Condessa d'Edla, um tributo após o esquecimento

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Foi uma relação de amor maior do que a própria vida a que construiu com um homem de excepção - D. Fernando II, de quem foi segunda mulher -, com as artes, com a criação de jardins em praticamente todos os lugares onde viveu. Uma relação de rara afinidade que uma campanha brutal, mesmo no quadro da mais violenta tradição polemista do Portugal de Oitocentos, procurou incessantemente destruir.

Não o conseguiu, mas ficaram feridas, entre elas o longo e inexplicável esquecimento a que Elise Hensler foi votada pela historiografia portuguesa. Até há pouco: reconstituíndo, fragmento a fragmento, o extraordinário percurso desta mulher, Teresa Rebelo, antiga jornalista da RTP, deu à estampa Condessa d'Edla - A cantora de ópera quasi rainha de Portugal e de Espanha (1836-1929), biografia esta semana lançada no Teatro Nacional de S. Carlos.

O "lugar certo, depois de Sintra", como afirmou Zita Seabra, da Alêtheia Editores, para o lançamento de "uma obra que merecia ser editada, tal como a Condessa d'Edla merecia há muito uma biografia". Não apenas na perspectiva da mulher que se tornará o "pilar da existência de D. Fernando" após um período trágico de sucessivos lutos, mas "também pelos seus méritos próprios", como frisou, por seu turno, o musicólogo Rui Vieira Nery.

Nomeadamente "pela coragem desta mulher que enfrenta um muro de preconceito difícil de vencer, rodeando-se de espaços de beleza e de paz". E que formará, ao lado de D. Fernando, "um dos mais importantes pólos de animação cultural e artística do Portugal de Oitocentos". "Animando a ideia de preservação do património, protegendo artistas" - Viana da Mota e Columbano, desde logo -, "num olhar inteligente e sensível".

As razões do longo esquecimento a que a Condessa d'Edla foi votada serão várias, mas uma delas tende a sobrepor-se: como recordou Rui Vieira Nery, "não há, na historiografia portuguesa, uma grande tradição biográfica. Há sempre o olhar da estrutura, do tempo longo, e escapam-nos as pessoas, com os seus percursos individuais irrepetíveis". Neste particular, bastará lembrar como, à parte contributos dispersos e duas obras-chave, de Ernesto Soares e de José Teixeira, o próprio D. Fernando não tem, ainda hoje, uma biografia, apesar do muito que Portugal lhe deve."E, no entanto, frisou ainda Vieira Nery, a "história individual é também uma chave para a história social".

Na vida desta mulher que facilmente poderia ter partido em face da sua longa viuvez há também uma chave: o seu amor por Portugal, onde ficou até ao fim. Encimado por uma réplica da Cruz Alta da Serra de Sintra, o seu jazigo nos Prazeres encerra, aliás, essa mensagem- uma vez mais, maior que a própria vida.

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