António Costa, primeiro-ministro de Portugal, viajou nesta semana até Marrocos numa companhia de baixo custo ou low cost. A TAP tem ligação para Marraquexe, mas as datas não batiam certo, o voo era relativamente curto e o grupo demasiado pequeno para justificar os 12 lugares do Falcon da Força Aérea. Essa é a explicação oficial para que a comitiva do governo português à cimeira COP22 tenha voado em low cost..Sei que isto parece perfeitamente aceitável ou que dará mesmo algum prazer a boa parte dos portugueses. Imaginar António Costa tentando arrumar-se para umas horas de voo num banco apertado ao lado de turistas de mochila às costas. Lamento, mas não alinho nessa maioria. Quero o primeiro-ministro, este e os que vierem, confortáveis a caminho do que quer que tenham de fazer fora de portas. E não, não se trata de passeio, é trabalho em nome do Estado Português..Existem duas opções mais racionais e sobretudo mais dignas para uma viagem deste tipo, ambas da Força Aérea Portuguesa - o Falcon 50 e o maior C295. É revelador do estado a que chegámos que esses meios não sejam utilizados por membros do governo em deslocações oficiais, andando depois os pilotos da FAP a fazer horas com os aviões vazios, só para manter as certificações. E estamos mesmo a anos-luz de 2006, quando Jorge Sampaio deixou na Presidência, no fim do segundo mandato, um estudo para a compra de dois aviões de passageiros para o Estado Português. Sim, os dois Falcon 50 já estavam muito velhos na altura..Passos Coelho deu um passo moralista sem retorno, quando decidiu que ele e os membros do governo dele passariam a viajar em classe económica. Agora, António Costa alimenta e cede ao populismo. É o problema com este tipo de decisões. Quando se quebra perante uma pressão populista, umas quantas manchetes sensacionalistas, raramente se consegue voltar atrás..Tenho sérias dúvidas de que o atual primeiro-ministro acredite na medida, mas em São Bento argumenta-se que "é impossível fazer de outra maneira", que a culpa é dos jornalistas e do anterior governo. Seja. Os tempos pediam outro tipo de atitude. A democracia não pode ser low cost, tem custos, e não podemos correr o risco de um dia destes eleger alguém que, de tão poupado e asceta, ache um desperdício fazer eleições.