Da cisão no PCP à dissolução no Bloco

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A UDP é herdeira da divisão que se deu no Partido Comunista Português (PCP) na década de 60 devido ao conflito sino-soviético. Francisco Martins Rodrigues, um alto funcionário do PCP que esteve com Álvaro Cunhal na prisão de Peniche e que o acompanhou na fuga, foi o líder dessa ruptura - transformando-se, a partir de então, numa espécie de Papa da extrema-esquerda em Portugal. É um quadro típico do MUD juvenil nos anos 50 (como Carlos Brito ou Domingos Abrantes, que era mais novo) que fez a sua formação nas estruturas do PCP no período da guerra fria. Martins Rodrigues apoiava as críticas chinesas à União Soviética, criticava a "posição recuada" do PCP face à guerra colonial e defendia a passagem à luta armada.

Depois da fuga de Peniche, sai de Moscovo no final de 1963 em corte com Cunhal. Já em Paris, cria em 1964 duas organizações ligadas entre si o Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) e a Frente de Acção Popular (FAP). O projecto é refundar o "verdadeiro" partido comunista, que fará a revolução socialista; até lá, a "frente" agrupará classes sociais que não são comunistas - pequena burguesia, campesinato, etc. A FAP e o CMLP eram a representação desta dicotomia - a qual, depois do 25 de Abril, será retomada pela União Democrática Popular, UDP, e pelo Partido Comunista Reconstruído, PC(R), este último apresentando-se como "comunista autêntico" contra o "revisionismo" do partido de Cunhal.

Entre os fundadores de Paris, na maioria antigos militantes e funcionários comunistas, destacam-se o médico João Pulido Valente, que tivera um papel importante no PCP em Lisboa, e Rui D'Epinay, que pertencia a uma família que se mobilizara no apoio aos presos políticos. Ambos se juntam a Francisco Martins Rodrigues para regressarem a Portugal, mas uma nota publicada pelo Avante! denuncia a sua chegada. Voltam a Paris e acabam por só conseguir entrar no País meses depois, em 1965.

Presos pela PIDE. A FAP ainda consegue algumas acções no terreno, como uma bomba na escola da PIDE e um cocktail Molotov numa esquadra, mas Pulido Valente é preso pouco tempo depois devido a uma denúncia de Mário Mateus, um membro do PCP que trabalhava para a PIDE. Da cadeia consegue enviar a mensagem com a identidade do delator. Então, elementos da FAP liderados por Martins Rodrigues conseguem atrair Mateus, levam-no para o pinhal de Belas, interrogam-no e, perante a confissão, executam-no a tiro.

Passado pouco mais de um mês quase todos são presos pela PIDE e as suas estruturas em Portugal desmanteladas. Sofrem torturas muito violentas na cadeia, em especial Martins Rodrigues, por ter morto o informador. Foi ele, aliás, o primeiro português interrogado sob o efeito do "soro da verdade". Não aguenta e faz declarações, tal como Rui D'Epinay. Só Pulido Valente resiste, o que lhe valerá no pós-25 de Abril uma aura de heroicidade. Em contrapartida, Martins e D'Epinay ver-se-ão afastados de qualquer lugar de liderança.

Em Portugal a extrema-esquerda manterá então apenas alguma actividade no corredor S. João da Madeira-Vale do Ave, em que participam, por exemplo, Pedro Baptista e Pacheco Pereira, que integram uma mudança geracional no final dos anos 60. São estudantes que nunca tinham estado no PCP e que se fizeram politicamente no ambiente do Maio de 68. Esta vaga é muito contra o PCP, bastante criativa, radical e com tendência a subdividir-se em novos grupos.

Martins Rodrigues cria então, a partir da cadeia, o Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista para tentar forçar a união das organizações que tinham sido criadas fora da sua influência. Essas iniciativas vão ser completadas após o 25 de Abril, com um discurso de "unidade".

Papel tribunício. Sobre a formação da UDP e do PC(R) a revista Grande Reportagem, distribuída com este jornal, publica hoje uma reconstituição do seu percurso, desde o seu primeiro passo em 16 Dezembro de 1974.

A UDP conseguiu, na prática, ser o pólo de atracção para aqueles que, sendo de esquerda e achando que o PS era "um poço de contradições", não se reviam no PCP. Com a eleição de um deputado para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975 (lugar desempenhado por Américo Duarte) e de Acácio Barreiros nas legislativas de 1976, a UDP passa a desempenhar um papel essencialmente tribunício para uma juventude muito radical, mas muito preparada ideologicamente, e para certos meios operários. Em certas alturas a sua acção torna-se quase folclórica, ocupando o espaço de um PCP sempre muito táctico e que, no fundo, procurava, tal como hoje, ir para o Governo com o PS.

Quando, a partir de 1979 , começam a sair vagas de militantes, quase ninguém vai para o PCP. Muitos, como Acácio Barreiros, vão para o PS, encontrando-se lá depois com o MES de Jorge Sampaio e Ferro Rodrigues. Quando Mário Soares ganha a primeira volta em 1985 a UDP apoia-o e muitos pintasilguistas chegam-se ao PS.

Após uma coligação falhada com o PSR em 1983, a UDP consegue reeleger Mário Tomé como deputado independente em 1991 nas lista da CDU. Mas será em 1999, com o Bloco de Esquerda, que o partido regressa com Luís Fazenda ao antigo élan parlamentar, agora com menor carga ideológica.

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