho de Segurança. A resolução, que impõe sanções nas áreas económicas e comerciais, foi adotada por unanimidade em outubro de 2006, após Pyongyang ter anunciado o primeiro ensaio nuclear..O documento, não divulgado mas cujo conteúdo foi visto pela CBS News e pelo The Straits Times, revela que a Coreia do Norte está a acelerar a construção de novas instalações no complexo de Punggye-ri..O regime de Pyongyang procura obter bens de diferente natureza e os mais diversos materiais e componentes eletrónicos, tecnológicos e industriais negociando com Estados e empresas em África, no Médio Oriente e na Ásia. Nesta parte do mundo, a Malásia - onde a 13 de fevereiro foi assassinado Kim Jong--nam, meio-irmão do atual líder do regime, Kim Jong-un - tem funcionado como um importante entreposto, onde empresas e particulares de diferentes países realizam contactos e negócios com empresas de fachada, na realidade extensões de diferentes ministérios e agências da Coreia do Norte. A morte de Kim Jong-nam e o evidente envolvimento de elementos norte-coreanos pode comprometer o papel involuntário da Malásia como plataforma para Pyongyang contornar as sanções. Mas Kim Jong-un - que parece inspirar-se cada vez mais no exemplo do avô e fundador do regime, Kim Il-sung, na forma como dirige o país - tem outros aliados..No documento da ONU, Moscovo e Pequim são mencionadas como cidades onde norte-coreanos estão ativos em contactos e negócios com nacionais chineses e russos, além de outras nacionalidades. Com resultados práticos: a recuperação de destroços do míssil lançado em fevereiro de 2016 permitiram estabelecer que este se encontrava equipado com tecnologia estrangeira, disponível comercialmente..Pyongyang tem aumentado as vendas de equipamento militar a países como o Sudão e a Namíbia, onde construiu recentemente uma fábrica de munições. Este país da África Austral torna-se assim, num continente de conflitualidade recorrente, uma plataforma para a venda de armas de baixa tecnologia para que não faltarão clientes a pagarem em moeda forte. Pyongyang exporta ainda minerais e trabalho escravo. Este último tem rendido o equivalente a mais de mil milhões de euros por ano, segundo um relatório da ONU, de 2015..Aliado de longa data.Uma descoberta no final de 2016 veio recordar a longa cumplicidade entre Pyongyang e Teerão, que data da época da fundação da República Islâmica do Irão. Imagens de satélite mostram um silo de mísseis em Geumchang-ri, Noroeste da Coreia do Norte, com características quase idênticas ao situado em Tabriz, no Irão..No início de 2016, um antigo responsável do U.S. Army War College, major-general Robert Scales, declarava à Fox News que técnicos iranianos estiveram presentes no teste nuclear de 2013 e "estão a ajudar os norte-coreanos a miniaturizar as suas ogivas nucleares". Um fator essencial para o avanço do programa de Pyongyang, considerou o oficial americano..A cooperação iniciou-se durante a guerra Irão-Iraque (1980-1988) quando Teerão se encontrava isolado internacionalmente, tendo Pyongyang vendido diverso equipamento militar. E tem como ponto alto o acordo científico e tecnológico de 2012, com diferentes analistas a considerarem que no centro deste está o trabalho de desenvolvimento em comum dos "programas nuclear e de mísseis balísticos", escrevia Ilan Berman no National Interest, em agosto de 2015..Em agosto de 2014, um relatório do centro de investigação em segurança informática da HP notava que, na guerra no ciberespaço, Pyongyang tem cinco "potenciais aliados": China, Cuba, Irão, Rússia e Síria, e que o terceiro país em questão estaria a colaborar ativamente com a Coreia do Norte na matéria. No que respeita à Síria, a central nuclear neste país destruída por Israel, num ataque aéreo em 2007, era tecnologia norte-coreana..A relação apresenta ainda vantagens noutros planos, como a troca de petróleo de Teerão por armas e munições de Pyongyang, a serem canalizadas para a Síria ou para o Hezbollah libanês e para o Hamas. Além de que a dimensão do mercado iraniano (80 milhões de habitantes) é um destino apetecível para a produção norte-coreana, com escassas opções devido às sanções..Outro aliado relevante é o Paquistão, país com que Pyongyang mantém relações diplomáticas desde os anos 70. Além da vertente comercial, foi do "pai" do nuclear paquistanês, Abdul Qadeer Khan, que a Coreia do Norte obteve informação importante para desenvolver o processo de enriquecimento de urânio.