O secretário-geral das Nações Unidas voltou à carga para exigir que à população da Faixa de Gaza chegue a assistência de que necessita para sobreviver. "A forma como Israel está a conduzir esta ofensiva está a criar enormes obstáculos à distribuição de ajuda humanitária dentro de Gaza", disse António Guterres, um dia depois de uma resolução do Conselho de Segurança que apela à aceleração imediata da distribuição de ajuda aos civis do enclave, mas sem o apelo à "suspensão urgente das hostilidades" entre Israel e o Hamas que constava no documento original..Para Guterres, "uma operação de ajuda eficaz em Gaza requer segurança; pessoal que possa trabalhar a salvo; capacidade logística; e a retoma da atividade comercial" e nenhuma destas condições se verifica. Segundo a diretora executiva interina da ONG Oxfam, Aleema Shivji, será "demasiado tarde" para salvar a população de Gaza se a resolução das Nações Unidas não for alterada de forma a incluir um cessar-fogo imediato. Sem essa pausa, a Oxfam "não vê como é possível" fazer chegar ajuda suficiente à população do território, disse, citada pela Sky News..No mais recente relatório de uma plataforma da ONU sobre segurança alimentar conclui-se que mais de um em cada quatro agregados familiares em Gaza enfrenta uma carência alimentar extrema e existe o risco de fome nos próximos seis meses, a menos que seja restabelecido o acesso a alimentos, água potável e serviços de saúde e saneamento..O relatório, que cruza informação do Programa Alimentar Mundial (PAM) e de outras agências da ONU, estima que 26% dos habitantes de Gaza, ou seja, mais de meio milhão, esgotaram as reservas alimentares e enfrentam uma "fome catastrófica". "Não se trata apenas de números. Há crianças, mulheres e homens concretos por detrás destas estatísticas alarmantes. A complexidade, a magnitude e a rapidez com que esta crise se tem desenrolado não têm precedentes", comentou o economista-chefe do PAM, Arif Husain..No terreno, a agência de ajuda aos palestinianos (UNRWA) lamenta as novas ordens emitidas pelas autoridades de Israel para que cerca de 150 mil pessoas se desloquem do centro de Gaza para sul, Deir-al-Balah, onde se registaram bombardeamentos. "Não há lugares seguros, não há sítios para ir. As pessoas de Gaza não são peões e algumas já foram deslocadas várias vezes", disse o diretor da UNRWA. Além do mais, afirma a agência da ONU, nestas condições não se consegue distribuir ajuda..No que respeita às operações militares, o exército israelita disse ter prendido mais de 200 militantes do Hamas e da Jihad Islâmica durante a semana e matado nas últimas horas dezenas de combatentes no norte de Gaza, enquanto cinco soldados perderam a vida. Do lado do Hamas, um comunicado informou que foi perdido o contacto com um grupo responsável pela detenção de cinco reféns, presumindo que todos tenham sido mortos num ataque aéreo..Em Telavive, milhares de pessoas saíram às ruas para se manifestarem contra o governo de Benjamin Netanyahu, enquanto este, em telefonema ao presidente Joe Biden, agradeceu aos EUA pelo papel determinante em evitar uma resolução mais musculada no Conselho de Segurança, após vários dias de negociações e adiamentos, e que resultaram na ausência no referido apelo ao cessar dos combates, bem como o bloqueio à criação de um mecanismo de controlo por parte da ONU, garantindo que Israel mantém um papel na inspeção da ajuda humanitária..cesar.avo@dn.pt