Diretor do Centro Norte-Sul lamenta falta de liderança na crise dos refugiados

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O diretor executivo do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, o português António Gamito, considerou hoje que "há falta de liderança e de vontade política" para responder à crise dos refugiados que procuram países europeus.

"Há dinheiro. Há é falta de liderança e de vontade política" para resolver o problema, sobretudo por parte da União Europeia, que tem um peso mais executivo, disse à Lusa o responsável do organismo do Conselho da Europa, a propósito da realização do Fórum Lisboa 2017, nas próximas quinta e sexta-feira.

Gerir as migrações é um dos temas em debate no Fórum Lisboa, um encontro anual que reúne em Portugal responsáveis políticos e representantes de organizações de vários países do Centro Norte-Sul.

A edição deste ano tem como tema "Interligando as Pessoas" e pretende discutir, em quatro painéis, a crise das migrações, como evitar o populismo, a construção de sociedades inclusivas e o reforço do diálogo entre o Norte e o Sul.

"A ideia do Centro Norte-Sul foi, com base naquilo que é o ser humano, tratar quatro temas interligados, tendo presente sempre o bem-estar e o futuro do ser humano e a sua interdependência" num mundo global, disse à Lusa o diretor executivo.

Sobre as migrações, António Gamito defende que a Europa precisa de acolher migrantes, até do ponto de vista demográfico.

"Há uns que defendem que precisamos de uma migração loira de olhos azuis, outros defendem precisamente o contrário. Se olharmos para a história, vemos que os movimentos migratórios na Europa têm vindo de vários lados, em várias épocas, e isto é mais um momento", comentou.

Para o diplomata, "ostracizar e maltratar migrantes, em particular refugiados que fogem de guerra e de perseguição, é absolutamente hediondo".

António Gamito assinalou as discrepâncias de posições de países europeus na resposta à crise dos refugiados.

"A Alemanha recebeu um milhão de refugiados. Não entrou um único na Dinamarca, na Polónia, na Hungria. Como é que aquela repartição que o Conselho Europeu fez pode ser executada, se uns recebem, como Portugal e outros países, e outros se recusam terminantemente?", questionou, defendendo que é preciso haver "vontade política" e "convencer as sociedades de acolhimento" dos benefícios de acolher os migrantes.

Mas, alertou, este é "um trabalho muto complicado, muito difícil".

"Os europeus têm de se pôr de acordo em como tratar e lidar com esta matéria. A Europa já devia estar num estado de desenvolvimento bem mais avançado, mas não está", considerou.

Os nacionalismos, acrescentou, "foram exacerbados pela economia, com uma clara divisão entre o norte e o sul, e agora pela emigração, em que é clara a discussão entre norte e sul e entre leste e oeste".

"A União Europeia e o Conselho da Europa são organizações que têm meios, mecanismos e soluções para este tipo de problemas. Como são organizações, uma supranacional e outra intergovernamental, chocam com a vontade dos Estados", referiu, avisando que os países devem "aceitar as decisões que são tomadas", sob pena de permanecerem "problemas enormes, com refugiados com condições inacreditáveis".

O Centro Norte-Sul, salientou, tem a "mais-valia" de representar os países do sul do Mediterrâneo junto da Europa, além de "trabalhar com a sociedade civil para dar cumprimento às decisões".

O Fórum Lisboa decorre, como habitualmente, no Centro Ismaili e terá, na sessão de abertura, na quinta-feira, a participação da secretária-geral adjunta do Conselho da Europa, Gabriella Battaini-Dragoni, e do ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva.

O encerramento, na sexta-feira, será presidido pelo presidente do comité executivo do Centro Norte-Sul, Jean-Marie Heydt, e pelo ministro-adjunto do primeiro-ministro, Eduardo Cabrita.

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