DE QUE SÃO FEITOS OS SUPER- -HOMENS DO FUTEBOL MODERNO

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Ainda no Benfica não se extinguiram as ondas de choque provocadas pela saída de José Veiga e pelo livro que escreveu a contestar a política de Luís Filipe Vieira e foi a vez de o Sporting se agitar com a demissão de Carlos Freitas. Após a derrota no Bonfim, em jogo da Taça da Liga, quase todos os jogadores leoninos foram confrontados com perguntas que faziam associações directas entre a saída do administrador profissional com o pelouro do futebol e o mau momento vivido pela equipa. Responderam que Freitas não marcava golos, mas para todos era evidente que, no futebol-negócio altamente profissionalizado dos dias de hoje, a figura do "chefe do futebol" é uma das mais importantes na hierarquia de um clube.

"Não há coincidências", diz Álvaro Braga Júnior, o ex-jornalista desportivo que assumiu recentemente a presidência da SAD do Boavista, num momento que coincidiu com o regresso do clube aos resultados positivos. Braga Júnior, que já foi gestor profissional do futebol no FC Porto, no Farense, no Sporting, no Boavista e no Benfica, prefere destacar "a tranquilidade" que a entrada da nova equipa dirigente deu aos jogadores e treinadores para fazer a defesa de um modelo em que os plantéis sejam acompanhados de forma permanente e directa por um dirigente, seja ele um presidente-executivo ou um director do futebol. É, aliás, a essa noção que atribui o sucesso do FC Porto nos últimos 25 anos: "Foram os primeiros a perceber que era importante a mística, o amor ao clube, mas também a capacidade para fazer as coisas de uma forma profissional. Porque hoje em dia o futebol não se compadece com um dirigente que usa emblema na lapela mas chega ao clube ao fim da tarde", sintetiza.

Essa noção, também a tem Gaspar Ramos, o último dos dirigentes amadores do futebol do Benfica, embora não abdique da convicção de que o cargo deve ser desempenhado por um adepto do clube. "O profissionalismo faz todo o sentido. Eu, que nunca admiti ganhar um tostão com o futebol, era amador e não remunerado, mas trabalhava como um profissional. Porque o cargo exigia acompanhamento permanente e obrigava-me a abandonar a minha actividade profissional e a negligenciar a família". Foi por isso, diz Gaspar Ramos, que em 1996 decidiu deixar a posição e, com Manuel Damásio, avançou para a contratação de Toni para director-desportivo. "O Toni foi escolhido porque era uma pessoa séria, com competência técnica e disponibilidade para se dedicar ao cargo a tempo inteiro, mas também por ser benfiquista. Era fundamental ter conhecimento da realidade do clube para poder desempenhar o cargo".

Nestas palavras de Gaspar Ramos se começa a definir aquilo que deve ser um director-desportivo. Carlos Janela, que actualmente desempenha o cargo no Belenenses depois de o ter feito no Famalicão, no Sporting ou no Estoril, discorda da parte do coração - "quem tem que ser adepto dos clubes são os sócios e os presidentes e não os profissionais", diz - e junta umas achegas. "Ser director desportivo obriga a conhecer as tendências evolutivas do futebol, a ter conceitos de gestão técnico-administrativa, mas também boa capacidade de esquematizar quadros competitivos, sensibilidade para escolher material desportivo, domínio de línguas e boa capacidade de comunicação", diz Janela, para quem o cargo se aplica que nem uma luva a ex-futebolistas. "Tem que se ter sensibilidade do jogo e dos jogadores. É difícil ser um bom director desportivo não tendo sido jogador ou pelo menos não tendo nascido e vivido no meio do futebol", diz Janela, ex-futebolista modesto, no Riopele, mas sobretudo filho de um ex-jogador e treinador.

Carlos Godinho, o director do departamento de futebol responsável por todas as selecções nacionais e o mais antigo em funções no futebol português, nunca jogou futebol - "joguei basquetebol, no Barreirense", lembra -, mas não considera que isso lhe faça falta para melhor desempenhar as suas funções. De que precisa, então? "É claro que tenho que ter conhecimentos da modalidade e de desporto em geral, bem como uma grande dose de bom-senso. Depois preciso de conhecer o envolvimento administrativo, de saber falar línguas, de ter boas ligações internacionais", explica Godinho, que no entanto adverte para a diferença entre o cargo que desempenha na selecção e o que fazem os seus congéneres nos clubes. "À partida, porque os jogadores na selecção não são nossos funcionários. A minha função é gerir a presença deles apenas naqueles dias que estão connosco. Depois, também nunca dou opiniões sobre jogadores do ponto de vista técnico nem preciso de ir buscar futebolistas ao mercado", sublinha.

Numa coisa, contudo, todos estão de acordo: é impossível a uma equipa de topo viver sem um director desportivo profissional, presente a tempo inteiro junto dos jogadores. "É importante haver alguém que faça um diagnóstico real da equipa. Sem essa pessoa, os problemas ou não são detectados a tempo ou chegam à administração com fundamentos deturpados", diz Janela. "O Benfica e o Sporting terão que seguir este modelo, porque sem ter um suporte forte e visível é difícil chegar ao sucesso", reforça Godinho. "Nem me passa pela cabeça que uma equipa como Benfica não tenha um director desportivo e que seja o presidente a ocupar-se do assunto. Há 20 anos já tínhamos uma estrutura mais evoluída", conclui Gaspar Ramos.|

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