Costa Vicentina: a face rebelde do Alentejo

É uma das mais belas costas de toda a Europa. Selvagem, abrupta, onde a melancolia da planície se faz falésia escarpada sobre o mar, e o povo alentejano mostra o seu lado de viajante intrépido, criador de histórias e poesia
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Podemos chegar de muitas formas a um lugar. E a literatura é uma das formas de transporte mais extraordinárias que o homem inventou. Chegamos assim ao Alentejo Atlântico pelas palavras de um escritor e de um poeta que souberam como poucos retratar a alma alentejana: Manuel da Fonseca e Al Berto

É mentira que o Alentejo seja dolente, acolhedor, humilde. E para compreender isso basta ler Seara de Vento ou Cerromaior para aprender o caráter voluntarioso, insubmisso e antagónico dos alentejanos expresso na sua melancolia suicida, na sua luta milenar contra a pobreza, contra a religião, contra a ditadura.

Façamos aqui um ponto de ordem: uma viagem deveria começar por deitar no lixo os lugares comuns veiculados pela cultura mediática e colocar dentro da mala obras de Manuel da Fonseca (oriundo de Santiago do Cacém) e poemas de Al Berto (natural de Sines).

Quem quer que parta rumo ao Alentejo, vindo do norte ou do sul, fará inevitavelmente a viagem junto às falésias escarpadas caindo a pique sobre o mar. Vale a pena parar no cabo Sardão, contornar o farol e abeirar-se do precipício que se abre para grutas côncavas batidas pelas ondas, e observar as várias espécies de aves que ali nidificam (águias, falcões, gaivotas, corvos-marinhos).

Ao longo de quase toda a costa que vai do cabo de Sines até ao cabo de São Vicente é possível parar junto às falésias ou mesmo estacionar os carros. Miradouros naturais frente a uma paisagem deslumbrante. Mas, como tudo o que é belo, também é terrível. Muitas são as histórias de gente solitária ou casais de amantes que, devido a um movimento mais ousado, fizeram destravar os carros e foram engolidos pelo abismo. Portanto há que ter cuidado ou parar apenas em zonas mais amenas como a Fortaleza da ilha do Pessegueiro (datada do século XVI) embora os vestígios mais antigos remontem à presença de cartaginenses, 218 a. C. Ou na Vila de Porto Côvo, onde o café e a marisqueira O Marquês cumprem o papel de anfitriões generosos. O mesmo acontece com os restaurantes O Luís e o Trinca Espinhas, em S.Torpes.

Aqui as chaminés de uma central termoelétrica anunciam a proximidade de Sines e do seu complexo industrial. Uma paisagem industrial de ferro, aço, prometendo um futuro português que nunca chegou a cumprir-se. Quem chegou longe foi Vasco da Gama, o navegante nascido em Sines. Aqui vale a pena visitar o castelo e depois comer (logo ali ao lado) uma torta de amêndoa nos Galegos ou visitar o Centro de Artes, que por estes dias acolhe o Sines Jazz.

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