Defesa e território

Publicado a
Atualizado a

Na sua clássica e póstuma obra, Da Guerra (1832), Carl von Clausewitz estabelece uma importante diferença categorial: na condução dos assuntos de defesa nacional deve prevalecer a lógica da política, até porque "a guerra nada mais é senão a continuação das relações políticas com o complemento de outros meios". Contudo, se a lógica política predomina estrategicamente, no plano operacional e técnico existe uma gramática militar. E escreve Clausewitz, numa proximidade assombrosa com o caso de Tancos: "Não se colocam sentinelas (Vedetten) e não se manda patrulhar por motivos políticos." Com esta referência a um grande mestre pretendo apenas salientar que o caso Tancos, tal como o caso Pedrógão Grande, são sinais profundos de alarme sobre problemas cuja compreensão e resolução não se esgotará com nenhuma comissão de inquérito. Nos dois casos, houve um falhanço operacional que surpreende pelo seu carácter grosseiro. O governo e os ministros envolvidos ficaram sem dúvida fragilizados, mas a eventual saída de cena dos últimos não resolve a questão central, que envolve também o reconhecimento e superação dos erros políticos estruturais da III República tanto em relação ao ordenamento do território como sobre o papel e funções das Forças Armadas. O que fazer com o território e com as espadas são questões inseparáveis daquilo que os portugueses pensam sobre a identidade e o futuro de Portugal. Num esquecido texto de abril de 1944, "A Chave da História de Portugal", J.A. Vaz Pinto (1903-1985) considerava como central a polémica iniciada no século XIX, com A. Quental, O. Martins entre outros, em torno do valor agrícola e produtivo do nosso território. Recorrendo aos melhores dados científicos da época, Vaz Pinto sustentava que num país que só conseguira satisfazer as suas necessidades de cereais entre 1839-55, e 1934-35, a expansão ultramarina era movida pela necessidade e não pela glória. Do ponto de vista da capacidade de carga ecológica "asfixiamos dentro do território da pátria... somos um país sobrepovoado." Vaz Pinto assinalava, por isso, "as herdades africanas", em particular "o planalto angolano" como uma nova, mas difícil, fronteira. Terminava Vaz Pinto, contudo, com um lúcido prognóstico: "Mais tarde ou mais cedo, porém, o português terá de se dedicar ao velho solar desprezado, terá de empreender a conquista vertical do território de origem." Todos sabemos como custa às nações em perda mirarem-se no espelho da história. A deriva dos nossos aliados britânicos bem o ilustra. Mas Portugal só pode ganhar força se reconhecer a sua fragilidade. A III República derrubou um regime que empurrou a nação para uma guerra ultramarina e um impulso colonizador em contraciclo, depois de décadas da retórica imperial de um líder que nunca colocou um pé em África. Mas hoje, Portugal parece ter considerado, erradamente, as suas apostas na UE e na NATO como substitutos da perdida retaguarda imperial. O que a tragédia de Pedrógão Grande significa é o custo cruel e insuportável da procrastinação: chegou o momento de o país apostar numa economia - intensiva em conhecimento e trabalho - voltada para a valorização económica, social e ambiental do território, incluindo o marítimo. Por seu turno, a humilhação de Tancos reclama por uma nova política de defesa nacional. Nesta era de crise global do ambiente, as ameaças globais de incidência regional exigem Forças Armadas com uma missão que não se reduza à projeção externa de pequenas e competentes unidades no âmbito da NATO ou da ONU.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt