O lema do presidente Trump - "Make America Great Again" - começou a levantar dúvidas, no que respeita à estratégia de defesa, quando em 2016 afirmou que o Tratado do Atlântico Norte era obsoleto, não esclarecendo então se tinha em vista o orçamento para o qual entendia que os aliados não pagavam a fatura suficiente ou se lhe "ocorria" uma revisão da doutrina e valores. Um domínio em que é possível que existam visões diferentes, designadamente pela variação da espécie de ameaça como é a do terrorismo, domínio em que o ataque às Torres Gémeas não se apagará da memória americana, mas também sobre a complexa questão dos emergentes e consequentemente a variação da hierarquia das potências. Embora o TheNational Security Strategy, publicado em fins de 2017, acentuasse as orientações duradoiras da estratégia nacional, pondo naturalmente em primeiro lugar a proteção dos EUA, também lembrava as alianças, mas rapidamente a imprevisibilidade do presidente alarmava quanto à importância que dava ao atlantismo, aproveitando a Assembleia Geral da ONU para questionar a oportunidade do multilateralismo, em termos de ter recolhido uma desrespeitosa gargalhada geral da Assembleia. Há meses, o general-comandante das forças americanas da NATO, ao despedir-se em fim de mandato, vaticinou que dentro de 15 anos a China e os EUA estarão em guerra, um período curto de espera mas não suficiente para que o atual presidente ainda esteja em funções. Mas em vista das dúvidas sobre o atlantismo americano que foram divulgadas, e a lembrança de que a Rússia fez de si ocupando tranquila a Crimeia, tudo levou a que o Pentágono fizesse valer a política de manter uma superioridade em todas as circunstâncias, independentemente de qualquer antigo rival ou emergente. A União Europeia não ficou, nem seria aceitável que ficasse, alheia a esta situação, em que o destino do atlantismo é subitamente inquietante, não necessariamente por ameaças, mas por insegurança de diretiva no seio da Aliança, sobretudo depois da apreciação negativa do multilateralismo, dúvida que vai da Organização Mundial do Comércio à Aliança Atlântica, neste caso bem fundada quando pediu à Europa que assuma mais encargos e uma mais direta responsabilidade pela sua própria defesa. Nos órgãos de gestão da União não falta a meditação sobre a necessidade de melhorar a cooperação dos seus membros, de procurar uma política externa solidária e, sem pôr em causa a Aliança Atlântica, a prudência de organizar uma segurança comum, não apenas interna mas também externa. Não faltam problemas, a exigir visão integrada, quer interesses na África, quer a atitude da Rússia, quer o Médio Oriente, as migrações, a crescente importância global dos emergentes. As fronteiras internas que as eleições próximas acentuarão exigem um esforço excecional da adesão segura ao europeísmo. E aqui o problema do Brexit e os seus inevitáveis corolários implicam o difícil desafio de uma visão e de uma capacidade a longo termo. A sociedade civil terá ela própria de se manifestar para que se chegue a um apoio da opinião dos diferentes eleitorados. O Reino Unido teve nas duas guerras mundiais, na Guerra Fria e neste período após a queda do Muro de Berlim uma contribuição inesquecível, mas ao sair leva consigo a maior esquadra e talvez o maior exército dos membros da União. Não significa que consolide a opinião de Margaret Thatcher quanto à superioridade dos saxónicos, mas não parece fácil e evidente que o Brexit - sobretudo sem acordo ou mau acordo, pondo em evidência as dificuldades esperáveis para a Grã-Bretanha por não ser um Estado nacional - não torne insegura a convicção de que será a parceira responsável, empenhada e largamente indispensável, que manterá a linha em que se inscrevem os sacrifícios feitos para a libertação da Europa, sobretudo na Segunda Guerra Mundial. Os mais otimistas mantêm a esperança de que - depois da desordem criada pelo acontecimento no quadro partidário, na atitude das regiões, na sociedade civil, nas economia e faturas de saída - entre os numerosos temas que, por natureza, implicarão desejada cooperação entre União e Reino Unido se encontram a política externa e a segurança e defesa. O facto de o tema não ter aparecido na discussão pública conhecida lembra outros esquecimentos bem lembrados do passado. Mas essa não parece ser solução indicada para o mundo de ruturas em que nos encontramos, com sucessivas cimeiras inconclusivas sobre o futuro desejável, consentindo que a realidade vá desenvolvendo um futuro não planeado, surpreendente, e em muitos aspetos incontrolável. A semântica obediente pode afirmar excelentes os resultados das cimeiras. Mas não garante a concordância da realidade em movimento.