Estreia na realização de alguém que conhecíamos como argumentista e realizador de estimulantes curtas-metragens. Eduardo Brito aceitou a encomenda de um filme que é tudo menos uma encomenda, mesmo se pensarmos que foi pensado para surgir nos timings das celebrações do centenário de Agustina Bessa Luís, autora do romance homónimo. O tal livro que Manoel de Oliveira nunca quis fazer pois implicava filmar uma projeção da própria autora..Nesta adaptação de Eduardo Brito sente-se uma vontade explícita de respeitar a obra e o espírito "assombrado" de Agustina, mas sente-se ainda mais um desejo de não fazer à Oliveira, por muito que o imaginário do seu cinema e as cadências de partilha com o universo da escritora pudessem advogar todo um caderno estilístico..Esta é uma vantagem, acrescida ao facto de haver uma noção de abreviação certeira: este não é um filme "calhamaço", tem 1 hora e 20 minutos quase sempre certeiros, dando a ideia de que se foi àquilo que de mais essencial o livro transmitia, neste caso a história em analepse de uma relação entre tia e sobrinha no norte de Portugal, na Região do Douro, em meados do século XX. Uma relação de fascínio e poder feminino num microcosmos de culpa, ambição e ciúme. De um lado, Quina, a tia que nunca se casou, mas que constituiu fortuna e soube jogar com um potencial dom sobrenatural e, do outro, a sobrinha, Germana, espelho da própria tia, mulher moderna que deseja ser escritora..A discreta, discretíssima câmara de Brito, pontuada pela luz subtilmente mágica do grande diretor de fotografia Mário Castanheira, tem a distância certa destas mulheres fortes e complexas. Não está perto, nem longe demais, tem um pudor a raiar a perfeição, ou seja, a sensibilidade feminina que um homem com bom senso deve ter, mesmo que muitas vezes algumas sequências sejam, aqui e ali, neutras demais. Possivelmente essa é a limitação do projeto; uma certa correção (necessária) a mais..E porque era importante o peso da palavra, a narração oral, por muito que esteja sempre como pontuação, surge como "tour de force". Opção válida, mas que pode retirar algum do estremecimento entre uma possível relação de abstracionismo e a figuração, na qual o caráter elusivo das personagens e das suas solidões negras joga papel fundamental. Mas fundamental em tudo isto é a firmeza com que as duas atrizes propostas encetam esse jogo: Maria João Pinho "desaparece" no ato e Joana Ribeiro mostra uma segurança de veterano..Neste conto do Douro, Eduardo Brito consegue ainda dar pistas sobre um possível tratado acerca do que a literatura pode dar ao cinema. Dessas pistas, muitos e variados pontos de reflexão. De reflexão e de exclamação, o maior deles a maneira como o tempo das palavras suspende tudo o resto. Essa a poética maior deste objeto de época que tem uma serenidade refrescante. Se calhar, o tal "infilmável" A Sibila adivinhava-se como um objeto encarnado numa variação mais tensa, mas não..Voilá, é bom ainda sentirmos surpresas no cinema português, por muito que o ensimesmamento que o debutante realizador menciona na entrevista aqui ao lado seja sempre daquelas quimeras dramatúrgicas da ordem do impossível..E, do ponto de vista de produção, aí está um exemplo de uma produção portuguesa que conseguiu ser feita sem verbas do ICA.