Cortar com tudo isto

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Quando comemorar meio século de democracia
significa romper e exigir um tempo novo.

São mais de 10 mil homens e mulheres que dormem na rua, segundo as reportagens que o Diário de Notícias tem trazido nas suas páginas. São a face mais visível da miséria de uma sociedade nas ruas das cidades, gente sem casa, muitos com uma vida torturada. A estes somam-se muitos sem trabalho e milhões à beira da pobreza em Portugal. Estamos na época natalícia dos bons sentimentos e olhamos para ela para não vermos as razões da miséria e à espera que alguma caridade alivie a nossa má consciência.

Num livro de Slavoj Zizek, A Europa à Deriva, encontram-se duas citações da obra de Oscar Wilde, A Alma do Homem e o Socialismo: "É muito mais fácil ter-se simpatia para com o sofrimento do que ter-se simpatia para com o pensamento", e uma outra passagem de Wilde em que este defende que o simples horror ao sofrimento e a caridade em relação à pobreza não fazem mais que prolongar as suas causas e aliviar a consciência dos responsáveis por essa situação. "Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os. Mas isso não é uma solução, é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é ensaiar reconstruir a sociedade sobre uma base em que tal pobreza venha a ser impossível. E as virtudes altruístas têm, sem dúvida, impedido a realização de tal desígnio", conclui o autor de A Importância de Ser Ernesto.

Estamos perto de comemorar os 50 anos da revolução portuguesa que prometeu democratizar, descolonizar e desenvolver. Uma revolução interrompida, como todas, mas que nos permite pensar livremente.

Preparam-se múltiplas celebrações, em vez de assinalar uma espécie de continuidade do tempo, estamos perante uma espécie de enterro a passo de ganso, numa altura em que cresce a extrema-direita.

Em que medida comemorar deixou de ser dar vida, e passou a ser prender as coisas num passado empalhado? Se calhar, 50 anos são mais que tempo para exigir um tempo novo de novo.

Ser fiel a uma revolução não significa ficar preso a um passado. Mas perceber que essa fidelidade é romper com a trama deste tempo, propondo um momento de rutura que resolva os problemas do presente.

A história é imprevisível, as lutas do presente devem manter os olhos abertos sobre as derrotas passadas, porque cada tragédia guarda uma promessa de redenção e o olhar dos vencidos é mais inspirador do que a propaganda dos vencedores de turno. As ruínas das batalhas perdidas são, também, o coração de onde nascem novas ideias e novos projetos.

Convocar a memória é uma forma de chamar os nossos à vida e lembrar aquilo que nos trouxe até aqui. A ideia que o futuro se decide no presente escamoteia uma ideia muito mais garantida: o passado está permanentemente em disputa. Esta luta que se dá perante os nossos olhos sobre aquilo que verdadeiramente aconteceu é um combate, por outros meios, sobre o que queremos obter num futuro em que a miséria não se multiplique nas ruas e que as pessoas tenham uma vida justa.

O revolucionário francês Louis Auguste Blanqui esteve preso 37 anos. Na sua última prisão, nas vésperas da Comuna de Paris, escreveu um enigmático texto chamado A Eternidade Conforme os Astros. Páginas esquecidas que o malogrado pensador Walter Benjamin comparava a Baudelaire. Nelas, o homem das muitas conspirações dos iguais remetia para um universo frio e infinito as possibilidades de novas formas de vida e sociedade que triunfassem onde a humanidade tinha tropeçado. "Saberão, por certo, que o céu obedece às leis da igualdade e encontra em si mesmo os recursos para escapar à morte. Mas saberão que esse combate da vida contra a morte é um drama que não tem nem começo nem fim, que obriga os que o tomam como modelo a travar um combate indefinidamente repetido, e apenas certo quanto a uma coisa: que nenhum final feliz se encontra no fim do caminho". Nada é garantido, mas tudo é possível se fizermos alguma coisa.

Editor-chefe do Diário de Notícias

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