Descontentes com a profissão, com a falta de perspetivas na carreira e deixando um conselho aos mais novos: não escolham ser educadores ou professores..O desencanto com o estado da Educação em Portugal por parte dos docentes dos ensinos Básico e Secundário está bem expressa nos resultados da Consulta Nacional online a docentes dos Ensinos Básico e Secundário, que a Federação Nacional da Educação (FNE) promoveu para recolher a opinião de educadores e professores portugueses em relação às suas perspetivas sobre a carreira, o reconhecimento profissional e as condições de início do novo ano letivo. A consulta terminou na passada sexta-feira e o DN teve acesso às principais conclusões do inquérito..O estudo demonstra serem muitas as preocupações dos 2138 docentes inquiridos pela FNE. Os primeiros resultados apontam um forte descontentamento dos docentes nas mais variadas questões. Uma insatisfação que se traduz na falta de expectativas de carreira. Cerca de 95% dos professores afirmam que esta é pouco ou nada atrativa. As respostas revelam um grande descontentamento em relação à remuneração, com 97,1% dos docentes a afirmar que o seu vencimento não está ao nível das qualificações que são exigidas para o exercício profissional. Um número mais elevado em relação ao inquérito do ano passado (96,7%). A comparação com os dados recolhidos em igual período de 2022, continua a ser muito expressivo o número de educadores e professores que não aconselharia um jovem a ser professor, com 84,1% a não recomendar a profissão..Segundo dados da FNE, os educadores e professores portugueses consideram não haver reconhecimento social pela profissão docente, com 82,9% a considerarem que é negativo. Os professores deixam ainda um cartão vermelho ao Ministério da Educação (ME), reprovando as políticas do governo, sendo muito críticos em relação às opções do atual governo em matéria educativa. Cerca de 92% afirmam serem insuficientes ou muito insuficientes..O balanço do arranque do ano letivo mereceu também nota negativa, sendo uma das principais queixas laborais a excessiva carga burocrática e de trabalho administrativo, com 63% dos docentes a classificar negativamente as medidas anunciadas pelo ME para a desburocratização da atividade docente. A grande maioria dos professores (77,6%) afirma ainda que as idas aprovadas pela tutela não foram adotadas nas escolas onde lecionam, não tendo sido diminuída a carga burocrática do trabalho que são chamados a realizar. Os professores (65,9%) dizem também serem chamados a realizar tarefas que não são necessárias. O ano passado, "apenas" 48,9% fizeram esta constatação..Já sobre outras questões como, por exemplo, a concordância com a utilização dos telemóveis pelos alunos na sala de aula nas disciplinas que leciona, 67,9% concorda e 32,1% discorda..A FNE vai divulgar o relatório completo da Consulta Nacional online a docentes dos Ensinos Básico e Secundário no decorrer desta semana..A FENPROF (Federação Nacional de Professores) vai aderir à greve nacional da próxima sexta-feira, 27 de outubro, e admite avançar para novas formas de luta juntamente com outras estruturas sindicais, como um novo ciclo de greves por distritos. Segundo o Secretário-geral da FENPROF, Mário Nogueira, são muitos os motivos que deverão levar os professores a aderir à greve convocada pela Frente Comum de Sindicatos da Administração Pública. "Os Professores, os Educadores e os Investigadores exigem o adequado investimento nos serviços públicos e a valorização e melhoria das condições de trabalho dos seus trabalhadores e profissionais. A proposta de Orçamento de Estado para 2024 não responde a esta exigência, continuando com a política de desresponsabilização do Estado e de degradação das condições de vida e de trabalho dos trabalhadores da Administração Pública. Para a Educação e para os docentes, bem como para a Ciência e os Investigadores continua a ser uma proposta que ignora os problemas, mantendo o reprovável rumo de desvalorização e adiando o investimento necessário na Educação, na Escola Pública e na Investigação Científica", pode ler-se no pré-aviso de greve enviado à Tutela..A federação sindical espera grande adesão à greve e há, por isso, o risco de encerramento de muitas escolas de Norte a Sul do país..O Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (S.T.O.P) tem já agendada uma manifestação nacional para 18 de novembro. Descontente com a proposta de Orçamento de Estado para 2024, o sindicato vai pedir, nas ruas de Lisboa, mais investimento na escola pública e a melhoria das condições de trabalho dos docentes e não docentes. Se não houver cedências por parte do ME, o líder do S.T.O.P, André Pestana, já admitiu partir para novas greves..dnot@dn.pt