Colher cacho a cacho para os topos de gama

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"Ó D. Maria!", gritou Casimiro Gomes da ponta da linha de videiras para a chefe do grupo de mulheres que andava a cortar os cachos. "Parem quando acabar esta linha, deixamos o resto para outro dia", ordenou. "Agora vamos apanhar cinco linhas da vinha ali de cima."

A mulher cruzou as mãos sobre a barriga e fez o ar de quem está a olhar para um maluco "Ó sr. engenheiro, isso não tem jeito nenhum!", exclamou. "Acabamos este talhão e vamos depois", pediu. E rematou, apreensiva: "Hoje só querem que deixemos as coisas a meio, não vos percebo..." O administrador da Dão Sul embrulhou um "tem que ser assim!" num sorriso, mas ele próprio começou a pensar se tanto cuidado numa vindima qualitativa (chamemos-lhe assim) justificava o que se estava a gastar em tempo e em dinheiro.

À noite, quando o sócio Carlos Lucas chegou de uma rápida visita às quintas do Douro, protestou com ele em plena adega. Mas Lucas, que tinha desenhado o itinerário da vindima para aquela segunda-feira, não lhe deu muita conversa "Queres topos de gama ou não queres?", perguntou. "Então tem de ser assim!"

A Dão Sul é a grande empresa de Carregal do Sal que, entre muitas outras marcas, produz a Quinta de Cabriz, marca que tem na Colheita Seleccionada o seu vinho de combate, com cerca de 2,5 milhões de garrafas anuais. Têm participações em quintas de Norte a Sul de Portugal (ver outro texto) e uma herdade no Brasil, a 700 quilómetros do Recife, que produz 1,3 milhões de garrafas de Rio Sol (um tinto honesto, correcto, bom para acompanhar comida) para os mercados brasileiro e da Europa do Norte. Têm protocolos com o Instituto Superior de Agronomia e a Universidade de Aveiro, aderiram à COTEC, foram a primeira empresa portuguesa a candidatar-se aos núcleos de investigação científica (NITEC).

"Este ano decidimos não fazer a desfolha", conta Casimiro Gomes, uma decisão que veio a revelar-se providencial, uma vez que não só tiveram mais superfície a trabalhar para os cachos como - num ano de seca intensa - estes tiveram maior protecção para a impiedade do sol. Depois fizeram a monda em verde, deitando para o chão os cachos com a maturação mais atrasada. Já em Agosto podiam ter feito a vindima mais cedo, mas decidiram esperar. Mesmo assim, Carlos Lucas não se lembra de um ano com uvas tão irregulares "Encontramos diferenças dentro da mesma vinha, na mesma linha, no mesmo cacho."

A touriga francesa foi a mais irregular, tal como no Douro (ver texto da Quinta do Vale Meão) fermentou à parte, não entrou no lote. Por causa de contingências como essa, explica Casimiro, "não se pode colher a eito, não se pode vindimar o talhão todo - tem de se fazer uma vindima qualitativa, em que anda sempre uma equipa de técnicos à frente a dizer o que podem e o que não podem vindimar." A Lucas esta conversa dá-lhe vontade de filosofar: "São os custos de também se querer apontar a padrões altos."

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