Diferença tunisina

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Todos os países do Norte de África têm um vasto passado pré-islâmico, sendo isso sobretudo visível no Egito, com as Pirâmides de Gizé a relembrarem imponentes a grande civilização que existiu nas margens do Nilo muito antes de o Império Romano ter chegado a dominar todo o Mediterrâneo, deixando também ele impressionantes vestígios arqueológicos como as ruínas das cidades de Volubilis (em Marrocos), Djemila e Timgad (na Argélia), Dougga (na Tunísia) ou Leptis Magna (na Líbia).

Mas nenhum como a Tunísia terá incorporado tanto as múltiplas influências na sua identidade nacional, a começar pela dessa Cartago fundada por fenícios há quase três mil anos e que a partir da região onde hoje fica Tunis rivalizou com os romanos durante séculos. A posição central no Mediterrâneo talvez explique porque este país de raízes berberes, como todo o Magrebe, foi atraindo as atenções (e assimilando influências em vários graus) de cartagineses, judeus, romanos, bizantinos, árabes, espanhóis e italianos, turcos e por fim franceses, os últimos dos colonizadores, que partiram em 1956.

Habib Burguiba, o primeiro presidente, foi um líder visionário. Consciente de que o seu país não tinha as riquezas petrolíferas das vizinhas Argélia e Líbia, promoveu o principal recurso tunisino: a sua população. Já havia uma tradição de educação na era do Protetorado Francês (dizia-se que no momento da independência a Tunísia tinha mais licenciados do que Marrocos e Argélia juntos), mas Burguiba foi mais longe e sobretudo emancipou as mulheres como nenhum outro líder da região ousou fazer. A economia diversificou-se e a tradição liberal da população atraiu o turismo, importante para o PIB. Praias, deserto, souks e monumentos de diversas épocas juntam-se para criar um apelo à visita que nunca desapareceu apesar da instabilidade política dos últimos 12 anos, quando a Primavera Árabe, que começou na Tunísia, afastou o ditador Ben Ali e trouxe a esperança da democracia.

Pela história, pelo legado de Burguiba, pela vitalidade da sociedade civil, escrevi aqui no DN há mais de uma década que a pequena Tunísia (12 milhões de habitantes) era o único dos quatro países árabes que derrubaram líderes em 2011 a ter sérias possibilidades de construir uma verdadeira democracia. Tinha as condições que faltavam, como se viu depois, à Líbia, ao Egito e ao Iémen. Mas ter possibilidades de construir, ter bases para tal, não garante por si só a democracia, e o terrorismo ocasional e a constante crise económica abalaram muito as dinâmicas do processo político tunisino.

Ontem, realizou-se a primeira volta de umas eleições legislativas que, como titulou o Le Monde, "não trazem nem debate nem paixão". A nova Constituição, aprovada num referendo pouco participado, reforçou os poderes presidenciais e, para contrariar o presidente Kaïs Saïed, muitos partidos boicotaram esta ida às urnas, entre eles os islamitas do Ennahda, a maior força política nesta era pós-Ben Ali. Haverá ainda uma segunda volta, pois o sistema eleitoral passou a escolher deputados em círculos uninominais e já não através de listas partidárias. Que uma organização sindical como a UGTT, tão importante no derrube da ditadura, conteste agora também o presidente é sinal de que o medir de forças na política tunisina está ainda longe de decidido.

Espero que a democracia avance na Tunísia, pois tudo no país historicamente (apesar do contexto regional não ser o mais favorável) aponta nesse sentido, até mesmo a unidade da população, sem significativas divisões religiosas, étnicas ou linguísticas. E pessoalmente só posso dar um testemunho positivo depois de há um mês ter voltado a visitá-la após longa ausência: muitos tunisinos conversaram comigo sobre política, criticando o presidente ou o Ennahda, ou apoiando Kaïs Saïed ou os seus opositores, mas sem baixarem o tom de voz ou olhar por cima do ombro para ver se alguém estava a ouvir. É raro na região.

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