Crime mais mediático do Brasil vai chegar ao cinema em 2019

Produção. <em>A Menina Que Matou os Pais</em> conta a história de Suzane von Richthofen, a jovem rica de 19 anos que planeou os assassínios, com a ajuda do namorado e do cunhado, em 2002.
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Todos os anos o Brasil regista 62,5 mil homicídios, 30 vezes mais do que a Europa, mas nenhum comoveu os brasileiros como o da morte do milionário casal Von Richthofen, numa zona nobre de São Paulo, em 2002, planeada pela filha do casal, pelo seu namorado e por um irmão deste. A distribuidora Vitrine Filmes anunciou na passada quarta-feira que em 2019 a história vai ser contada no cinema em forma de "thriller psicológico de suspense", sob realização de Maurício Eça e argumento da criminologista Ilana Casoy e do escritor de literatura policial Raphael Montes (ler entrevista). Ingredientes para thriller não faltam.

Em 1999, a abastada família Von Richthofen, constituída por Manfred, engenheiro alemão imigrado no Brasil e sobrinho-neto do famoso piloto de caça alemão Barão Vermelho, com quem partilhava primeiro e último nomes, Marísia, bem-sucedida psiquiatra descendente de portugueses e libaneses, e os filhos Suzane, então com 15 anos, e Andreas, de 12, foi passear ao Parque do Ibirapuera, maior zona verde de São Paulo. Lá, Andreas deixou-se encantar pelas manobras de Daniel Cravinhos, 17 anos, um jovem campeão de aeromodelismo. Mais tarde, com o membro mais novo do clã Von Richthofen a servir de cupido, Daniel e Suzane iniciaram um namoro atribulado.

Manfred e Marísia não se importaram com a relação até perceberem que Suzane faltava às aulas, dormia às escondidas na própria casa com Daniel e consumia drogas leves, como maconha, e menos leves, como ecstasy, fornecidas por Cristian, o problemático irmão mais velho de Daniel. Após discussões públicas entre ambos, Suzane pediu ao pai para lhe alugar um apartamento para ela morar com o namorado. Manfred respondeu com um rotundo "não" que se revelaria fatal.

Após dias de meticuloso planeamento, a 31 de outubro de 2002, Suzane, Daniel e Cristian simularam um roubo seguido de morte e usaram o ingénuo Andreas, à espera dos três num cibercafé, como álibi. Munidos de barras de ferro, porque acharam que armas de fogo poderiam alertar a vizinhança, Daniel e Cristian mataram Manfred e Marísia à paulada enquanto dormiam. Suzane esperou noutra divisão da mansão.

De regresso a casa horas depois acompanhada de Andreas, a jovem simulou susto por ver a porta escancarada e, sem subir ao quarto, chamou a polícia. O primeiro agente a chegar ao local estranhou que os eventuais ladrões tivessem deixado joias espalhadas pelo chão. E também se intrigou com a pergunta "como eles morreram?" de Suzane, quando ele ainda nem a tinha informado da morte dos pais. Ao prestarem depoimento, horas depois, Suzane e Daniel beijavam-se tranquilamente, o que fez aumentar as suspeitas da polícia.

Quatro anos depois, às três da manhã do dia 22 de julho em 2006, após cinco dias ininterruptos de um julgamento sob os holofotes incessantes dos media, os namorados foram condenados a 39 anos e meio de prisão e Cristian a 38 e meio. Três meses antes ficara na memória dos brasileiros a única entrevista exclusiva de Suzane após o crime, dada ao programa da Globo Fantástico, onde chorou copiosamente e acusou os Cravinhos pelo sucedido. No entanto, um microfone captou o advogado e a jovem a combinar o choro.

Só em 2014 Suzane voltou em força aos noticiários: na prisão, tornou-se o motivo da separação de Sandra Ruiz, criminosa de longo cadastro conhecida como Sandrão, que havia, entre outros ilícitos, sequestrado e matado um adolescente, e Elise Matsunaga, que matara e esquartejara o marido infiel, dono de um império na área alimentar. A sequestradora largou a esquartejadora e casou-se com a parricida/matricida na cadeia do Tremembé, a norte de São Paulo.

