Quem ouvir o primeiro minuto e 46 segundos da faixa introdutória de Canções Subterrâneas, o álbum de estreia do grupo A Naifa, sem conhecer a fundo o projecto, pode pensar que é apenas uma tentativa convencional de recuperar as memórias melódicas do fado. Os acordes tradicionais e o burburinho das tascas não deixam antever o que se vai passar de seguida sons modernos, electrónicos, em busca de uma nova alma musical portuguesa..A Naifa foi uma das surpresas de 2004 que tenta agora mostrar a sua identidade artística em palco, com a digressão a começar hoje, às 21.30, na Casa Cultural de Beja. Com letras de José Luís Peixoto, José Miguel Silva ou Adília Lopes, os dez temas de Canções Subterrâneas revelam ousadia e desejo de descoberta rítmica (próximos de uma peculiar dance pop) que um ouvido mais preconceituoso pode ter dificuldade em assimilar à primeira..Tentando contornar rótulos, o projecto conta com Luís Varatojo (rosto conhecido dos Peste & Sida e Despe & Siga) na guitarra portuguesa, João Aguardela (ex-Sitiados) no baixo, Vasco Vaz na bateria e uma segura Maria Antónia Mendes (Mitó) na voz. Um quarteto de ruptura que pretende "cortar" (numa alusão ao nome do grupo) com o passado de um género, sem desvirtuá-lo. O objectivo pode nem sempre ser bem concretizado, mas introduz novas metas para um género de rua, que se vê agora transfor- mado pela sofisticação de sintetizadores..O fado de A Naifa é dinâmico e envolvente, com um especial cuidado nas letras e na veia rítmica cosmopolita. A digressão, que se inicia hoje em Beja, constitui uma oportunidade para perceber que novos contornos os temas de Canções Subterrâneas, como Perigo de Explosão ou Bairro Velho, assumem "à superfície" de um palco. .Segue-se, amanhã, às 21.30, um concerto em Faro, no Grande Auditório da Universidade do Algarve. Até Maio, os Naifa passam ainda pela Guarda, Aveiro, Coimbra, Porto, Évora e Lisboa.