Quando em 2015 editou o álbum a solo Guitarra Makaka - Danças a um Deus Desconhecido, Tó Trips decerto não imaginaria como aqueles temas algo nostálgicos, inspirados em destinos mais ou menos distantes como Cabo Verde, Mali ou Marrocos, se transformassem um dia no manifesto de resistência, mas também de festa que dá pelo nome de Club Makumba. Tudo começou aquando da digressão de Guitarra Makaka, quando Tó Trips, como o próprio recorda ao DN, convidou o baterista e percussionista João Doce para o acompanhar ao vivo: "Por vezes é um bocado chato andar sozinho na estrada e como já conhecia o João do tempo dos Wraygunn e gosto imenso dele enquanto músico e pessoa, achei que podia dar bom resultado". E pelos vistos deu também uma banda, pois pouco tempo depois começou logo a tomar forma o que são hoje os Club Makumba.."Alguns dos temas do disco vêm desse período inicial e quando em junho de 2019 formámos a banda já tínhamos quase tudo alinhavado", conta o guitarrista. As gravações ficaram concluídas logo em novembro desse ano e o plano era editar o disco no início de 2020, mas entretanto veio a pandemia. "Optámos então por adiar até 2021, quando todos esperávamos já tudo tivesse voltado ao normal. Mas depois veio a pandemia outra vez e teve mesmo ser agora, já não íamos esperar mais", confessa o músico. E em boa hora o fizeram, porque música desta não merece ficar por ouvir, por dançar e muito menos por tocar, pois é em palco que os Club Makumba vão jogar todos os seus trunfos. "Ao vivo a nossa sonoridade terá certamente mais força, porque a ideia foi sempre ter esse lado também de dança, meio africano meio mediterrânico, que nos permitisse fazer de cada concerto uma festa" assegura Tó Trips. E são muitas as influências que se cruzam nesta "fusão de cartografias rock", por entre "guitarras das costas do sul, ritmos quentes do norte de áfrica", mas também jazz e "melodias e afinações antigas", materializadas em 11 poderosos temas instrumentais. "Tem esse lado multicultural, que apela ao movimento, mas também tem um lado clashiano, no sentido mais panfletário do termo, pela causa das migrações e do direito das pessoas a lutar por uma vida melhor neste lado do mundo", defende o músico, explicando dessa forma a própria capa do disco, inspirada na famosa pintura A Jangada da Medusa, de Théodore Géricault, mas neste caso "alterada com o símbolo do dólar"..E agora, assegura, estão "prontos para comer a relva", que é como quem diz tocar tanto quanto que puderem. "Depois de apresentarmos o disco no CCB vamos fazer a clássica digressão pelos clubes. Com os Dead Combo também fizemos isso, é sempre por onde se começa". Além de Tó Trips e João Doce, os Club Makumba contam ainda com Gonçalo Prazeres no saxofone e Gonçalo Leonardo no contrabaixo, dois músicos que também já tinham participado no último álbum dos Dead Combo, Odeon Hotel, editado em 2018. E talvez por isso, num ou noutro tema, haja algumas ressonâncias da banda de Tó Trips e Pedro Gonçalves. "É possível, não pensei nisso, mas também não gosto de teorizar muito. Este é um projeto mais global, enquanto os Dead Combo tinham um imaginário português muito mais assumido e se calhar por isso é que tiveram tanto sucesso", afirma. E os Club Makumba, poderão um dia repetir o êxito dos Dead Combo? "É um projeto com pernas para andar, sem dúvida. Logo se vê, se o público não aparecer, o melhor é mesmo desistir, embora não acredite muito nisso", diz com humor. "Quando era mais novo é que passava o tempo a fazer planos, mas depois nunca fazia nada, por isso, agora, prefiro pensar apenas um dia de cada vez. Mesmo os Dead Combo, nunca pensei que chegassem onde chegaram. Se tivesse de apostar o meu dinheiro neles não o faria (risos)"..CCB, Lisboa. 27 de janeiro, quinta-feira 21h. €10,5 a €13