Porém, Suzane e Sandrão iniciaram, em 2016, um processo litigioso de divórcio por causa de uma disputa sobre a propriedade de três máquinas de costura industrial oferecidas por um apresentador de programas, Gugu Liberato, da TV Record, grato por casal lhe ter concedido uma entrevista.

Poucos meses depois, "a menina que matou os pais" conheceu durante o horário das visitas o empresário Rogério Olberg, de 37 anos, irmão de uma presa acusada de ajudar o marido a violar duas gémeas de 3 anos. Na Páscoa de 2016, Suzane encontrou-se pela primeira vez com o novo namorado fora do Tremembé, gozando de uma controversa saída para passar a Páscoa em liberdade.

Entretanto, o ex-namorado de Suzane e coautor do crime, Daniel Cravinhos, ganhou direito em 2013 ao regime semiaberto: pode trabalhar fora de dia mas deve dormir na cadeia. Em 2014, casou-se com Alyne Bento, uma biomédica que se queixa de ter perdido dois empregos em laboratórios depois de divulgada a ligação com o assassino.

Cristian Cravinhos, em regime semiaberto desde a mesma data do irmão, voltou à prisão em abril deste ano, depois de ser acusado de agressão à ex-companheira, porte de arma e tentativa de suborno a agentes da polícia.

Andreas von Richthofen, hoje com 30 anos, jamais perdoou a irmã, nem após os apelos dela naquela entrevista à TV Record. Foi notícia, há sete anos, por se formar com distinção em Química e mudar-se para a Suíça. Mas, no ano passado, durante a transferência da sinistra Cracolândia, região composta por dependentes em crack, de um bairro para outro de São Paulo, foi identificado como mais um viciado no meio da multidão, num casarão sombrio, não muito longe da mansão onde morara com a família.

A semanas da data prevista para iniciar as filmagens, a produção começou a testar o elenco para as personagens de Suzane, dos pais, de Daniel, de Cristian e de Andreas.

Três perguntas a

Raphael Montes

Argumentista

Numa história tão rica em acontecimentos, o argumento vai incidir em que fase - na motivação e preparação do crime, no julgamento ou já nos acontecimentos pós-prisão?

O caso Von Richthofen é um caso real que chocou todo o país, justamente por trazer uma menina de boa família que, com ajuda do namorado e do irmão do namorado, matou os pais. Filmes sobre crimes famosos são muito comuns na Europa e nos Estados Unidos mas ainda raros no Brasil. Ao pensarmos no argumento, eu e Ilana Casoy, criminóloga que acompanhou por dentro o caso na época, ancorámo-nos nos factos do processo que levaram ao crime. Longe de nós querer defender que os factos "justificam" ou "explicam" os crimes. Afinal, não há nada que justifique matar os pais. Ou há?

É mais difícil escrever um argumento de ficção ou baseado numa história real?

Sem dúvida, escrever um argumento de ficção ancorado numa história real. Para começar, é necessário um extenso e extenuante trabalho de pesquisa (o nosso durou mais de seis meses). Ao longo da escrita do argumento foi necessário fazer escolhas o tempo inteiro: o que merece ficar, o que deve sair? Como organizar os factos de modo a criar dramaturgia? Além disso, os factos da história real já foram explorados pela imprensa e são conhecidos do grande público, a dificuldade está em "como contar a história" de modo inovador, ainda não visto.

A alcunha Stephen King brasileiro agrada-lhe ou incomoda-o?

Não me importo de ser chamado de Stephen King brasileiro, afinal adoro os livros do King e cresci gostando de lê-los. Ao mesmo tempo, considero ruim quando a alcunha parece limitar de algum modo o meu trabalho. A violência é um extremo do ser humano. Para mim, tratar de violência é uma investigação à alma humana, aos seus limites e valores. Por isso, nos meus romances de suspense, como em Dias Perfeitos, publicado em Portugal, o meu interesse está principalmente na psicologia das personagens, na lógica por trás do crime.

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