João e Diana duplicaram o tamanho da família e têm hoje quatro filhos com idades entre os 2 e os 13 anos. Carolina, a mais velha dos quatro irmãos, está em plena adolescência. "Há brigas dela com todos", conta ao DN a mãe, Diana Ralha. Não quer que o irmão António, de 8 anos, entre no quarto e, embora se esteja "a marimbar" para as bonecas, recusa-se a emprestá-las às irmãs Aurora e Isaura, de 3 e 2 anos, respetivamente. Todos os dias há conflitos. Discussões, berros, portas que batem. Em causa estão, muitas vezes, os ciúmes do pai e da mãe. Até há um sistema rotativo para os lugares à mesa, porque a disputa pelos lugares ao lado dos adultos era motivo de discussão diária.."Há muita rivalidade e discussão, porque têm personalidades muito distintas. Mas, por outro lado, puxam muito uns pelos outros e ajudam-se imenso." Diana e João tentam não estar sempre a intervir. "Mas às vezes é preciso um berro para repor a autoridade.".As brigas entre irmãos fazem parte do crescimento e, segundo os especialistas, até são saudáveis para as crianças. O que não é correto, dizem, é os pais estarem constantemente a interferir. "Se pensarmos em coisas do dia-a-dia, não muito extremadas, é bom que os pais não cedam à tentação de estar sempre a intervir. Devemos dar a oportunidade de resolverem o conflito sozinhos, porque isso estimula a autonomia", refere Inês Afonso Marques, coordenadora da área infantojuvenil da Oficina da Psicologia. Isto não quer dizer, ressalva, que ignorem por completo o que está a acontecer. "Devem ficar na retaguarda.".A rivalidade entre irmãos é comum a todas as famílias onde há mais do que uma criança. "E desejável. Há duas ou mais pessoas a tentarem expressar-se e ter o seu espaço, pelo que é normal que surjam conflitos. Se não for permanente e de forma unilateral, é saudável", sublinha a psicóloga. A partilha, a gestão do espaço e da atenção de outras pessoas "provoca rivalidade, disputa"..Paulo Vitória, psicólogo e terapeuta familiar, tem uma opinião semelhante: "Onde há pessoas com relações próximas, existem tensões e conflitos. Estes são edificantes, motores do desenvolvimento. Os pais devem partir do princípio que são uma prova de amor, porque só nos desiludimos e chateamos quando as pessoas são importantes para nós." Destacando que os pais devem dar espaço para que o conflito seja vivido, o professor na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior alerta que é necessário "garantir que as linhas vermelhas não são ultrapassadas". Refere-se, por exemplo, a agressões físicas ou verbais..Idades próximas, menos brigas.António só costuma embirrar com a irmã mais velha. Já as duas mais novas quase nunca se chateiam. Analisando a relação dos filhos, Diana Ralha, 38 anos, conclui que "em idades muito próximas as brigas são menores. Há uma partilha maior". Paulo Vitória confirma: "Com diferenças mais acentuadas, existem grandes divergências no processo de desenvolvimento. Quando nasce um irmão e o outro já tem 4 ou 5 anos, há um nível de consciência maior e uma procura de afirmação com os pais. Não há muita disponibilidade para acolher um bebé." Se for alguns anos antes ou depois, tende a aceitar melhor..Foi o que aconteceu com Filipe Santos, agora com 38 anos, e a irmã, Rita, de 29. "Tinha 9 anos quando ela nasceu e assumi o papel de cuidador. Mudava fraldas, dava-lhe comida, tomava conta dela", recorda. No entanto, ressalva, a irmã cresceu e surgiram as discussões diárias. "E alguma violência", graceja. Só quando Rita se tornou adolescente é que os ânimos acalmaram..As crianças podem ser filhas dos mesmos pais e viver debaixo do mesmo teto, que vão ser sempre diferentes umas das outras. "Em consulta, os pais dizem que não fazem comparações, mas, subtilmente, isso acontece", revela Inês Afonso Marques. Há tendência para dizer que o irmão tinha melhores notas, que não precisava de estudar tanto ou que era mais arrumado. "Isto é relativamente comum e faz que haja uma maior fragilidade da auto- imagem. A criança sente-se constantemente inferior. É preciso ter a consciência de que não há dois filhos iguais." Por vezes as comparações nem são explícitas. "Há um elogio maior a uma nota do irmão ou uma conversa entre adultos que a criança ouve.".Cristina Valente, psicóloga e autora do livro Coaching para Pais - Estratégias e Ferramentas Práticas para Educar os Nossos Filhos, diz que, embora os pais amem de igual forma os filhos, "preferem interagir com aqueles que são mais parecidos consigo em termos de temperamento e personalidade". É "natural" que isso aconteça, frisa, embora os pais tenham dificuldade em aceitá-lo. No entanto, prossegue, é necessário existir essa consciência para que "haja um esforço para dar um tratamento igual às crianças"..Segundo Cristina Valente, "a razão pela qual os miúdos conflituam é uma tentativa de perceber de quem é que os pais gostam mais". Por isso, explica, a única forma de não deixar que usem o conflito como chamada de atenção é "não entrar no jogo, não fazer nada". Até porque os pais não conhecem o jogo desde o início, pelo que podem ter uma atitude injusta com algum dos intervenientes. Como há a tendência para "estarem sempre a policiar, os miúdos vão exacerbando os comportamentos".